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Por Bruno Toledo (OC)

FelipeCalderonCOP20“Se a evidência é tão clara, se o nível do mar está subindo, se os eventos climáticos extremos que estamos vivendo são evidentes para qualquer um – por que não estamos agindo agora?”

A fala do ex-presidente mexicano Felipe Calderón, feita durante cerimônia nesta quinta-feira (11/12) do Climate Action Day na Conferência de Lima, sumariza o assombro que muitas pessoas, veteranas e novatas nas negociações internacionais em clima, estão tendo com a lentidão do processo político na COP 20. Como um problema pode ser tão urgente e ameaçador e as nossas lideranças políticas serem tão incapazes de se reunir para construir um caminho de enfrentamento imediato e efetivo?

Ontem, quando a sociedade civil foi às ruas de Lima pedir por mais ambição e ação climática, os gritos da marcha anteciparam o que Calderón falou de forma polida: precisamos agir, e precisamos fazer isso agora! Não existe amanhã quando estamos tentando conter o aquecimento do planeta em 2oC neste século, porque o business as usual está nos levando para uma trajetória que baterá 5oC de aumento da temperatura média do planeta nas próximas décadas. A diferença de três graus centígrados não é pequena: é a diferença entre um clima relativamente contornável, com efeitos colaterais possíveis de serem suportados sem grandes mudanças, e um clima catastrófico, com impactos que sequer somos capazes de prever, mesmo com a tecnologia que temos hoje.

No entanto, a urgência é um ator curioso em Lima. Está presente em todos os discursos, de todos os setores, em todos os momentos públicos. Porém, quando chega a hora de discutir e negociar, a credencial da urgência é sumariamente cassada na COP 20: falta urgência e sobra lentidão. Por exemplo, há cinco anos estamos discutindo o compromisso assumido pelos países desenvolvidos em destinar recursos para o fundo climático verde (GCF, sigla em inglês) de forma escalonada, com o objetivo de atingir a média de US$ 100 bilhões a partir de 2020. O GCF começou a receber recursos apenas neste ano, e o montante é de apenas 10% da meta para o final dessa década. Por mais que os países em desenvolvimento, que dependem desse fundo para financiar suas atividades de mitigação e transição para o baixo carbono, defendam nos corredores e plenários da COP, não temos um roadmap que assegure a esses países que o compromisso dos US$ 100 bilhões anuais será atingido até 2020. Ou seja: a coisa está na base do “acredite, se quiser”.

Falta dinheiro e falta ambição. Mesmo com o consenso de que todos os países terão algum grau de compromisso de redução no futuro acordo climático, a diferenciação dessas metas é um asteróide no sapato dos negociadores. Para os países desenvolvidos, a divisão precisa ser justa a partir do cenário atual das emissões: ou seja, os grandes emissores, países ricos ou não, terão os compromissos mais abrangentes em mitigação. Para os países em desenvolvimento, particularmente o clube dos emergentes do BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China), o novo acordo precisa se alinhar ao conceito das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, consagrada no texto da Convenção. Em suma, as responsabilidades históricas precisam ser consideradas na hora de definir o tamanho dos compromissos de redução dos países.

À despeito da proposta brasileira da diferenciação concêntrica – na qual os países se distribuiriam em bandas de compromisso, com possibilidade de transição de uma zona para a outra dependendo do contexto e das capacidades correntes de cada país – ter sido recebida com interesse por alguns negociadores, ela não foi capaz de romper o impasse nas negociações. Ou seja, todos os países concordam que algo precisa ser feito, mas divergem profundamente sobre quem o fará e como o fará.

Enquanto os bombeiros discutem quem vai apagar o incêndio, as chamas ganham altura e vão se alastrando para outros lugares. Nessas horas, urgência não passa de vocábulo da letra “U” do dicionário.

Foto: Libby Ferguson/Twitter

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Por Bruno Toledo (OC)

13421_-4_0_1_460x230A Avaaz iniciou uma grande campanha internacional para pressionar os governos de todo o mundo para que o novo acordo climático garanta ao mundo um futuro com energia 100% limpa.

No Brasil, a campanha visa pressionar o governo federal a assumir um papel de liderança no processo de negociação, defendendo a descarbonização do planeta até 2050 e transição urgente para uso de energia totalmente renovável, a partir de um acordo que garanta que todos os países tenham condições de fazer esse caminho.

Assine a petição da Avaaz e peça ao governo brasileiro que aja no enfrentamento efetivo e imediato das mudanças do clima!

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Por Bruno Toledo (OC)

COP20_0014O otimismo deu lugar à decepção, ainda que contida. Se na semana passada os negociadores brasileiros externavam confiança de que a proposta brasileira de diferenciação concêntrica dos países para definição dos compromissos do futuro acordo estava sendo bem aceita por outras delegações, nesta semana a sensação é bastante diferente.

Isso porque o novo esboço de texto proposto pelos co-presidentes do grupo da ADP (Plataforma de Durban, espaço que negocia o novo acordo climático no âmbito da UNFCCC) e apresentado na última segunda não incorpora plenamente a proposta brasileira, ainda que o propósito do texto em si fosse o de sistematizar todas as ideias na mesa.

Por exemplo, o novo esboço tem 33 páginas, quinze a mais que o “non-paper” a partir do qual as negociações se desenrolaram na semana passada. Mesmo assim, a proposta brasileira para diferenciação concêntrica não foi absorvida totalmente pelo texto. Exatamente por isso, a delegação brasileira em Lima defende que o novo esboço não passe de um primeiro rascunho para as conversas dos próximos dias – o que contraria a posição de outros países, que apontam a necessidade do texto servir já como ponto de partida para o texto final da decisão da COP 20.

“Esse texto é um rascunho para que possamos negociar, algo mais substancial que o non-paper da semana passada, mas ainda assim algo preliminar para trabalharmos”, defendeu o embaixador José Antonio Marcondes Carvalho, chefe da delegação brasileira em Lima. Sobre a proposta brasileira, Marcondes reconhece que o texto não representa adequadamente o conceito apresentado pelo país em sua submissão do mês passado. “A diferenciação concêntrica não está bem refletida no rascunho da decisão. Nosso esforço é exatamente para aperfeiçoar esse texto, recuperando o conceito tal como foi formulado pelo Brasil, no sentido de ser uma solução para superarmos os desafios da diferenciação”.

Para os diplomatas brasileiros, o texto apresentado pelos co-presidentes da ADP está desequilibrado, nitidamente voltado para questões de mitigação, em detrimento de adaptação e de meios de implementação.

Esta não é apenas uma impressão brasileira: na realidade, a percepção dessa falta de equilíbrio no texto é compartilhada com negociadores de outros governos, particularmente dos países em desenvolvimento. Essa situação ajuda a entender o avanço milimétrico que as delegações estão conseguindo nas longas e extenuantes sessões da ADP realizadas nos últimos dias.

O outro rascunho na mesa dos negociadores é a proposta de decisão que define o conteúdo das contribuições nacionalmente definidas pretendidas (INDCs, sigla em inglês), que também enfrenta discussões intensas nas salas e corredores de Lima. Ao contrário do texto sobre os elementos do futuro acordo, que ainda terá um ano de negociação pela frente, a definição do conteúdo dessas contribuições precisa ser feita nos próximos dias, de forma a orientar os países no processo de submissão desses documentos, no primeiro semestre de 2015.

No entanto, o relógio corre contra os diplomatas na COP 20. De acordo com o cronograma da Conferência, o grupo da ADP precisa fechar uma proposta de decisão até quinta-feira (11/12), para apreciação pelo plenário da COP na próxima sexta-feira, último dia formal de reunião em Lima.

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Por Juliana Pinto (IPAM)

unnamedO evento paralelo da UN-REDD no dia 8 de dezembro, na COP20, em Lima – Peru, mostrou os avanços e sucessos desta estratégia, assim como as possibilidades de expansão e de estruturação de planejamento do programa para o período 2016-2020. Os diretores das agências parceiras que compõem o UN-REDD, UNEP, UNDP e FAO, fizeram neste evento um balanço dos últimos anos do programa. Um dos destaques foi a ideia de integrar áreas áridas e semiáridas, principalmente na África, como parte da estratégia de REDD+, assim como a estocagem de carbono. O diretor-assistente da FAO, Eduardo Rojas-Briales, citou exemplos bem-sucedidos de reflorestamento em áreas secas.

Um programa colaborativo, envolvendo a FAO, PNUD e PNUMA, agencias da ONU, para construir capacidade de atingir e demonstrar objetivos de redd+ em países florestais em desenvolvimento.

O diretor da Iniciativa Internacional da Noruega para Clima e Floresta, Per Pharo, reforçou o compromisso do país com o financiamento da construção de capacidade para REDD+ em países florestais, mas enfatizou a importância da iniciativa privada no processo. Ele citou os exemplos da Moratória da Soja no Brasil e da Moratória do Óleo de Palma na Indonésia como exemplos de que a indústria pode contribuir para inibir o desmatamento por meio de arranjos de governança em suas cadeias produtivas. Em sua visão, a tendência é de que mais arranjos desse tipo surjam, trazendo mais efetividade para as ações públicas.

Além disso, o evento também teve comentários de ministros de alguns países beneficiados pelo programa de construção de capacidades. O representante de Uganda explicou como o UN-REDD capacitou o país para desenvolver seu sistema de monitoramento, sua linha de base, uma estratégia nacional e demais capacidades para atingir e demonstrar resultados de REDD+. O representante do Equador falou de uma nova estratégia florestal para os próximos anos, que seria a ‘mitidaptação’ (mitdaption em inglês), juntando mitigação e adaptação. Segundo ele, agora o Equador está pronto para implementar o REDD+ e começar a receber pagamentos por resultados. Para o representante ter participado do UN-REDD foi uma experiência transformadora, porém chegou o momento de entrar no no sistema do Marco de Varsóvia.

O representante da Indonésia explicou como seu país transitou do modelo de “derrubar e plantar” para “conservar e restaurar”. Segundo ele, o envolvimento da Indónesia com o programa do UN-REDD fez com que a importância das florestas deixasse o status de paisagens para fundamentais fontes econômicas que devem ser cuidadas e sustentadas para as atuais e novas gerações.

A Relatora Especial da ONU para Direitos dos Povos Indígenas, Vicki Tauli-Corpus, enfatizou a importância de proteger os direitos indígenas como, além de uma questão primordial dos direitos humanos, é uma estratégia efetiva para a conservação florestal. Ela mencionou um estudo que mostra que no Brasil o desmatamento é muito menor em áreas onde os povos indígenas têm seus direitos sobre a terra garantidos, do que onde seus direitos territoriais não estão assegurados (ver o estudo).

O Programa ONU-REDD terá que se adaptar as novas definições do Marco de Varsóvia e continuar construindo capacidades em países florestais em desenvolvimento,porém no momento com mais clareza sobre os critérios de funcionamento do REDD+ no nível global.

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Por Juliana Pinto (IPAM)

somaiHá mais de 12 anos, o IPAM acompanha e atua na Conferência do Clima da ONU, a chamada UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change). Entre 01 a 12 de dezembro de 2014, estaremos em Lima, no Peru, dando continuidade ao nosso trabalho e missão.

Na primeira semana da COP20, o IPAM apresentou o Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena (SOMAI) no Evento Paralelo: As mudanças Climáticas e as estoques de carbono nas Terras Indígenas (TIs) e zonas protegidas da Amazônia. Esta ferramenta é uma plataforma digital online desenvolvida pelo IPAM e possui um papel fundamental na conservação da Amazônia, principalmente para os territórios indígenas. Seu objetivo é apresentar dados que demonstram a função dos territórios e populações indígenas da Amazônia brasileira para a manutenção do equilíbrio climático regional e global.

O SOMAI também disponibiliza informações científicas sobre a vulnerabilidade dos territórios e subsidia o planejamento de ações de adaptação dos povos indígenas frente às mudanças climáticas. O objetivo final deste esforço é o fortalecimento da gestão territorial e ambiental das TIs na região.

Veja mais detalhes sobre a plataforma

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Por Greenpeace Brasil

IMG_2757Durante abertura da Cúpula dos Povos, em Lima, cinco lideranças Munduruku denunciam governo brasileiro à relatora especial da ONU sobre o não cumprimento da Convenção 169 da OIT na construção de grandes hidrelétricas na Amazônia

Enquanto negociadores discutem na COP, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontece em Lima, no Peru, como combater as ameaças do clima, representantes de povos indígenas de todo o mundo se reuniram ontem, dia 8, para a abertura da Cúpula dos Povos, evento que ocorre em paralelo à COP para ampliar o debate e incluir a participação de movimentos sociais.

Na ocasião, os Munduruku informaram à relatora especial da ONU para direitos indígenas que o Brasil não está respeitando a Convenção 169 da OIT, diante da falta da Consulta, Livre, Prévia e Informada em relação a construção das hidrelétricas previstas para o rio Tapajós, na Amazônia: “O governo não nos consultou sobre esse grande projeto e por isso estamos aqui, para denunciá-lo por estar atropelando a lei. Nós não vamos abrir mão do rio Tapajós, onde temos vários lugares sagrados”, afirmou Josias Munduruku.

Vicky Tauli-Corpuz, a relatora especial da ONU para povos indígenas, disse que é preciso que os direitos humanos estejam integrados com as discussões que estão ocorrendo durante o evento oficial. “Eu vim aqui hoje para ouvir sobre as violações aos direitos humanos que estão acontecendo em vários países da América Latina. É uma ótima oportunidade para entender o que está acontecendo nessa região e fazer a conexão com o que está acontecendo dentro da Conferência sobre mudanças climáticas”, afirmou ela.

Durante a mesa sobre desmatamento e mudanças climáticas, organizada pela Aidesep (Asociación Interétnica de Desarrollo de la Selva Peruana) e pela Forest Peoples Programme, os Munduruku também fizeram uma fala pública em que condenaram o projeto que prevê a construção de uma série de hidrelétricas no rio Tapajós, onde vivem, afirmando que irão resistir “até a última gota de sangue” e reiterando que o governo deve realizar a consulta em todas as mais de cem aldeias. A mesa reuniu ainda indígenas de várias partes do América Latina, que expuseram os problemas em comum enfrentados pelos povos da Pan Amazônia, que estão sendo ameaçados por madeireiros e grandes projetos de infraestrutura, como mineração, extração de petróleo e a construção de grandes hidrelétricas.

Cerca de oito mil pessoas e duzentas organizações sociais de varias partes do mundo estão sendo aguardadas para a Cúpula dos Povos, que esse ano tem como tema central: “Mudemos o sistema, não o clima”.

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Por WWF-Brasil

abertura_cop20_limaDurante a primeira semana da 20ª edição da Conferência das Partes (COP20) das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, pouco se avançou nas discussões para a elaboração do Acordo Climático Global. O evento, que teve início no dia 1º de dezembro, em Lima, reúne os representantes dos mais de 190 governos que integram a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) para discutir o papel dos países na redução das emissões dos gases de efeito estufa.

De acordo com André Nahur, coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, “o começo desta conferência teve sinais políticos positivos, como as metas anunciadas pelos Estados Unidos, China e União Europeia, que podem ser o primeiro passo de que é possível chegar ao final de 2015 com alvos globais estabelecidos rumo a um futuro de baixo carbono. Apesar deste sinal, a discussão sobre o caminho das ações dos países antes de 2020 ainda possui extrema relevância, pois há uma lacuna de emissões que deve ser eliminada urgentemente”.

O Brasil foi destaque nesta semana por quase ganhar o prêmio “Fóssil do Dia” na última quarta-feira (03). A premiação é realizada diariamente pelas organizações não governamentais aos países com posicionamentos não favoráveis às negociações climáticas. O país foi o segundo colocado devido a uma declaração sobre Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), pela qual ele negou que haja dupla contagem da redução de emissões. O MDL foi criado pelo Protocolo de Kyoto para ajudar financeiramente países em desenvolvimento a cumprir seus compromissos de redução de gases do efeito estufa (GEE), por meio da implementação de projetos sustentáveis, com os quais as emissões evitadas geram créditos.

Apesar disso, Nahur afirma que o Brasil tem avançado na proposta de uma nova metodologia para o próximo acordo climático global, que pretende esfriar os ânimos na discussão que ocorre desde a assinatura do Protocolo. Chamada de Diferenciação Concêntrica, a proposta brasileira foi apresentada na quinta-feira (04) e teve boa aceitação entre as delegações, servindo como um pontapé inicial para um processo mais focado para a negociação do texto. De acordo com o documento, os países seriam divididos em três níveis, com critérios diferentes de redução de emissões. A principal dúvida gira em torno dos indicadores para a escolha da categoria de cada país.

Com a chegada dos ministros para o Segmento de Alto Nível, que ocorrerá a partir de hoje (9), a expectativa é que o ritmo das discussões acelere. Até o final desta semana, deve-se chegar ao desenho inicial de um acordo climático global – a ser finalizado em 2015 e assinado na COP21, em Paris – que obrigue as nações a cortar as emissões de gases de efeito estufa a partir de 2020. Para Nahur, “é necessário que os países avancem nesta discussão aqui em Lima, para que tenhamos claros avanços na discussão de ações efetivas antes de 2020 e de financiamento de ações de mitigação e adaptação”.

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Por Greenpeace Brasil

141208_Nazca_Banner_Action_2Ministros e negociadores precisam se comprometer com ações mais ambiciosas para combater as mudanças climáticas após tufão Hagupit atingir as Filipinas

Antes mesmo de amanhecer e de começar a segunda semana das negociações climáticas, vinte ativistas do Greenpeace de sete países diferentes passaram uma importante mensagem nas históricas linhas de Nazca, no Peru, ao montar a frase com letras gigantes “Hora de mudar: o futuro é renovável.”

A mensagem é direcionada para os líderes mundiais e ministros presentes na COP20 – a 20a Conferência de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, em Lima – e que estão falhando quando se trata de agir contra as mudanças climáticas. Enquanto eles discutem em plenárias e reuniões sem alcançar medidas concretas, países como a Filipinas são novamente afetados por um tufão extremamente destruidor, pagando o preço pela falta de ação dos outros.

Segundo Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional, que foi até as Filipinas para acompanhar os impactos do tufão Hagupit, “esta é uma das maiores evacuações humanas desde o fim das grandes guerras, na tentativa de fazer com que o tufão Hagupit atinja a menor quantidade de pessoas possível. Enquanto isso, a maior parte dos negociadores permanecem sentados confortáveis e não entregam a ação necessária urgente para combater as mudanças climáticas.”

Este é o terceiro ano consecutivo em que as populações das Filipinas são atingidas por eventos climáticos extremos. “Na próxima semana, os negociadores devem pesar suas consciências e encontrar o impulso para nos colocar no caminho rumo ao fim do uso de combustíveis fósseis e na direção rumo a um futuro com 100% de energias renováveis. É o mínimo que a população Filipina merece e espera que seja feito”, concluiu Naidoo.

Os ativistas do Greenpeace do Brasil, Argentina, Chile, Espanha, Itália, Alemanha e Áustria montaram a mensagem em homenagem ao povo de Nazca, cujos antigos geoglifos são um dos marcos históricos da cultura peruana. Acredita-se que uma das razões para o desaparecimento do povo de Nazca pode estar relacionado à mudanças climáticas extremas na região. Hoje, os efeitos no clima causados pelas ações humanas – queima de combustíveis fósseis como óleo, carvão e gás – estão ameaçando o nosso futuro.

“Não deveria ser mais permitido que empresas e indivíduos lucrem com a destruição do clima, colocando em risco a vida de comunidades como as que existem nas Filipinas. Em 2015, como parte de seus compromissos com o clima, os governos terão que exigir que os lucros das empresas poluidoras sejam usados nos investimentos necessários para corrigir esse problema”, disse Naidoo.

Alguns dos maiores países emissores como o Estados Unidos, União Europeia e China, apresentaram este ano seus planos para lidar com o aumento das emissões de gases de efeito estufa. No entanto, estes planos não são suficientes para manter o aumento da temperatura no limite considerado seguro de 2oC.

“A população das Filipinas sofre todo ano de impactos perigosos das mudanças climáticas. Para países como as Filipinas, isto é uma questão de sobrevivência e a falta de ação de líderes mundiais coloca nosso futuro em xeque. O Greenpeace pede ações ambiciosas para que haja uma rápida transição para um futuro de 100% de energias renováveis até 2050”, disse Jasper Inventor do Greenpeace Filipinas.

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Por Bruno Toledo (OC)

Na manhã desta segunda (08/12), representantes dos povos indígenas brasileiros presentes na Conferência do Clima de Lima fizeram um ato no espaço da COP contra a possível aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que deverá ser votada pelo Congresso Nacional amanhã.

De acordo com eles, a aprovação dessa emenda poderá paralisar a demarcação de terras indígenas no Brasil, ao tirar do poder executivo a autoridade para realizar este tipo de ação.

Caso a emenda passe pelo Congresso e seja assinada pela presidente Dilma Rousseff, segundo os representantes indígenas brasileiros na COP 20, a questão indígena sofrerá um grande retrocesso que pode afetar também os esforços brasileiros para redução das emissões de gases de efeito estufa do país, já que as florestas de terras demarcadas são consideradas um grande instrumento para captura de carbono da atmosfera.

Assista abaixo ao vídeo do manifesto realizado no espaço da COP 20 em Lima.

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Por Bruno Toledo (OC)

_MG_7323Se considerarmos a expectativa que muitos tinham sobre o processo de negociação em Lima na última segunda com o ânimo geral nesse sábado, percebe-se que a COP 20 ainda não entregou aquilo que se esperava dela.

Desde setembro, quando Ban Ki-Moon realizou a Cúpula do Clima, com centenas de chefes de estado na ONU e milhares de pessoas nas ruas de Nova York, a preocupação de negociadores e da sociedade civil era construir um cenário mais positivo para as conversas de Lima. A apresentação do documento síntese do 5o. relatório do IPCC, no mês passado, ressaltou a urgência do tema e a necessidade da Conferência de Lima entregar algo mais substancial na construção do novo acordo climático.

No entanto, a primeira semana da COP 20 teve poucos avanços. Já nos primeiros dias os negociadores ficaram presos em discussões procedimentais: na negociação da ADP (Plataforma de Durban), espaço de construção do novo acordo climático, demorou três dias para que os co-chairs do grupo conseguissem chegar a um entendimento para permitir a apresentação dos esboços de texto em tela pública. Por um lado, isso permite maior transparência ao processo de negociação, garantindo aos países em desenvolvimento que seus interesses serão levados em consideração no texto final. No entanto, como Ruth Davies (Greenpeace UK) alertou, esse modelo de trabalho pode resultar num texto com “proporções barrocas”.

Sobre as contribuições dos países para o novo acordo, Lima também avançou pouco na definição do conteúdo desses documentos. De acordo com decisão da COP 19 (Varsóvia, 2013), todos os países deverão encaminhar as contribuições nacionalmente definidas pretendidas (intended national defined contributions, INDC) – ou seja, a primeira definição das possibilidades de compromisso de cada país no futuro regime – até meados do primeiro trimestre de 2015. Espera-se que a COP 20 defina quais são os elementos que devem ser contemplados por esses documentos. Sem essa orientação, dificilmente teremos um padrão possível para comparar as metas pretendidas por cada país no novo acordo, o que transformará a definição final numa “Torre de Babel” metodológica.

Outras questões estratégicas, como financiamento climático, ambição pré-2020 e adaptação, também ficaram para a segunda e decisiva semana de conversas em Lima. Em financiamento, a primeira semana de COP 20 trouxe algumas boas notícias: com as doações recentes de Espanha e Noruega, o capital do Fundo Climático Verde (GCF, sigla em inglês) chegou a US$ 9,95 bilhões, faltando apenas 50 milhões para atingir a meta mínima projetada para este ano (US$ 10 bilhões).

COP20_0011Entretanto, muitos países em desenvolvimento continuam desconfiados nessa questão, situação que somente piorou com a descoberta do uso, por parte do Japão, de recurso que deveriam ser destinados a investimentos em energia renovável para empreendimentos fósseis em países em desenvolvimento, particularmente a Indonésia. Para esses países, sem um roadmap que garanta que os países desenvolvidos consigam cumprir compromisso assumido na COP 15 (Copenhague, 2009) de destinar US$ 100 bilhões anuais a partir de 2020 para o GCF, qualquer decisão tomada nesse tema será inócua.

Um tema que ganhou dramaticidade para essa segunda semana de Conferencia é o do mecanismo para perdas e danos (loss & damage). Da mesma forma que no ano passado, as Filipinas sofrem com os impactos da passagem de mais um supertufão pelo país. As notícias deixaram o clima na COP bastante pesado: com mais sofrimento humano e com pouco avanço nas negociações, o desconforto da sociedade civil e de algumas delegações é latente. Para esses países insulares e demais nações em desenvolvimento, adaptação já não é mais o problema central: eles precisam do recurso imediatamente para recuperar os danos causados pelas mudanças do clima. No entanto, para desagrado daqueles, outros governos consideram que a questão de perdas e danos deveria ser apenas uma extensão da agenda de adaptação. Essa última abordagem talvez não garanta a liberação rápida de recursos na medida em que os desastres vão acontecendo.

Se a agenda para os últimos cinco dias (formais, já que sempre existe a possibilidade de estender o debate por alguns dias) está cheia, talvez Lima não receba a “mão-de-obra” aguardada para ajudar a desfazer os nós da negociação: a expectativa é de que poucos ministros de Estado participem do segmento ministerial de alto nível da Conferência de Lima. De acordo com fontes ouvidas pelo RTCC, menos de 40% dos governos enviarão ministros para representá-los nesse momento importante da negociação. Isso enfraquece muito as perspectivas de desempenho das conversas de Lima. Felizmente, o Brasil se encontra nesse grupo seleto: a ministra do meio ambiente, Izabella Teixeira, chegará a Lima nesse começo de semana e chefiará a delegação durante o segmento ministerial da COP 20.

Fotos: Bruno Toledo (OC)