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© Greenpeace / Rodrigo Baleia

A floresta amazônica está perdendo a sua capacidade de absorver carbono da atmosfera. De acordo com estudo divulgado esta semana pela Nature, há duas décadas, a floresta teria absorvido dois bilhões de toneladas de dióxido de carbono a cada ano. Agora, a taxa de retirada caiu para cerca de metade desse total. O motivo é o crescimento da taxa de mortalidade de árvores na floresta.

A conclusão é o resultado de 30 anos de estudo de uma rede internacional de pesquisa que revelou um aumento considerável na taxa de mortes de árvores em toda a bacia amazônica. O dióxido de carbono adicional estimulou um surto de crescimento extra, acelerando o ciclo de crescimento das árvores, que morrem mais cedo.

Roel Brienen, geógrafo da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e principal autor do estudo, afirma: “As taxas de mortalidade de árvores têm aumentado em mais de um terço desde meados da década de 1980, e isso está afetando a capacidade da Amazônia de armazenar carbono.”

As emissões de combustíveis fósseis de países latino-americanos superam um bilhão de toneladas de CO2 por ano. Assim, a região está colocando mais gases de efeito estufa na atmosfera do que está retirando. A consequência é que, agora, a floresta não é mais um “ralo” de carbono que absorve uma proporção previsível de emissões de combustíveis fósseis.

Leia mais sobre a pesquisa no Climate News Network

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Índios protestam em frente ao Congresso Nacional em 2013; parlamentares insistem em proposta que impede demarcações futuras (foto: Agência Brasil)

 

Você sabe que dia é hoje? Nesta segunda-feira (16/03), a “pátria educadora” celebra o Dia da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, uma data instituída pelo Congresso Nacional em 2011 para promover nas escolas “eventos, debates e mobilizações relacionados a medidas de proteção dos ecossistemas brasileiros”. Se você nunca tinha ouvido falar desta data, não fique mal: o próprio Congresso parece não ligar muito para ela, já que se prepara para dar um grande passo no sentido oposto – o de fragilizar ainda mais ecossistemas e territórios tradicionais.

Está marcada para terça-feira (17) a instalação da comissão especial que analisará a Proposta de Emenda à Constituição no 215/2000. A proposta retira do Presidente da República a prerrogativa de criar territórios protegidos no país (terras indígenas, terras quilombolas e unidades de conservação), submetendo-os ao crivo prévio do Congresso Nacional. Como desde que o Brasil é Brasil o Congresso é dominado por representantes do agronegócio, na prática a PEC suspenderá indefinidamente qualquer criação de área protegida no país.

A PEC-215 é uma invenção da bancada ruralista para evitar novas demarcações de terras indígenas e quilombolas em zonas de expansão da agropecuária. Além de ameaçar populações tradicionais que dependem do reconhecimento e da proteção dessas terras para sobreviver, motivo pelo qual ganhou o apelido de “PEC do Genocídio”, a proposição também prejudica o combate às mudanças climáticas no Brasil.

Isso porque áreas indígenas e unidades de conservação são o freio mais eficiente ao desmatamento, responsável por cerca de um terço das emissões de carbono do Brasil. Estima-se que quase 40% da redução verificada na taxa de desmatamento na Amazônia entre 2005 e 2008 tenha ocorrido graças à criação de 25 milhões de hectares de áreas protegidas nesse período, 10 milhões destes em terras indígenas1.

Ao levar adiante a tramitação da PEC-215, o Congresso sinaliza que está disposto não apenas a sacrificar os povos indígenas e os quilombolas, mas também a pôr a perder os esforços que o Brasil tem feito para reduzir emissões de desmatamento. A proposta joga contra a própria agricultura no Brasil, já que áreas protegidas são também fundamentais para a manutenção dos recursos hídricos e da estabilidade climática da qual depende cerca de um quarto do PIB brasileiro.

Numa época em que as mudanças do clima se aliam ao desmatamento e à inépcia administrativa para produzir uma das piores crises hídricas da história do Brasil, o gesto dos congressistas ao instalar a comissão da PEC-215 é muito mas grave do que uma simples omissão de calendário.

(Foto: Agência Brasil)

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1 – Soares-Filho et al., Role of Brazilian Amazon protected areas in climate change mitigation. PNAS. www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.0913048107

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Itamaraty sinaliza que país vai esperar prazo final dado pela ONU, em outubro

O Itamaraty indicou nesta quinta-feira (05/02) que o Brasil deve esperar para apresentar às Nações Unidas a meta que pretende cumprir no novo acordo do clima, a ser assinado em dezembro em Paris.

Numa reunião com representantes da sociedade civil, o chefe da Divisão de Clima, Ozônio e Químicos do ministério, Everton Lucero, disse que o horizonte que está sendo considerado para o registro da chamada INDC (Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida) é 1o de outubro, prazo final dado pela ONU. O próprio Itamaraty havia sinalizado anteriormente que apresentaria os números no meio do ano.

Ao longo deste ano, todos os 195 países membros da Convenção do Clima da ONU deverão registrar suas propostas para o acordo, que deverá entrar em vigor em 2020 com a expectativa de ordenar o combate internacional ao aquecimento global nas próximas décadas. O objetivo final do tratado é evitar que o aquecimento da Terra ultrapasse os 2oC neste século, limite considerado perigoso pela ciência. Para isso, cada país aportará uma INDC, contendo a meta de corte de emissões de carbono que que considere justa para o esforço global.

Apesar de a ONU não obrigar ninguém a registrar logo a meta, os principais emissores foram convidados a fazê-lo no primeiro trimestre deste ano. Quanto antes as metas forem colocadas sobre a mesa, mais cedo a comunidade internacional saberá quão longe o acordo de Paris ficará de fechar a conta dos 2oC. A convenção fará um balanço de todas as propostas registradas até 1o de outubro. O resultado da análise será entregue aos negociadores na COP-21, a conferência do clima de Paris.

Até agora, somente a Suíça registrou seu compromisso. A União Europeia prometeu fazê-lo nesta sexta-feira (06/03). As duas INDCs foram consideradas insuficientes pelas organizações ambientalistas.

O cálculo da chancelaria brasileira é que o país não ganha nada ao antecipar o registro de sua meta. Primeiro, porque outros países podem registrar compromissos tímidos, que não façam diferença do ponto de vista do clima – que, afinal, é um problema global. “Se não houver esforço da comunidade internacional, o maior esforço que o Brasil faça não será suficiente”, disse Lucero. Depois, argumentam os diplomatas, é pouco provável que o grau de ambição dos países que já depositaram sua meta mude até a COP-21, já que há dificuldades políticas em fazer com que eles redesenhem seus compromissos.

Segundo Lucero, mesmo que a conta das INDCs não feche, seu balanço deve ajudar a orientar os esforços futuros de mitigação. O acordo de dezembro seria um “primeiro ciclo” de cortes. O Brasil tem proposto, e a União Europeia apoia a tese, que as metas sejam revisadas de tempos em tempos, possivelmente de cinco em cinco anos, para que a ambição seja ajustada de acordo com o tamanho do “buraco” na conta da mitigação. “É preciso desmistificar o que conterá o acordo de Paris”, disse Lucero. “O novo acordo não terá uma bala de prata.”

O diretor de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Adriano Santiago, afirmou durante o encontro que a oferta brasileira será “a melhor possível”, e deverá “apresentar ambição até maior” que a que o país levou à conferência de Copenhague – de reduzir as emissões em 2020 de 36,1% a 38,9% em relação ao que se projetava que seria emitido se nada fosse feito.

“A questão do prazo nos preocupa”, disse o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “Se for em benefício da ambição, ótimo.” Ele afirmou, porém, que o Brasil precisa enxergar as metas não como um ônus, mas como uma oportunidade econômica numa época de recessão. “O Brasil precisa parar de olhar para os lados e olhar para a frente. Nós temos uma série de vantagens comparativas nos setores agrícola, florestal e de energias renováveis que podem favorecer a geração de emprego e renda com uma meta ambiciosa. Adotá-la não é apenas justo com o clima e com a nossa responsabilidade, mas é bom para o país também.”

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OC, Claudio Angelo

Um projeto de arte inspirado por povos indígenas do Acre promete transformar os monumentos de Paris numa espécie de Amazônia virtual durante a COP-21, a Conferência do Clima das Nações Unidas, que começa no fim de dezembro na capital francesa.

A megainstalação One Heart, One Tree (Um Coração, Uma Árvore), da artista belgo-tunisiana Naziha Mestaoui, quer usar 30 videoprojetores instalados em alguns dos principais pontos turísticos da cidade para “convidar o público a plantar árvores virtuais” no exterior dessas construções e “reconectar o homem à natureza e despertar nossa consciência”.

Cada participante poderá “plantar” sua “árvore” baixando em seu smartphone um aplicativo que detecta batimentos cardíacos. Cada semente virtual “crescerá” no ritmo dos batimentos do coração do “jardineiro” até virar uma árvore. Segundo a artista, para cada árvore virtual acesa pelo público será plantada uma árvore real em projetos de reflorestamento na América do Sul, na África, na Ásia e na Europa.

Segundo os organizadores, Paris ficará iluminada “para representar a ecologia pós-moderna”.

Ao Observatório do Clima, Mestaoui contou que o conceito do projeto vem de viagens à Amazônia, onde ela passa um mês por ano trabalhando com artistas das tribos Ashaninka e Kaxinawá, no Acre. “Para as tribos, uma árvore é um ser consciente, uma inteligência, algumas árvores são consideradas verdadeiras bibliotecas”, afirmou. “Meu objetivo era criar uma obra de arte que questionasse nossa relação com a natureza e nosso ambiente, usando tecnologias e dando a possibilidade de nos conectar, por meio das batidas do nosso coração, a outros seres vivos, as árvores. As tecnologias, simbolizando nosso futuro, não são opostas à natureza, mas contribuem, no projeto, para nos reconectar aos nossos ambientes.”

Segundo Mestaoui, as árvores reais serão plantadas em 30 projetos de reflorestamento, um deles com os próprios Ashaninka, por meio de uma empresa especializada nisso, a Pur Projet, da França. O custo de plantar uma muda real será de 2 a 3 euros e a árvore será acompanhada durante três anos.

Ela estima que os projetores consumirão 16 kWh de energia durante a COP e emitirão 20 toneladas de CO2. As emissões serão compensadas mediante o plantio de cem árvores. “Isso não é o eixo central do projeto, é realmente o valor imaterial da natureza”, diz Mestaoui.

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Por Tasso Azevedo*

2015_new_yearEm 1972 foi realizada, em Estocolmo, na Suécia, a Conferência Global sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a primeira grande reunião a tratar da necessidade de harmonizar a proteção ao ambiente e o desenvolvimento e a alertar sobre a ameaça de mudanças do clima.

Quinze anos depois, em 1987, a Comissão Bruntland publicou o relatório “Nosso Futuro Comum”, que definiu o desenvolvimento sustentável como aquele que “atende as necessidades do presente sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender as suas”.

No mesmo ano de 1987 começaram as tratativas que levaram à criação em 1988 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que publicou seu primeiro relatório sobre o estado do clima em 1990. Este foi uma das bases fundamentais para a construção da Convenção sobre Mudanças Climáticas aprovada dois anos depois durante a Cúpula da Terra realizada no Rio de Janeiro (Rio-92), onde também foram aprovados os Princípios do Desenvolvimento Sustentável (Princípios do Rio), a Agenda 21 (o plano de ação global que serviu de base para as Metas de Desenvolvimento do Milênio lançadas em 2000) e a Convenção da Biodiversidade.

Vinte anos depois, em 2012 a comunidade internacional decidiu dar novos passos e adotou, durante a Rio+20 e a Conferencia de Clima de Doha (COP18), uma agenda de trabalho que pretende culminar em 2015 com dois grande acordos: as Metas Globais para o Desenvolvimento Sustentável (MDS) e o novo acordo climático global para o período pós-2020.

A agenda de mudanças climáticas é talvez a melhor síntese do desafio da sustentabilidade. Os esforços para redução de emissões, redução das vulnerabilidades e adaptação às mudanças do clima têm profundos laços com a paz, saúde e bem-estar em todo o planeta nesta e nas futuras gerações. Estes esforços afetam e são afetados por questões políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais e só podem ser tratados em um contexto de metas claras para o desenvolvimento sustentável.

As decisões de 2015 vão demarcar o caminho a trilharmos nas próximas décadas. A posição do Brasil — sempre uma referência para o tema — precisa ser a mais ousada, inovadora e ambiciosa que se possa imaginar.

Não tem sido o caso dos últimos anos, mas o início de um novo mandato é bem oportuno para que se reverta o quadro.

*Publicado originalmente no Blog do Tasso Azevedo e no jornal O Globo (30/12/2014)

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Ricardo Barretto

Na madrugada do domingo, 14 de dezembro, foi anunciado em lima, finalmente, o texto final da 20a Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudança do Clima (COP 20). Para a UNFCCC, “a Chamada de Lima para a Ação Climática põe o mundo a caminho de Paris 2015”.

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Mas representantes da sociedade civil em todo o mundo alertam que o texto apresentado é pouco ambicioso e deixa muito a ser decidido ao longo de 2015, para que seja fechado um acordo em Paris capaz de limitar o aquecimento global em 2o C.

“Os resultados da COP-20 nos deixam com menos tempo em 2015 para resolver a bagunça. Ambição, definições com clareza e decisões em tempo eram urgentes e não foram entregues”, afirma Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

Avaliação similar vem da Climate Action Network, rede que congrega 900 organizações da sociedade civil em todo o mundo: “A Conferência de Lima mostra a política do clima se arrastando atrás do momentum no mundo real.” Já a Tck Tck Tck, aliança de 400 organizações, considerou que a COP 20 frustrou expectativas e fez com que as atenções estejam todas voltadas para Paris 2015. Durante a COP 20, intervenção bem humorada da Oxfam já alertava para a importância de que os líderes mundiais levassem soluções climáticas de Lima a Paris (foto). Mas, para muitas ONGs, faltou vontade política para um texto final mais ambicioso.

Confira a seguir o que foi definido em Lima e algumas repercussões ao redor do mundo:

 

UNFCCC: Llamada de Lima a la Acción Climática pone al mundo camino de París 2015

CAN International: Lima Summit shows climate politics lagging behind real world momentum

G1: Países reunidos na COP 20 aprovam ‘rascunho zero’ de acordo climático

Reuters India: Lima UN talks agree building blocks for 2015 climate deal

The Climate Group: Success in Lima as world leaders agree basis for climate deal at Paris 2015

Tck tck tck: Lima climate talks fall short of expectations as attention shifts to Paris

 

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Por Bruno Toledo (OC)

COP20_0015Para um encontro que começou com muitas expectativas, beneficiado por um contexto positivo bastante incomum na história das Conferências do Clima, a COP 20 de Lima se revela mais um episódio de avanços lentos, muita frustração e mais tempo perdido. É como se estivéssemos no 2º tempo da prorrogação e precisássemos fazer ao menos cinco gols para ganhar o título – cinco gols em menos de 15 minutos. Ou seja, fazer em algumas horas aquilo que não conseguimos fazer em doze dias. Se antes as expectativas eram interessantes, hoje o esforço dos negociadores é para não sair de Lima com um fracasso retumbante nas mãos.

A Plataforma de Durban (ADP), grupo que negocia os termos do novo acordo climático, praticamente monopoliza as atenções nessa reta mais que final da COP 20. As discussões ainda se arrastam em torno da definição do tipo de informação que as contribuições nacionalmente determinadas pretendidas (INDCs), a ser entregues no próximo semestre pelos países, deverão conter. Esses documentos serão o ponto de partida para que se negocie os futuros compromissos de cada país no novo acordo.

Ontem no final da noite, os co-presidentes da ADP entregaram mais uma versão do documento de decisão, que os negociadores discutiram longamente até as 4h da manhã deste sábado. Seis horas depois, o grupo de ADP reabriu seus trabalhos e as delegações puderam fazer seus comentários. Diferente do que os co-presidentes assinalaram em suas intervenções, o texto não conseguiu realmente representar a diversidade de interesses dentro das negociações. A proposta foi incapaz de superar as barreiras que separam países ricos e países pobres na discussão desse tema em Lima.

Para as nações em desenvolvimento, a proposta não contempla as principais bandeiras do grupo, como a inclusão de informações sobre adaptação, perdas e danos, financiamento e outros mecanismos de implementação. Ou seja, a proposta versa apenas sobre mitigação (redução das emissões), algo que interessa aos países desenvolvidos. Para esses governos, as INDCs precisam conter informações que as partes considerem “relevantes”, o que dá margem para que um país coloque o que quiser na contribuição.

Por trás dessa discussão, está o interesse de países desenvolvidos e em desenvolvido em torno do futuro acordo. Para os mais pobres, ter informações mais abrangentes nas INDCs, que contemplem temas mais caros a eles, já encaminharia a inclusão desses itens no futuro acordo climático. Para os mais ricos, esses temas apenas dificultam o entendimento político, além de ajudar a manter distorções que eles consideram inaceitáveis, como compromissos menores para países emergentes que figuram na lista de maiores emissores do mundo.

Essa divisão foi vista novamente na sessão da ADP desta manhã. De um lado, países do Anexo I do atual Protocolo de Quioto (ou seja, com compromissos vigentes de redução de emissões) defendendo a adoção da proposta dos co-presidentes. Do outro, países não-Anexo I, sem compromissos atuais, acusando a proposta de ser desbalanceada e defendendo uma nova reflexão sobre o texto.

Incapazes de superar as divergências, os co-presidentes encaminharam o texto para o presidente da COP 20, o ministro peruano Manuel Pulgar-Vidal, que está fazendo consultas junto às delegações em Lima, colhendo impressões e elementos para revisitar a proposta atual de texto. O objetivo do presidente da COP é manter o texto atual na medida do possível, sem grandes alterações, nem inclusões e exclusões. Com o texto nas mãos dos negociadores, a plenária da COP 20 deverá ser aberta a partir do começo da noite deste sábado em Lima.

Ainda assim, dificilmente as discussões se encerrarão neste sábado. Provavelmente, os negociadores precisarão de mais algum tempo para chegar a uma saída não tão vexatória.

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Por Bruno Toledo (OC)

_MG_8131(1)Não teve pra ninguém: esta foi a Conferência do Clima da Austrália. Ninguém brilhou tanto quanto ela nos corredores da COP 20 de Lima. Pena que os motivos não foram bons, e nem o brilho foi exatamente bonito.

A Climate Action Network (CAN International) anunciou hoje a Austrália como o “Fóssil do Ano” na Conferência de Lima, “distinção” esta obtida por causa do recorde de Fósseis do Dia que o país colecionou no Peru: quatro vezes. De acordo com a CAN, o governo australiano veio a Lima sem qualquer disposição para avançar nas negociações, tanto que enviou o ministro do comércio Andrew Robb, um cético público sobre mudanças climáticas, como “guardião” da ministra do Exterior Julie Bishop, para evitar que ela pudesse assumir compromissos que não são do interesse do criticado primeiro-ministro Tony Abbott.

Ontem o país já tinha recebido o “prêmio” do dia devido a declarações de Robb, feitas em encontro com representantes de grandes empresas nessa semana, de que a Austrália não estava disposta a colocar seu “pescoço na corda” se seus principais concorrentes internacionais não fizerem o mesmo – o que mostra a falta de comprometimento do atual governo Abbott com a questão climática. Na terça, os australianos foram lembrados com o Fóssil do Dia por causa de uma declaração de um negociador australiano, dizendo que ele não compreendia o conceito de “limite de temperatura de longo prazo” e a ideia de “solidariedade global”.

Na sexta passada, os australianos receberam o Fóssil porque a ministra Bishop anunciou que o país não contribuiria com o Fundo Climático Verde (GCF, sigla em inglês) – ainda que o governo australiano tenha voltado atrás dias depois e anunciado uma contribuição para o fundo. Um dia antes, o país ganhou seu primeiro Fóssil, por dizer numa sessão da ADP que perdas e danos deveria ser um elemento de adaptação, e não um tema individual no futuro acordo de Paris.

Hoje a CAN também anunciou os Fósseis do último dia de COP 20: os grupos negociadores Umbrella e Like Minded Developed Countries (LMDC), pelo radicalismo de suas posições nas mesas de negociação, o que está impedindo discussões políticas cruciais e atrapalhando o caminho para o entendimento político. Em 2º lugar, ficaram a tríade Belarus-Rússia-Ucrânia, por impedirem a aplicação imediata das regras do segundo período do Protocolo de Quioto, firmado na COP 18 (Doha, 2012), que na prática foram adiadas para depois da Conferência de Paris. Em 3º lugar, um velho conhecido dos prêmios Fóssil: Canadá, por dizer na COP 20 que o país está no caminho para cumprir suas metas de redução prevista para 2020 – o que, segundo a CAN, é inverídico.

Saiba mais sobre os Fósseis do Dia da CAN International

Foto: Bruno Toledo/OC

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Por Bruno Toledo (OC)

IMG_3670[1]Nas últimas Conferências do Clima, as negociações do grupo da Plataforma de Durban (ADP), responsável pela construção do futuro acordo climático, são praticamente um evento à parte. Em Lima, faltando apenas um ano para que se defina esse novo acordo, as negociações da ADP ganharam tons ainda mais graves.

Nessa COP 20, o grupo da ADP precisa definir dois textos. O primeiro, sobre os elementos do futuro acordo climático, ainda tem mais alguns meses para ser fechado, antes da Conferência de Paris. Ainda que tenhamos tido alguns pontos polêmicos na discussão desse documento, o foco de atenção dos negociadores da ADP em Lima está no segundo texto – que tipo de informação deverá constar nas chamadas “contribuições nacionalmente determinadas pretendidas” (INDCs, sigla em inglês). De acordo com decisão tomada pela COP 19, realizada em Varsóvia no ano passado, todos os países precisarão encaminhar à Secretaria Executiva da UNFCCC no 1º semestre de 2015 um documento com as possíveis ambições nacionais, que servirão como ponto de partida para definição dos compromissos de cada país no futuro acordo climático.

Por causa do curto tempo, a ADP precisa definir quais serão as informações das INDCs ainda em Lima, de forma que os países possam entregar esses documentos dentro do período estimado pela COP 19 e dentro de parâmetros que possam ser comparados. Sem essa definição, os governos poderão encaminhar qualquer tipo de informação nesses documentos, sem nenhuma padronização que auxilie na comparação e, consequentemente, na definição justa dos futuros compromissos.

Esse não é uma questão corriqueira. Para os países desenvolvidos, as contribuições precisam versar basicamente sobre possibilidades de redução de emissões – ou seja, contemplar apenas mitigação. Para os países em desenvolvimento, as contribuições devem conter informações sobre adaptação e sobre meios de implementação (em especial, financiamento e transferência de tecnologia). Entre essas posições, estão as duas alternativas em questão na COP 20.

Por um lado, um acordo com compromissos para todos os países, particularmente para aqueles que mais emitem, independente da condição econômica ou histórica. Essa opção relativiza um dos princípios mais caros dentro do texto da UNFCCC: o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. De acordo com esse princípio, todos os países são responsáveis pelo problema, mas aqueles que mais contribuíram para a ocorrência do problema devem ter responsabilidades maiores que aqueles que pouco contribuíram.

Por outro lado, um acordo com compromissos para todos os países, particularmente para aqueles com maior responsabilidade histórica, reconhecendo o contexto econômico atual. Nesse caso, grandes emissores, como China, Índia e Brasil, podem ter menos compromissos que países desenvolvidos, inclusive aqueles que emitem menos que eles.

Ontem à noite, num esforço para sistematizar um esboço que já ultrapassava as 50 páginas, os co-presidentes do grupo da ADP apresentaram uma nova proposta, com sete páginas, entendida como um texto de compromisso que tentava incorporar ao máximo as contribuições dos países, ao mesmo tempo em que dava base para algo mais viável no processo de negociação final. Durante a madrugada, negociadores e observadores leram o texto, e a sessão da ADP foi retomada hoje pela manhã.

O que se viu, novamente, foi dificuldades de entendimento. Um grupo de países em particular, liderados por Arábia Saudita, China, Índia e Venezuela deixou evidente que as divergências com o texto na mesa são tão profundas que eles aceitariam a possibilidade de sair de Lima sem decisão sobre o tema. Para eles, o texto relativiza a Convenção, desvirtua o princípio das responsabilidades comuns porém diferenciadas e consegue ser pior que um texto inexistente. A saída desses países e a não-decisão representaria um baque tremendo em um processo de negociação já bastante esgotado, que pode ameaçar a agenda de negociação do novo acordo para o ano que vem.

Se o objetivo ainda é termos alguma decisão em Lima, provavelmente a COP 20 irá para a prorrogação. Prepare o seu coração…

Foto: Bruno Toledo/Twitter

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Ricardo Barretto, OC

Uma das questões tabu quando se fala em substituição de combustíveis fósseis para a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) é a adoção de energia nuclear. “O AR5 relata os riscos associados à energia nuclear”, osbervou o presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) Rajendra Pachauri em conversa com jornalsitas. “Mas ela tem méritos enquanto emissões muito baixas ou quase zero e é opção para países que não têm outra alternativa para a substituição dos combustíveis fósseis”, comentou o cientista.

O tom de “choque de realidade” também veio com o espinhoso tema do captura e estoque de carbono (CSS, na sigla em inglês). “Também relatamos os riscos e incertezas relacionados ao CCS. Mas se temos de trazer a redução a zero ou menos, o CCS é uma opção presente que o mundo talvez tenha de olhar”, sentenciou Pachauri. A polêmica em relação às tecnologias que sequestram carbono do ar, para inserção no subsolo ou áreas de isolamento, envolve questões como efeitividade dos resultados, riscos ambientais e até estímulo a não redução de emissões na produção – pela perspectiva de sequestro posterior.

press_rajendra_pachauriQuando Pachauri fala em “redução a zero ou menos”, refere-se à indicação do AR5 de que é preciso limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC e, para isso é necessário reduzir emissões até a metade do século a 40% dos níveis registrados em 2010 e chegar a emissões zero ou negativas até o fim do século. Passar do limite dos 2ºC causaria impactos cada vez maiores e poderiam significar um cenário inviável para a vida humana, caso a temperatura se eleve a 4,8ºC – ponto ao qual chegaríamos se fosse mantida a trajetória atual de emissões.

Para alcançar essa redução drástica e urgente de emissões de GEE, o IPCC mapeou um cardápio de possibilidades, como a mudança de matriz energética, excluindo os combustíveis fósseis; a redução da demanda por energia dos setores da economia de maior consumo; e opções mais controversas como a energia nuclear e o CCS, entre outras iniciativas.

Não só a mitigação é urgente, ressalta Pachauri, mas também a adpatação aos impactos das mudanças climáticas. “Quanto mais cedo tomarmos ações, mas fácil será. Se adiarmos, os custos serão bem mais altos e as tecnologias necessárias podem não estar acessíveis num nível que seja necessário”, alerta o nononono do IPCC. “Acima de um certo nível de mudança do clima, chegaremos a um ponto sem retorno, o que tornaria a adaptação impossível”, explicou o cientista para reforçar a importância de que mitigação e adaptação sejam trbalhadas conjuntamente.

 

Destaques do AR5

Rajendra Pachauri salientou que o esforço científico em torno do 5º Relatório do IPCC foi sem precedentes e que ele traz ganhos importantes para o entendimento da questão climática entre formuladores de políticas e a sociedade em geral: “Havia a noção errada que mudanças climáticas dizia respeito a apenas elevação da temperatura do planeta. Esse relatório veio para mostrar que acontece um desequilíbrio geral no clima, incluindo eventos extremos.”

rajendra_pachauriNa percepção de Pachauri, hoje, muitos delegados na COP entendem que os impactos não só vão piorar no futuro, mas que já estão acontecendo. Para ele, as negociações internacionais devem tomar por base os cenários apresentados pelo AR5. “Por exemplo, a apresentação dos INDCs tem de ser olhada em termos do orçamento de carbono e do caminho para assegurar os 2 graus de aquecimento”, orienta Pachauri, mencionando as Contribuições Determinadas a Nível Nacional. Este é o documento que detalha como cada país fará suas reduções de gases de efeito estufa, que deve ser entregue à UNFCCC, preferencialmente, até março de 2015 e, no máximo, até junho.

Entre as contribuições importantes do AR5, destacam-se as seguintes informações:

– Desde a metade do último século, é extremamente provável que a maior parte das mudanças climáticas tenham sido causadas pela ação humana;

– Desde 1900 até 2010 o nível do mar aumentou 20 cm, o que ameaça principalmente os países insulares, nao só com o risco de submersão, mas enxentes, tempestades mais extremas, deslocamentos forçados etc.

– Agricultura: caso a temperatura suba acima dos 2ºC os impactos para a agricultura serão acentuados, afetando tanto a segurança alimentar, principalmente de populações mais pobres, como levando ao declínio de cultivos como milho, arroz e outros.

– A disponibilidade de água em diversas regiões ficará comprometida.

– Inúmeras espécies estarão ameaçadas de extinção, comprometendo a biodiversidade do planeta.

 

Oceanos

Pachauri fez questão ainda de salientar a ampliação significativa de informações sobre os Oceanos, trazida pelo AR5. Por exemplo, cerca de 30% das emissões globais foram abosrvidas pelos oceanos, o que os tornou mais ácidos. “Se continuarmos as emissões ou as mantivermos no mesmo nível, a acidificaçao vai continuar”, avisa o cientista.

Ele lembra também que o aquecimento dos oceanos já é percebido a uma profundidade de 700 metros, o que junto, com a acidificação põe em risco a vida marinha.

OC, 11/12/2014
Ricardo Barretto