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Análise das metas de corte de emissões do clube dos países ricos mostra que seu esforço não passa nem perto da meta de conter aquecimento em 2o Celsius

3242372061_11703601ea(Foto: Oliphant/Creative Commons)

 

CLAUDIO ANGELO (OC)

No que depender do G7, o clubinho das nações mais ricas do mundo, a Terra está num caminho decidido de esquentar bem mais do que 2 graus Celsius. A primeira análise do impacto das metas de corte de emissões propostas por esses países mostra que, em 2030, eles terão cumprido apenas 30% do necessário para evitar que o aquecimento ultrapasse o limite considerado seguro pela ciência.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, antecedendo a reunião do G7 na Alemanha, que deve ter entre seus temas principais o acordo do clima de Paris, a ser fechado no fim deste ano. Uma das autoras da análise é Márcia Rocha, uma brasileira radicada na Suíça, pesquisadora do think tank europeu Climate Analytics.

Segundo o estudo, a soma das INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas) já anunciadas pelo G7 e pela União Europeia, mais a proposta do Japão, anunciada pela imprensa mas ainda não formalmente submetida à ONU, deixará em 2025 um “buraco” de 7,6 bilhões de toneladas de CO2 que precisariam ser cortadas por esses países para colocá-los no caminho dos 2 graus Celsius. Em 2030, esse buraco será de 7,8 bilhões de toneladas.

Apesar da clara insuficiência, Rocha e seus colegas reconhecem que o novo esforço é, por assim dizer, melhor que nada. Representa avanço em relação às metas voluntárias que os membros do G7 apresentaram em 2010, no malfadado Acordo de Copenhague, e que guiam o combate ao efeito estufa até 2020. As políticas atuais, somadas, só fecham 5% do chamado “hiato de ambição”. Para o Canadá, um dos países do G7, a meta para 2020 significa aumentar suas emissões em 35% em relação a 1990. A INDC apresentada pelo país, que nós já discutimos aqui, significa uma redução de 2% em relação a 1990.

Mesmo assim, as novas metas são tão pouco ambiciosas que não são sequer o máximo que o clube dos ricos poderia fazer sem botar a mão no bolso. Isso mesmo: segundo o Climate Action Tracker, as INDCs do G7 estão no limite inferior das chamadas trajetórias de mitigação de baixo custo.

Essas trajetórias refletem como seriam os cortes de emissão consistentes com os 2 graus Celsius somente nos setores onde é mais barato cortar. Se todos os países fossem economicamente parecidos, o custo de reduzir emissões nesses setores seria igual para todo mundo. No entanto, como os países mais ricos têm maior capacidade e responsabilidade, eles precisam de metas que vão além das trajetórias de baixo custo, cortando em setores onde é mais caro fazê-lo – para que a mitigação mais barata possa ser feita mais nos países em desenvolvimento.

Isso está longe de acontecer. As metas oferecidas estão no limite conservador das trajetórias de baixo custo do G7.

O relatório conclui com três recomendações ao G7: que aumente significativamente a ambição de suas INDCs daqui até a conferência de Paris, em dezembro; que reforce as metas atuais, para que o esforço de corte fique menor após 2020; e que defenda que os ciclos de revisão das metas do novo acordo sejam de cinco anos, e não de dez, para evitar que metas pouco ambiciosas fiquem sendo executadas durante muito tempo. Esta última proposta foi feita pelo Brasil no texto de negociação e conta com simpatia da União Europeia.

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O chanceler da França, Laurent Fabius, na abertura da conferência de Bonn (Foto: UNFCCC)

 

ALEXANDRE PRADO (INSTITUTO ARAPYAÚ)

Depois de alguns anos ausente deste processo insano, cansativo, mas impressionante de negociação em mudanças climáticas, cuja questão de fundo não é nada mais, nada menos do que como será o mundo de nossos filhos e netos – pelo menos para os que têm mais de 40 anos, como eu -, e de como chegaremos até lá, cheguei a Bonn, Alemanha, para acompanhar a nova rodada de discussões sobre o texto do acordo que deverá ser fechado em Paris, no fim do ano.

Fiquei agradavelmente surpreso com a apresentação do ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius. O anfitrião da COP-21, a conferência de Paris, falou na abertura da reunião de Bonn e foi incisivo na urgência: indicou a importância da participação do setor privado e da importância na definição de um preço sobre carbono (finalmente!), e claramente afirmou de que todos esperam uma forte sinalização política na COP-21.

A posição de Fabius nos meses que antecedem o novo acordo contrasta com a da ministra de Clima e Energia da Dinamarca, Connie Hedegaard, nos meses que antecederam a frustrante COP-15, em Copenhague, em 2009. O francês aparentemente aprendeu com a experiência da Dinamarca e adotou uma postura antecipatória. Percebeu que, se não trabalhar desde agora, o acordo não sai e teremos um fracasso em Paris. Hedegaard começou realmente a se preocupar somente no início da COP-15, quando viu que o texto estava grande, insosso e cheio de armadilhas.

Bom, obviamente o fantasma de Copenhague circula pelos corredores alemães, principalmente nas salas fechadas de negociação. Para aqueles que estavam aqui há cinco anos atrás, agora um pouco mais velhos e com mais cabelos brancos (quem ainda os tem), mas que viveram por aquele processo maçante que culminou numa enorme frustação, creio que houve um enorme aprendizado.

Talvez estejamos aprendendo que estamos aqui debatendo formas de desenvolvimento, como rumamos para uma economia de baixo carbono e de recursos financeiros precisamos para isso, mas temos de chegar a um consenso. Isso implica em identificar claramente as diferenças e como podemos resolvê-las, mas sem nos atermos demais aos detalhes, que foi onde nos perdemos em 2009. Acho que se for assim, foi um duro mas necessário aprendizado.

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Por Bruno Toledo (OC), com informações do The Guardian

Strip_coal_miningQuem acompanha o debate sobre fontes energéticas em tempos de mudanças do clima sabe que a indústria de combustíveis fósseis não brinca em serviço na hora de defender seus interesses estratégicos. Se nos primórdios das discussões sobre clima a posição desse setor era completamente negacionista (quanto ao problema em si e/ou quanto à sua responsabilidade sobre ele), hoje a estratégia de ação é bem diferente: nos últimos anos, empresas de petróleo, gás e carvão vêm se aproximando dos fóruns internacionais dedicados à questão climática, intensificando sua participação nessas discussões e buscando mostrar uma imagem diferenciada, preocupada com as mudanças do clima.

Mas, em matéria de esforço de relações públicas, ninguém supera as empresas do setor do carvão mineral. Mais do que mostrar preocupação com a questão climática, essas empresas tentam vender a ideia de que seu produto, ao invés de ser o vilão, é na verdade o mocinho da história. Sim, o carvão pode ajudar na luta contra as mudanças climáticas! Muitas empresas apresentam “inovações” no processo produtivo que acabam “limpando” o carvão, tornando-o menos poluente e mantendo sua competitividade no mercado. Segundo essas empresas, esse carvão “limpo” será fundamental para ajudar na luta contra as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se mantém como um combustível barato que garantirá o desenvolvimento de comunidades pobres em todo o mundo.

Porém, o mundo-maravilha apresentado pelas indústrias do carvão não resiste a um olhar mais atento e crítico a essa estratégia descarada de greenwashing. Carvão continua sendo carvão, independente dos componentes químicos que você colocar nele; ele continua sendo um combustível fóssil que, ao ser queimado, vai emitir dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa na atmosfera terrestre. O uso massivo deste tipo de combustível não fará nada a não ser piorar o quadro do efeito estufa global, reverberando negativamente sobre o clima terrestre.

Ainda assim, por mais absurdo que ele possa soar, esse discurso faz parte das regras do jogo do mercado. Afinal, essas empresas estão tentando manter seu nicho de mercado num cenário cada vez mais restritivo à sua atuação. No entanto, ao enveredar nesse tipo de argumentação, o perigo é cair na “forçação de barra”: abusar tanto do senso comum, ao ponto de cair no mundo da surrealidade. Este foi o caso da Peabody Energy, uma gigante do setor carvoeiro que acabou virando alvo de críticas pesadas de ambientalistas e especialistas em saúde pública por causa do argumento utilizado por um de seus executivos para defender o seu produto – que o carvão “limpo” poderia ter ajudado na luta contra a epidemia de ebola que afetou diversos países na costa oeste da África entre o final de 2014 e o começo de 2015.

greg-boyce-peabody-guardianUma matéria publicada nesta semana pelo jornal The Guardian aponta que Greg Boyce (foto ao lado), executivo chefe da Peabody, incluiu um slide sobre Ebola e energia numa apresentação feita durante uma conferência da indústria carvoeira em setembro passado. O slide sugeria que a disponibilidade de mais energia poderia ter ajudado na distribuição de uma hipotética vacina contra o Ebola – citando como evidência um especialista em doenças infectocontagiosas da Universidade da Pennsylvania.

No entanto, especialistas em saúde pública envolvidos na luta recente contra o Ebola na África ocidental rejeitam peremptoriamente a sugestão apontada pela Peabody de que o acesso maior à energia, possibilitado pelo carvão, poderia ter contido o avanço do Ebola e ajudado na distribuição de uma vacina – até porque não existe uma vacina aprovada contra a doença. Além disso, Harvey Rubin, o especialista citado pela Peabody para apoiar sua argumentação pró-carvão disse que nunca tinha ouvido falar da empresa – e mais: nem o nome dele estava corretamente escrito nessa apresentação.

Para Irwin Redlener, diretor do Center for Disaster Preparedness da Universidade de Columbia, a sugestão feita pela Peabody foi oportunista. “A Peabody tem objetivos corporativos muito específicos e explícitos. Acho que é absurdo partir de uma crise global para tentar justificar a existência de uma companhia que está interessada em produzir e vender carvão. Esta é uma tentativa oportunista e, de alguma forma, desesperada para relacionar interesses corporativos com uma crise massiva de saúde pública”, disse Redlener para o The Guardian.

SAMSUNG CAMERA PICTURESPosteriormente, consultada pelo diário britânico, a Peabody negou estar usando a crise do Ebola para ganho próprio. De acordo com a companhia, Boyce apenas notou que a falta de energia afetou dramaticamente a capacidade de conter o Ebola em nações-chave que tem pouco acesso à energia e onde os hospitais dependem de geradores próprios para ter energia elétrica.

“Estamos falando de infraestrutura de saúde pública, e energia é apenas uma peça nessa estrutura – existem muitos outros fatores junto com isso”, aponta Skip Burkle, pesquisador da Harvard Humanitarian Initiative, que considera a sugestão da Peabody “absolutamente ridícula”. “A indústria do carvão está decaindo, mas há outras respostas para questão que não seja despejá-lo na África. Isso é apenas um insulto à população”.

 

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960101-19052015-dsc_1779“Olha lá onde a gente vai botar essa agenda de clima” (fotos Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

CLAUDIO ANGELO (OC)

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, passou pelo Brasil nesta semana, encontrou-se com Dilma Rousseff e deixou uma trilha de cheques: US$ 27 bilhões em acordos bilaterais, US$ 53 bilhões em investimentos em infraestrutura, compra de 40 aviões da Embraer, linhão de Belo Monte, empréstimo para a Petrobras e a promessa de uma megaferrovia ligando o Tocantins ao Pacífico. Quem esperava ver “os maiores países em desenvolvimento dos hemisférios Ocidental e Oriental”, como disse Li, anunciando uma parceria robusta em mudanças climáticas e energia limpa frustrou-se: o clima ficou no rodapé, numa declaração conjunta sobre o assunto e num compromisso perfunctório de “trabalhar junto com outras Partes” para o sucesso da conferência de Paris, no fim do ano.

Para quem fez juras de amor às energias renováveis e prometeu “liderança” em Paris após encontrar-se com Barack Obama, em abril, Dilma pareceu ter passado por aquilo que os biólogos chamam de reversão ao estado selvagem: a tônica dos discursos e dos atos assinados foi de investimentos na agenda desenvolvimentista praticada em seu primeiro governo: petróleo, mineração, carne, hidrelétricas e outras grandes obras.

Com um ajuste fiscal estimado em R$ 70 bilhões à espreita, Petrobras e Eletrobras em dificuldades e empreiteiros na cadeia, o capital chinês será mais que bem-vindo para ajudar na retomada do crescimento da economia brasileira. O ICBC, o BNDES chinês, foi mencionado algumas vezes por Dilma em seu discurso com Li à imprensa nesta terça-feira (19); e o premiê não deixou de notar em sua fala que a presidente “sabe até dizer corretamente os nomes das empresas chinesas”.

A China, por sua vez, tem interesse em fincar o pé no Brasil para garantir suprimento de minérios, carne e petróleo, enquanto negocia com outros parceiros, como os EUA, acordos comerciais em tecnologias de energia limpa. Esta é a razão do empréstimo de US$ 10 bilhões do China Eximbank à Petrobras e da Ferrovia Transcontinental, que levará carne, soja e minério de ferro do Brasil aos portos peruanos para encurtar o transporte até a Ásia.

Os acordos comerciais firmados pelo maior emissor de gases-estufa do planeta parecem, assim, seguir a lógica do “todas as alternativas acima” em vez de sinalizar claramente investimentos de baixo carbono. Ao mesmo tempo em que promete ter 100 gigawatts de energia solar em sua matriz até 2020, acena com um pico de emissões em 2030 e vai aos poucos desacoplando o seu crescimento econômico das termelétricas a carvão, a China busca parceiros para alimentar sua economia no “business as usual”. O Brasil parece ser um deles.

Dos 36 atos assinados por Brasil e China nesta terça-feira, três dizem respeito à economia de baixo carbono: um investimento de 321 megawatts em energia eólica, um memorando de entendimento entre a Apex Brasil e a gigante elétrica chinesa BYD para energia solar e um acordo de cooperação em energia nuclear. Não se falou em cifras.

Um quarto ato foi a declaração conjunta sobre mudanças climáticas, que trouxe pouca novidade sobre o comportamento de dois atores-chave na negociação do novo acordo.

A China é o alfa e o ômega de qualquer regime internacional de mudanças climáticas: é quem mais polui, quem mais cresce suas emissões e quem mais “terceiriza” emissões de outros países ao fabricar os produtos americanos, europeus e japoneses que o resto do mundo consome. O Brasil é importante na negociação não apenas por ser um dos dez maiores poluidores, mas também por ser um tradicional solucionador de impasses, graças à habilidade de seus diplomatas. Ambos são vozes importantes do BASIC, um grupo de negociação informal dos gigantes emergentes, e do G77, o bloco de negociação formal da Convenção do Clima da ONU que reúne 130 países em desenvolvimento.

A declaração Brasil-China sobre clima reafirma o “compromisso em alcançar um acordo equilibrado, completo, ambicioso e equitativo” em Paris. Carrega na dose das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas” – um mantra dos países em desenvolvimento para cobrar mais ação dos ricos – e volta a bater na tecla da necessidade de erradicar a pobreza.

No único item com cheiro de novidade, os dois países prometem reforçar a cooperação na área de energia fotovoltaica, com vistas a “diversificar as respectivas matrizes energéticas e contribuir para os esforços de mitigação”. A cooperação pode levar “ao estabelecimento de unidades de produção no Brasil de empresas de energia solar da China”.

Sobre as metas nacionais de ambos os países (as chamadas INDCs), poucas pistas, exceto a promessa de que “ambos os lados indicam que as suas ambiciosas iniciativas nacionais e resultados alcançados serão devidamente refletidos em suas respectivas contribuições”.

Se Brasil e China de fato prepararem suas novas metas com base no que já está em implementação nos dois países, pode vender aquela casa na praia, porque um mundo 4 graus mais quente vem aí.

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MARK LUTES

O Canadá enfim submeteu formalmente às Nações Unidas seus planos para lutar contra a mudança climática. Como canadense vivendo no exterior, só tenho uma coisa a dizer: foi mal aí, gente.

Não que alguém esperasse do atual governo canadense qualquer coisa, assim, de tirar o fôlego – ou mesmo qualquer coisa minimamente aceitável – em relação à mudança climática. Eu não vou me delongar nas razões pelas quais a redução anunciada de 30% até 2030 em relação a 2015 é uma meta fraca; suas fragilidades têm sido amplamente documentadas, por exemplo aqui e aqui. Mas quero colocar o anúncio em contexto e explicar por que o desempenho do Canadá é especialmente embaraçoso para um canadense que trabalha fora do país tentando convencer outras nações a adotar metas e ações ambiciosas para evitar mudanças climáticas perigosas.

Desde que o governo conservador atual de Ottawa chegou ao poder – ironicamente, depois de o governo anterior ter caído num voto de desconfiança no primeiro dia de negociações da COP-10, a conferência do clima de Montréal, em 2004 –, seus representantes têm tratado a questão da mudança climática como uma chateação a ser administrada e varrida para debaixo do tapete de todas as formas possíveis.

Mesmo antes de assumir o governo, o então futuro primeiro-ministro Stephen Harper, como líder da oposição, escreveu em uma famosa carta aos seus apoiadores que o Protocolo de Kyoto “é basicamente um esquema socialista para sugar dinheiro das nações que produzem riqueza”. Após chegar ao poder, a administração Harper anunciou que não faria nenhum esforço para atingir os compromissos firmados pelo país no acordo de Kyoto. Em vez disso, estabeleceria uma meta “made in Canada” para substituir o objetivo que governos anteriores haviam negociado em lugares distantes e exóticos como Kyoto.

Mas logo Harper abandonou a estratégia “made in Canada” em favor de uma “made in USA”, pela qual em 2008 o país harmonizaria suas metas e políticas com as de seu vizinho e principal parceiro comercial – coincidentemente governado, naquela época, por George Bush II, que partilhava o desinteresse de Harper na ação climática. Foi assim que nós ganhamos o plano “Turning the Corner” [“Hora da Virada”], com uma meta que acompanhava de perto a dos EUA, mas sem nenhuma ação do governo federal para assegurar seu cumprimento. Agora que o presidente Obama está de fato tentando reduzir emissões nos EUA, harmonizar com as metas americanas caiu da lista de prioridades, e o Canadá anunciou recentemente que acharia outro país com quem pudesse harmonizar.

A presente submissão de INDC (Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida) segue a linha de desculpas esfarrapadas e mensagens falaciosas que há tempos substituem a ação real no país. O Canadá tem um monte de hidrelétricas e de energia nuclear, então por faturar em cima dos fatos positivos com um gráfico completamente gratuito comparando o Canadá e outros países no quesito “Porcentagem de Geração de Eletricidade Sem Emissões”? Nem precisa explicar como outros setores fazem para se desdobrar a ponto de garantir que as emissões per capita do Canadá estejam entre as mais altas do mundo. Um caso é o das areias betuminosas, cujas emissões crescentes poderiam anular qualquer ganho em outras áreas.

Esse gráfico é seguido por uma afirmação de doer: “Embora o Canadá represente apenas 1,6% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, o Canadá permanece comprometido a fazer sua parte para atacar a mudança climática”. Como se as emissões do Canadá fossem irrelevantes e não fosse realmente necessário agir, mas o Canadá estivesse fazendo o que lhe cabe mesmo assim. Duplamente errado. Em nenhum momento é mencionado que o Canadá responde por 0,5% da população do planeta, mas suas emissões per capita são três vezes maiores que a média global.

Dado esse histórico e dada a merecida reputação do Canadá de pária climático mundial, eu não me orgulho muito em explicar que sou canadense quando tento convencer outros países a adotar mais ações contra a mudança climática. Não sei se isso importa para os outros, mas eu pelo menos me sinto um tanto desconfortável em vir de um país rico e desenvolvido que está fazendo tão pouco para reduzir suas altas emissões, enquanto digo a outros países, incluindo nações em desenvolvimento como o Brasil, que abracem metas ambiciosas de redução de emissões.

O Canadá já foi uma força progressista por um mundo melhor em várias frentes. Nada me deixaria mais feliz do que exibir meu país como um exemplo de responsabilidade climática. Esse tempo ainda há de vir. Há coisas importantes acontecendo no nível provincial e municipal no Canadá, e uma rara mudança no governo da província de Alberta no começo deste mês que poderia significar uma nova abordagem em relação a uma das fontes de petróleo mais sujas do mundo, as areias betuminosas. Uma eleição federal vem aí em outubro, e eu espero que os canadenses elejam um governo comprometido com a liderança do país no tema mudança climática. Enquanto isso, nenhum país deveria usar a inação do Canadá como desculpa para agir igual.

 

Mark William Lutes mora em São Paulo e é analista-sênior de Política Climática no WWF. Este artigo é uma opinião pessoal e não reflete necessariamente as posições do WWF.

 

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CLAUDIO ANGELO (OC)

A notícia correu o mundo nesta semana: a concentração de dióxido de carbono na atmosfera ultrapassou em março a marca simbólica de 400 partes por milhão, segundo anunciou a Noaa (Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA). É a primeira vez que isso acontece desde que a agência começou a medir esse gás em 40 pontos diferentes do planeta, na década de 1980.

Da última vez que houve tanto CO2 na atmosfera, provavelmente 3,5 milhões de anos atrás, não existiam seres humanos, nem gelo no polo Norte. A temperatura média global era de cerca de 3oC mais alta do que no período pré-industrial. O nível do mar era 4 a 5 metros mais alto do que hoje.

O anúncio foi tratado pela imprensa internacional como um “alerta vermelho” no ano da conferência do clima de Paris, que deveria (mas tem gente que acha que não vai) apontar o início da solução do problema do aquecimento global. Embora o recorde seja em si importante, o problema real é a tendência que ele indica.

Quatrocentas partes por milhão, ou ppm, é um número pequeno. Significa que, em cada milhão de moléculas de ar, há 400 de gás carbônico (lembre-se de que a atmosfera é composta quase totalmente de nitrogênio e oxigênio; o CO2 é um dos “gases-traço”, daqueles que juntos formam 1% da composição do ar).

Acontece que o gás carbônico faz o melhor estilo “chiquitito, pero cumplidor”: ele é extremamente eficiente em reter na atmosfera o calor que a Terra irradia em forma de radiação infravermelha. Não satisfeito, ele ajuda a elevar, por evaporação, os níveis atmosféricos de outro gás-estufa muito potente: o vapor d’água. Isso mesmo: como sua mãe já deve ter dito, até água em excesso faz mal.

As medições da concentração de CO2 na atmosfera começaram a ser feitas em 1958 pelo americano Charles Keeling no alto do vulcão Mauna Loa, no Havaí. O local foi escolhido por estar bem longe de fontes de poluição que pudessem enviesar as amostras de ar. O Mauna Loa, a 4.000 metros de altitude e no meio do Oceano Pacífico, representa bem como o CO2 está misturado à atmosfera global.

Quando as medições de Keeling começaram, a concentração de CO2 no ar estava em 315 ppm. Em 2013 elas ultrapassaram 400 ppm no Mauna Loa pela primeira vez, para caírem em seguida e fecharem o ano em 393 ppm. Os dados da Noaa mostram que o mesmo sinal foi detectado não apenas em um ponto, mas em dezenas de lugares diferentes mundo afora.

Assim como aconteceu em 2013, o valor vai cair nos próximos meses e fechar o ano abaixo de 400 ppm. A oscilação acontece porque no final do inverno no hemisfério Norte, onde está a maior parte das terras (portanto, da vegetação) do mundo, há muito carbono no ar. Ele vem da da decomposição das folhas que caíram no outono. Na primavera, a rebrota sequestra esse CO2 e a concentração cai novamente.

O problema, claro, é que essa concentração vem subindo de forma acelerada ano após ano. Em todo o período pré-industrial, a concentração de CO2 na atmosfera jamais ultrapassou 280 ppm. Do surgimento da espécie humana até o ano em que Keeling começou a fazer suas medições, o aumento foi de 12,5%, no máximo. Da primeira vitória do Brasil numa Copa do Mundo até hoje, o aumento já foi de outros 27%. A velocidade anual de crescimento dobrou entre 2000 e 2010 em relação a 1960-1970. Metade do aumento verificado desde a aurora da humanidade aconteceu depois de 1980.

 

A chamada "curva de Keeling", com o crescimento das concentrações de CO2 desde a década de 1950

Nesse ritmo, o CO2 terá dobrado em relação à era pré-industrial antes do final do século. Os modelos climáticos apontam que, com duas vezes mais CO2 no ar, o aumento da temperatura da Terra seria de cerca de 3oC, valor muito superior ao limite considerado “seguro” (e, para alguns, já inatingível) de 2oC acima da média pré-industrial. Segundo o IPCC, o painel do clima da ONU, para ter uma chance de 50% de atingir os 2oC, os níveis de CO2 precisariam estacionar em 450 ppm e depois cair.

Os 400 ppm são um número bizantino, mas importante por isso: apenas 50 ppm separam a humanidade de entrar em um território climático nunca antes explorado – e, ao que tudo indica, de forma alguma agradável.

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Por Bruno Toledo (OC)

Dentre os acordos globais relacionados com meio ambiente, a agenda que atrai mais atenção da mídia e do público hoje é a das mudanças climáticas, com a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC, sigla em inglês) e seu Protocolo de Quioto. No entanto, o regime internacional em clima está longe de ser um case de sucesso – afinal, depois de quase três décadas de discussão política no tema, o problema continua tão forte e relevante como antes. No quesito “efetividade”, poucos regimes globais em meio ambiente conseguem fazer frente àquele estabelecido a partir do Protocolo de Montreal.

Para quem não o conhece, o Protocolo de Montreal foi criado pelas Nações Unidas em 1987, como parte da Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio (1985). A Convenção surgiu a partir de uma descoberta científica assustadora: o uso de gases como clorofluorocarbonetos (CFCs) e hidroclorofluorocarbonetos (HCFCs), frequente pela indústria para refrigeração e ar-condicionado até meados dos anos 1980, estava danificando a camada de ozônio localizada na parte superior da estratosfera terrestre. Sem a proteção dessa camada, a Terra ficaria vulnerável à radiação dos raios ultravioletas, o que ameaçaria a vida no planeta. O Protocolo de Montreal, assinado por 190 países, propôs a eliminação global da produção e do uso dessas substâncias químicas que comprometem o ozônio. O resultado foi notável: em menos de uma década, os governos conseguiram banir estes gases, revertendo o processo de deterioração da camada de ozônio.

ozonioO sucesso do Protocolo de Montreal não foi desinteressado: desde meados dos anos 1980, já existiam tecnologias que substituíam eficientemente os CFCs e HCFCs em equipamentos de refrigeração e controle de temperatura. O uso desses gases já era relativamente mais baixo que em anos anteriores na época da adoção do Protocolo, mas o custo mínimo dos CFCs dificultava uma mudança universal na indústria. Com a emergência do regime de Montreal, a indústria global ganhou um incentivo para abandonar os velhos gases nocivos ao ozônio e para adotar essas novas tecnologias – em particular, os gases hidrofluorocarbonetos (HFCs), menos agressivos ao ozônio.

Quase três décadas depois de sua criação, o Protocolo de Montreal voltou a ser matéria de discussão política intensa nos últimos meses. A razão para isso está naquilo que permitiu o seu sucesso: os gases HFCs podem causar efeito estufa – alguns deles, como o HFC-23, utilizado em refrigeração e controle de incêndio, têm potencial de aquecimento quase 12 mil vezes maior que o dióxido de carbono (CO2), o principal gás de efeito estufa (GEE) por trás das mudanças climáticas. O uso dos gases HFCs é crescente nos países em desenvolvimento, de tal forma que esses gases caminham para representar quase 1/4 dos GEE na atmosfera terrestre até a metade desse século.

Ou seja, se quisermos conter as emissões desse tipo de gás, de forma a reduzir a concentração deles na atmosfera terrestre, precisaremos abandonar os HFCs nas próximas décadas, da mesma forma que foi feito com os gases antecessores. E é aí que reside o problema: como e com o quê faremos isso?

Há algum tempo, negociadores e especialistas apontam para a necessidade do Protocolo de Montreal definir alguma estratégia de ação para conter os HFCs. Para que esse regime possa fazê-lo, é preciso uma emenda ao mandato definido pelos países em 1987 – afinal, o Protocolo enfoca as “substâncias que empobrecem o ozônio”, sem se preocupar com a questão climática em si. Outros negociadores contestam essa necessidade, argumentando que existem outros regimes internacionais com mandato definido para tratar de GEE, como a UNFCCC e o Protocolo de Quioto (na verdade, os HFCs constam na relação de gases que precisam ser progressivamente reduzidos, definida pelo Protocolo de Quioto).

No entanto, o que pode parecer uma questão meramente procedimental esconde uma motivação bastante relevante. O Protocolo de Montreal é legalmente vinculante para todos os seus signatários – ou seja, cada um dos 190 países que o assinaram possui responsabilidades iguais. Já o Protocolo de Quioto se baseia nas “responsabilidades iguais, porém diferenciadas” entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, o que significa que as obrigações são diferentes para cada signatário, dependendo da sua condição econômico-histórica. Se o Protocolo de Montreal for emendado para contemplar a eliminação dos HFCs, todos os países terão a mesma responsabilidade, independente do perfil econômico; se essa eliminação se der através do Protocolo de Quioto, apenas os países do Anexo I (cerca de 40 nações) terão responsabilidades legais pela redução do uso desses gases – e nesse último caso, se os países não-Anexo I realizarem esforços de redução, eles ainda têm o direito de vender créditos de carbono para os países do Anexo I. Essa questão das responsabilidades vinha atravancando as negociações dentro do Protocolo de Montreal, mas avanços recentes alimentaram a expectativa de que esse debate venha a ser concluído ainda em 2015.

O presidente dos EUA, Barack Obama, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, durante encontro em Nova Délhi em fevereiro passado (foto: Pete Souza/The White House)

A Índia, país historicamente reticente à proposta de emenda ao Protocolo de Montreal, vem modificando sua posição nos últimos anos. Desde o encontro do G-20 em São Petersburgo (Rússia), em setembro de 2013, o governo indiano vem assinalando a necessidade de usar a expertise e as instituições do Protocolo de Montreal para reduzir a produção e o consumo de HFCs. Essa nova posição foi reforçada em discussões bilaterais recentes entre Índia e Estados Unidos. Em visitas recentes, o presidente Barack Obama e o primeiro-ministro Narendra Modi reafirmaram o entendimento de que o regime de Montreal precisa ser fortalecido num curto prazo para lidar com a questão dos HFCs. Em abril passado, EUA (junto com Canadá e México) e Índia submeteram propostas de emenda ao texto do Protocolo nesse sentido.

A mudança na postura indiana está intimamente associada ao processo de negociação do novo regime internacional em clima, que será concluído no final deste ano em Paris. Para os indianos, com a definição de compromissos para todos os países no futuro acordo climático, a “vantagem” das responsabilidades diferenciadas se diluirá bastante.

IMG_3104-tnA proposta indiana ajudou bastante no avanço da negociação política dentro do Protocolo. Em reunião realizada no final de abril, em Bangkok (foto ao lado), os negociadores conseguiram costurar um entendimento mínimo que pode encaminhar para a definição de uma emenda ainda neste ano. Praticamente todos os blocos negociadores concordam com a necessidade de uma emenda sobre HFCs, com a exceção de apenas um: o dos países árabes, liderados pela Arábia Saudita, que persistem na oposição a um acordo sobre o tema dentro do Protocolo de Montreal. Mesmo com a pressão intensa de delegados dos EUA e União Europeia, o máximo que os negociadores árabes concordaram foi com a realização de uma reunião intersessional em julho, com vistas a estabelecer um grupo de contato (grupo de negociação reduzido, com o propósito de facilitar entendimentos entre negociadores) sobre propostas de emendas relativas a HFCs. Ainda assim, essa definição permite aos negociadores vislumbrar a possibilidade de concluir uma proposta de emenda durante a conferência das partes do Protocolo, que será realizada em Dubai no final deste ano, pouco antes da Conferência do Clima de Paris.

Certamente, um avanço efetivo na agenda climática no âmbito do Protocolo de Montreal, o regime internacional em meio ambiente mais bem sucedido até hoje, servirá como um belo incentivo para os negociadores da UNFCCC em Paris chegarem a um acordo climático igualmente efetivo.

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Germany, Bavaria, Schäflarn, Roof of a house covered with solar cells

© Tom Chance/Westend61/Corbis

Cíntya Feitosa (OC)

Ter em casa baterias que armazenam energia solar para você usá-la mesmo à noite não é mais um cenário futurista. Na semana passada, a americana Tesla Motors, que fabrica carros elétricos, mexeu com o mercado ao anunciar um produto barato, para uso doméstico, que pode ser usado para armazenar energia a partir de painéis solares ou servir de reserva de durante apagões. A Tesla também anunciou que vai produzir baterias maiores para as empresas e serviços de distribuição de energia.

O Powerwall, como é chamado o dispositivo, se encaixaria na parede da garagem de uma casa e pode tornar parte do consumo doméstico independente da rede de energia elétrica tradicional. Hoje, no Brasil, já é possível instalar painéis solares em casa para gerar a própria energia durante o dia e, à noite, receber energia da rede elétrica – economizando até 80% da conta de luz no processo.

“O objetivo é completar a transformação da infraestrutura de energia do mundo inteiro para conseguirmos o carbono zero”, afirmou o fundador da Tesla, Elon Musk, de acordo com a Agência France Presse.

O dispositivo vai custar entre US$ 3.000 e US$ 3.500 e estará à venda nos Estados Unidos ainda neste ano, mas deve chegar a mercados internacionais em 2016. O Powerwall tem modelos de 10 quilowatts-hora (kWh) e de 7 kWh, ambos com garantia de dez anos e suficientes para abastecer a maioria das casas durante o horário de pico de consumo de energia no período da tarde. Cada casa poderá somar até nove baterias. As dimensões são semelhantes às de uma televisão presa à parede.

Mercado

Não é todo mundo que pode desembolsar US$ 3,5 mil para instalar a bateria, então em princípio não se espera o consumo em massa da Tesla Powerwall. Como avaliou o Wall Street Journal, a maior oportunidade de curto prazo são as empresas que muitas vezes pagam multas quando a demanda por energia é alta. A bateria pode ajudar a compensar o gasto e, em conjunto com o software que ajuda as empresas a gerenciar melhor seu uso de energia, torna-se ainda mais atraente.

O blog Taking Note, do New York Times, também levanta o debate sobre o público das baterias. A análise leva em conta os benefícios para as distribuidoras, que poderiam equilibrar o fornecimento irregular de eletricidade a partir de painéis solares e moinhos de vento.

blogueiro Jeff McMahon, da revista Forbes, foi além: escreveu que o novo produto da Tesla “matou a energia nuclear”, ao abrir a possibilidade de que renováveis como eólica e solar passem a contar com o maior atrativo da eletricidade gerada a partir de fissão: energia firme, sem intermitências – e a um preço próximo do megawatt/hora atômico.

Um outro mercado apontado pelo Taking Note são países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina, onde muitas residências e empresas dependem de geradores a diesel, porque não têm acesso à rede ou têm problemas frequentes de desabastecimento. Na Índia, por exemplo, já custa menos produzir energia limpa usando painéis solares do que geradores a diesel – muito poluentes.

“Ainda assim, embora seja mais barato do que algumas baterias de backup no mercado agora, o Powerwall não é barato. É por isso que ele vai fazer mais sentido, onde o custo da eletricidade é elevado e onde a rede não é muito confiável”, conclui o blog.

Na mesma linha, uma análise no site de notícias da revista Nature pondera que, para instalações domésticas, o preço do kit completo da nova bateria – com a conexão para o sistema de eletricidade da casa – poderia ser o dobro do anunciado por Musk, e que a Tesla provavelmente está tomando prejuízo no preço da Powerwall contando com vendas em quantidade. O problema, raciocina a revista, é que a maioria das casas com geração distribuída na Europa e nos EUA não precisa de bateria, já que seus donos podem vender energia excedente para a rede de dia e usar da rede à noite.

Uma análise do Washingont Post aponta que o principal resultado do armazenamento de energia mais difundido poderia, em longo prazo, ser uma verdadeira revolução energética e um planeta mais verde. Alguns dos benefícios são a integração de mais fontes renováveis para a rede e o estímulo ao ajuste dos preços de “energia inteligente”.

As distribuidoras devem se ajustar ao novo mercado: atualmente, a rede fornece energia sob demanda; se a demanda se deslocar para uma bateria controlada pelo cliente, a concessionária vende menos eletricidade. Uma alternativa é que o serviço público aproveite a nova possibilidade – em vez de dificultar a adoção dessa forma de distribuição, as companhias podem instalar baterias em grande escala em suas áreas de serviço. Além disso, podem se beneficiar com o armazenamento de energia solar excedente, estimulando a geração de energia distribuída.

Num momento em que o Brasil parece estar começando finalmente a levar a sério a energia solar e até a presidente Dilma Rousseff – que há apenas três anos chamava essa fonte de “fantasia” – já fala sobre baterias, o novo produto da Tesla pode energizar o debate.

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Cíntya Feitosa (OC)

Em meio à maior seca da história da Califórnia, o governador do estado norte-americano, Edmund G. Brown Jr., emitiu um decreto para estabelecer uma meta de redução de gases de efeito estufa da Califórnia de 40% em relação aos níveis de 1990. A meta deve ser atingida até 2030. O período é o mesmo considerado para as negociações do acordo do clima de Paris, que será firmado na Convenção do Clima (COP 21) em dezembro deste ano.

“Com esta meta, a Califórnia define um grande desafio para si e para outros estados e nações, mas é uma decisão que deve ser alcançada – para esta geração e as gerações vindouras”, disse o governador. Brown tem demonstrado preocupação com as mudanças climáticas e vê na crise da Califórnia uma prova de que não se pode brincar com os efeitos das atividades humanas no clima.

De acordo com o comunicado do governo, a meta de reduzir as emissões da Califórnia a 40% abaixo dos níveis de 1990 até 2030 fará com que seja possível alcançar o objetivo final de redução das emissões de 80% até 2050 – também em relação a 1990. Isto está de acordo com os níveis estabelecidos cientificamente como necessários para limitar o aquecimento global abaixo de 2ºC em relação ao período pré-industrial – porém não depende só da Califórnia, mas de uma meta dos Estados Unidos.

A meta californiana foi bem recebida pela UNFCCC (sigla em inglês para Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas): “Resolver as alterações climáticas exige uma profunda descarbonização da economia global na segunda metade do século. O anúncio de Califórnia é uma realização e uma determinação que vai ressoar com outras ações inspiradoras nos Estados Unidos e ao redor do globo. É mais uma razão para otimismo antes da conferência climática da ONU em Paris em dezembro”, afirmou a secretária-executiva da UNFCCC, Christiana Figueres.

O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, destacou a seca como um indutor da proposta californiana: “Quatro anos consecutivos de seca excepcional trouxeram a dura realidade do aumento das temperaturas globais para as comunidades e as empresas da Califórnia. Isso não pode substituir metas nacionais agressivas, mas é um exemplo de liderança climática que outros devem seguir.”

O decreto também aborda especificamente a necessidade de adaptação às alterações climáticas, apontando para a necessidade de incorporar impactos das mudanças climáticas no planejamento de infraestrutura e economia do estado.

A decisão da Califórnia é uma boa oportunidade para os estados brasileiros iniciarem um debate sobre sua contribuição para a redução de emissões, de forma independente da meta nacional. Até porque a seca já chegou por aqui, também…

 

california

Montagem compara a região da Ponte Enterprise, que cruza o Lago Oroville, na Califórnia. A primeira foto é de 20 de julho de 2011. A segunda, de 19 de agosto de 2014. (Foto: Justin Sullivan/Getty Images North America/AFP)

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Não é novidade que a presidente Dilma não é uma grande tuiteira. Parece que hoje, Dia da Terra, ela não está online ou não observou os trending topics, já que “Dia da Terra” ficou entre os temas mais comentados no Twitter durante boa parte do dia.

 
Aliás, a presidente entrou no Google hoje? O doodle, aquela imagem bonitinha que o maior site de buscas do mundo usa para falar de temas importantes, foi uma celebração ao Dia da Terra, e tinha até uma brincadeira divertida para que os visitantes descobrissem que bicho eles são.

 
Barack Obama estava conectado: o presidente dos EUA usou os 14 posts na rede hoje para falar de ação pelo clima e investimentos em parques nos EUA. Ora, se a presidente quer mesmo que mudança climática e energia sejam temas prioritários no diálogo com os EUA, como afirmou na Cúpula das Américas há poucos dias, podia começar pelo Twitter.
 
Ainda dá tempo e temos aqui algumas sugestões de tuítes para a presidente:
 
O Brasil vai liderar as negociações para a Conferência do Clima de Paris, apresentando uma meta ambiciosa de redução de emissões #DiaDaTerra
 
A matriz energética brasileira se voltará cada vez mais a energias renováveis, com grande investimento em energia éolica e solar #DiaDaTerra
 
Nossa política de combate ao desmatamento será mais robusta e daremos mais atenção à criação de unidades de conservação #DiaDaTerra
 
Vamos investir em inovação para avanços tecnológicos significativos em adaptação e redução dos impactos da mudança climática #DiaDaTerra
Brasil terá desmatamento zero, 100% de renováveis e vamos zerar emissões líquidas em 2050. #DiaDaTerra
 
Tem mais alguma sugestão para a presidente? Tuíte para nós: @obsclima.