Escrito em por & arquivado em Economia e Clima.

(…) o bicho ta pegando, a chapa esquenta, o tempo passa mas a evolução é lenta (…)

A frase do Marcelo D2 foi escrita para falar da busca pela batida perfeita. Mas traduz de modo simples e direto a situação preocupante em que a crise financeira está lançando os esforços para o combate à crise ambiental.

Agências internacionais trouxeram a notícia esta semana que o Parlamento Europeu estuda permitir que a meta de redução em 20% das emissões do bloco, num período de 13 anos, seja alcançada em grande parte pelo investimento em projetos de mitigação nos países em desenvolvimento. A proposta original era de adotar políticas severas de redução de emissões e adoção de eficiência energética e fontes alternativas.

A possibilidade é aventada no contexto da crise financeira que se agrava em todo o mundo e que promete períodos difíceis para as economias. Esforços adicionais em investimento e eventual perda de competitividade a curto prazo, por conta dos custos para se limpar a produção e as fontes energéticas das empresas, não são bem vistos nesse momento.

Como a UE é hoje o principal ator entre os desenvolvidos a defender medidas mais rígidas para o combate à mudança do clima, uma guinada para medidas mais flexíveis poderia afrouxar a pressão sobre os demais países desenvolvidos e emergentes de peso como Brasil, China e Índia. Isso, às vésperas do Encontro de Póznan, na Polônia, entre 1 e 15/12, quando começa a rodada final de discussões para o acordo que substituirá o Protocolo de Quioto e que deverá ser fechado até o fim de 2009, em Copenhagen.

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A sensação de que meio ambiente e economia continuam sendo faces opostas da mesma moeda continua no Brasil. O governo tem a sua frente duas crises que demandam medidas contundentes.

Do lado ambiental, o aumento em 133% nos desmatamentos da Amazônia entre julho e agosto é sinal preocupante de que as medidas oficiais para se reduzir a devastação da floresta não têm surtido efeito. A displicência do ministro Minc no anúnico de fatos e medidas deixa a situação ainda mais séria. (Leia entrevista com Marina Silva).

Do lado econômico, a crise financeira global faz o governo se antecipar ao possível escasseamento de crédito internacional para a agricultura e estudar medidas para jogar mais dinheiro brasileiro no setor. O anúncio dessa iniciativa, no entanto, não veio acompanhado de qualquer ressalva sobre exigências ambientais. A mensagem é clara: o importante é não prejudicar as safras. Os efeitos colaterais, no entanto, podem incluir vistas grossas ao desmatamento irregular, que ajuda a baratear a produção.

Se o novo capítulo da velha crise ambiental brasileira abre uma oportunidade para o governo mostrar que o discurso tem correspondência na prática, o derretimento de Wall Street indica que os índices de desmatamento podem continuar a bater recordes, com a benção oficial.

Medidas como a ampliação do monioramento dos desmatamentos, anunciada no calor da crise ambiental, deveriam ser sinal de uma política mais consistente para o meio ambiente. Mas talvez garantam apenas maior visibilidade aos estragos provocados pela negligência à sustentabilidade que impera no pensamento político brasileiro.

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Economistas críticos à farra das bolsas dizem que a atual crise em Wall Street já estava anunciada há tempos (dêem uma olhada no blog do Nassif para alguns posts sobre o assunto). Da mesma forma, ambientalistas e cientistas vêm alertando sobre a crise que se intensifica no planeta, contando recentemente com os exemplos ilustrativos de desastres naturais que se tornam mais intensos a cada ano. (No Observatório do Clima há bastante informação sobre o assunto)

Já é bem sabido que essas mensagens ainda não têm sido suficientes para vencer os lobbies econômicos, a resistência de governantes e legisladores em adotar medidas contundentes e a inércia do consumidor para adotar um modo de vida mais sustentável, abrindo mão de um nível de consumo que não é compatível com a dinâmica de equilíbrio e reposição natural dos recursos e serviços ambientais. Um bom exemplo são os estudos da WWF sobre pegada ecológica, que mostram que desde os anos 80 a demanda da população mundial por recursos naturais é maior que a capacidade do planeta de renová-los.

Alguém poderia perguntar: mas a crise econômica e a crise ambiental estão relacionadas? Se chegarmos a um denominador comum, é fácil perceber que ambas são geradas pela cultura do excesso que impera na sociedade contemporânea. A vontade de se fazer sempre mais dinheiro, de um lado, a vontade de se ter e produzir sempre mais de outro, mesmo que isso não seja essencial para a vida da humanidade.

Poderíamos até falar em um excesso de individualismo e competitividade, com investidores participando de um jogo onde os ganhos de cada um são a regra fundamental e não os ganhos e perdas de todos. A soberba permea igualmente empresas, instituições públicas, consumidores.

Tudo ia muito bem até ontem.

Hoje, a mídia já fala que é o fim da festa em Wall Street. Mas parece que vivemos o fim de uma era. Não sem antes passar pelo choque de realidade que esses momentos exigem. O que será de tudo isso, é difícil dizer. Frio na barriga? Certamente!

Uma frase que me passa pela cabeça e que, de certo modo indica o caminho a ser tomado:

“Nada será como antes, amanhã”

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Foto de Rodrigo Baleia, do Greenpeace, postada no portal Globo Amazônia

Recentes contribuições da imprensa para a questão do clima têm ajudado a colocar a urgência do assunto em pauta. Um bom exemplo é o portal Globo Amazônia, lançado em agosto pela Rede Globo, que permite ao usuário vigiar o desmatamento da floresta por meio de um mapa interativo atualizado em tempo real a partir de informações do INPE. De acordo com o G1, os protestos feitos pelos usuários poderão embasar reportagens sobre casos de desmatamento, com denúncias às autoridades e cobrança por ações de resposta. Para se ter uma idéia do potencial da ferramenta, o G1 noticiou que, no primeiro dia de funcionamento, mais de 680 mil protestos foram registrados.

Fica evidente o poder de contribuição da mídia para informar e mobilizar o público.

Mas a atual crise ambiental exige coesão nas atitudes. Além de ferramentas de interatividade, informação e criação de pautas é preciso que a proatividade esteja presente também no dia-a-dia das empresas midiáticas. Assim como instituições financeiras estão aos poucos estabelecendo critérios ambientais para conceder financiamentos, as empresas de mídia também devem ser seletivas no que se refere a anunciantes. De que adianta mostrar o desmatamento na Amazônia se o intervalo comercial de uma emissora ou as páginas de um grande jornal anunciam produtos e serviços que resultam na degradação direta ou indireta do meio ambiente.

A mesma coerência deve ser observada nas pautas. Ainda é comum, por exemplo, vermos reportagens denunciando o problema da poluição nas grandes cidades em uma editoria de cotidiano ou ciência, enquanto na parte econômica se comemora o aumento da venda de veículos. Não deveria ser necessário lembrar que o benefício perde a força ao ser comparado com os impactos econômicos da poluição sobre a saúde, do trânsito sobre questões de logística, custos de mobilidade e tempo das pessoas, e do aquecimento global sobre a economia e a sociedade.

Outro exemplo é a pecuária, que recentemente mostrou sinais de reaquecimento no mercado exportador, após período de retração. Sob o foco isolado da economia, a informação é positiva. Mas sabendo que esse tem sido o principal vetor de desmatamento da floresta amazônica, de acordo com o INPE, e que o desmatamento é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa no Brasil, é fundamental pressionar para que esse reaquecimento aconteça sob padrões de sustentabilidade.

Vale lembrar que recentemente o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, afirmou que o mundo deve comer menos carne para reduzir as mudanças climáticas. Leia aqui

Se a intenção de lidar com a crise ambiental é sincera, a prática deve ir além de ações isoladas, mesmo porque o meio ambiente só sabe agir de forma integrada.

Escrito em por & arquivado em Brasil no clima, Floresta e Diversidade Biológica.

Vitória régia, um símbolo da região. Calcula-se que existem mais de quarenta lagos desconhecidos na Amazônia. (Foto: Ronaldo Salame)

Foi anunciado o lançamento em 10 de setembro do Projeto Cartografia da Amazônia Legal, iniciativa do governo que pretende pôr literalmente no mapa 1,8 milhão de quilômetros quadrados da maior floresta do mundo que ainda não aparecem no georeferenciamento oficial do Brasil.

A iniciativa, por um lado, vai de encontro à antiga reclamação de ambientalistas e pesquisadores que afirmam conhecermos muito pouco a Amazônia. Por outro, é inevitável um questionamento:

Até hoje os sucessivos governos mostraram pouco empenho em frear o desmatamento na região e, o que é pior, vêm mantendo uma política de incentivos e vista grossa à degradação da floresta em nome de atividades econômicas que remontam os tempos coloniais. Sendo assim, o esforço cartográfico tem qual objetivo? Conhecer para reverter essa situação? Ou conhecer para pilhar mais um pouco da Amazônia? Conhecer para desenvolver as inúmeras alternativas às atividades predatórias e explorar a floresta em pé de modo sustentável? Ou conhecer para manter o legado de destruição que vitima a biodiversidade, o equilíbrio do clima e o futuro das próximas gerações?

Essas questões não são colocadas aqui exclusivamente para o governo. São questões a serem respondidas por toda a sociedade. Já sabemos que o futuro do planeta depende acima de tudo de uma mudança de mentalidade. Pois bem. Os veículos de imprensa que anunciam o novo programa revelam na redução jornalística a mentalidade coletiva que ainda permite encarar a floresta como o inimigo a ser prostrado.

Em tempo. O projeto tem por objetivo produzir todo tipo de mapas dos chamados “vazios cartográficos”. Mas as manchetes curtas sintetizam a idéia em “vazios da Amazônia”. As áreas em questão, que somam mais de 30% da floresta, nada têm de vazias. São abundantes em biodiversidade, grandes fornecedoras de serviços ambientais, cenários de belas paisagens e por aí vai.

A observação poderia ser apenas um preciosismo semântico. Mas chamar as áreas de floresta que ainda não foram tomadas pelo homem de vazios é indicar que estão ali ao Deus dará, desprovidas de vida. E não é esse o olhar que tem permitido a destruição em escala da floresta? A velha noção de que a massa verde é apenas a cobertura do terreno baldio, esperando o aventureiro que irá desbravá-la.

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A Embrapa Monitoramento por Satélite divulga hoje estudo que mapeia e quantifica o alcance territorial da legislação ambiental e indigenista no Brasil. O resultado: em termos legais, apenas 7% do bioma Amazônia e 33% do país seriam passíveis de ocupação econômica urbana, industrial e agrícola, de acordo com a pesquisa.

Em texto do site da Embrapa, a questão ambiental é classificada pelo chefe-geral do instituto, Evaristo de Miranda, como problema que irá se agravar e barreira à expansão da agricultura e do crescimento econômico como um todo. Miranda só não mencionou que o assoreamento dos rios, o empobrecimento do solo, a interferência no clima e outros tantos impactos ambientais causados pela expansão da agricultura e pecuária insustentáveis praticadas no Brasil também são barreiras ao futuro da economia.

Também não menciona que outras atividades econômicas podem ser desenvolvidas nas áreas de floresta – extrativismo, turismo, bioprospecção, manejo sustentável – que não demandam a devastação e nem resultam em desequilíbrio ambiental.

Restringir as atividades de alto impacto para as florestas e estimular as que permitem o equilíbrio dos ecossistemas e perpetuação dos recursos naturais é um caminho mais sustentável, que pode ser estimulado, por exemplo, pelo zoneamento ecológico econômico, conforme vem sendo defendido por Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), em diversos veículos de imprensa. (leia em Jornal da Ciência)

Vale lembrar que a própria Embrapa desenvolve um programa de ZEE. Para quem não conhece o ZEE, sugiro a explicação da jornalista ambiental Heloísa Ribeiro em Como tudo funciona.

Veríssimo acredita que a área calculada pela Embrapa está subestimada e lembra que as atividades econômicas podem ser desenvolvidas no espaço que já foi desmatado, algo como 18% da floresta ou 18 vezes os estados de Alagoas e Sergipe juntos.

É preciso, porém, visão, vontade política e investimento.

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?O que a gente gostaria de ver é essa mesma empolgação com relação à Amazônia, que é um mundo sem fim e ainda inexplorado que o Brasil poderia explorar.? A frase é do coordenador da Campanha de Florestas do Greenpeace. ?O que a gente gostaria de ver é a Amazônia não só servindo como tema de debate ambiental e de manifestações, mas de ver um plano do governo dizendo o seguinte: aqui nessa região da Amazônia, nós vamos desenvolver a extração de madeira responsável, aqui nessa região vamos ter o desenvolvimento de pesquisa e, nessa outra, de ecoturismo, por exemplo?, listou em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.

No início da semana, Fabio Feldman também tomou a empolgação com o pré-sal como tema de seu discurso no primeiro evento de Consulta Pública sobre proposta do OC para a Política Nacional de Mudanças Climáticas. “Enquanto o mundo todo está correndo para descarbonizar a economia, o Brasil, que tem uma matriz energética considerada limpa, avança na contramão e aposta no petróleo do pré-sal.” Ontem, o Terra Magazine publicou um artigo de Feldman sobre essa questão. Leia aqui. Eis a ponta de um iceberg … um iceberg que derrete

Jos Browning

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No mês de agosto esteve no auditório da FGV, em São Paulo, o xamã esquimó Angaangaq para falar sobre o impacto das mudanças climáticas sobre o Ártico. Em seu relato, ele mostrou como o gelo no pólo norte vem derretendo há décadas, muito antes de se falar em aquecimento global. (Leia a respeito na edição de setembro da revista Página 22.)

O motivo é a poluição carregada pelos ventos até o extremo norte do planeta, incluindo partículas pesadas.

Na edição de 1/9 de seu noticiário, o site EcoDebate trouxe a matéria “Estudo registra a herança tóxica do carvão no Ártico”. Leia o texto aqui e conheça a perspectiva científica do problema que os esquimós vivenciam no cotidiano.

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Deu hoje na imprensa que o governo está “controlando” o crescimento do país, para que ele não ultrapasse o patamar denominado “sustentado”, pelo ministro Guido Mantega. Ou seja, para que não cause desequilíbrios na economia, como a escalada da inflação, por exemplo.

Então: repensar o crescimento para o equilíbrio da economia PODE

A imprensa também noticiou nos últimos anos os inúmeros embates entre o Ministério do Meio Ambiente e a Casa Civil; entre a ministra Marina Silva e ministros de outras pastas que viam nas exigências ambientais restrições à economia. Resultado: a ministra saiu de cena.

Então: repensar o crescimento para o equilíbrio do ambiente NÃOPODE

Interessante notar que o ambiente em desequilíbrio representa custos para o governo e atrapalha o desempenho da economia. Alguém se lembra, por exemplo, como a seca prolongada no ano passado prejudicou a agricultura no Centro-Oeste? A mudança no regime das chuvas, a desertificação dos solos e o assoreamento de rios já é algo comum na região-símbolo da produção agrícola brasileira há alguns anos.

Será que olhar para trás e pensar lá na frente, pode?

Veja iniciativa significativa do Instituto Socioambiental nesse sentido: seminário sobre mudanças climáticas e agricultura, no Mato Grosso, realizado em 28/8

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O Instituto Federal de Ciências Geológicas e Matérias Primas da Alemanha anunciou em 28/8 a descoberta de um bosque fóssil de cerca de 55 milhões de anos, na ilha de Ellesmere, um dos territórios mais ao norte do globo. Segundo os pesquisadores responsáveis pelo achado, há 55 milhões de anos grandes bosques cobriam o que hoje é o Ártico. Na época, América do Norte, Groenlândia e Europa estavam unidos em um mesmo continente e as atuais regiões polares não tinham gelo, e sim, clima subtropical.

A descoberta mostra como ainda desconhecemos o planeta em que vivemos, desde a biodiversidade fossilizada do passado até as inúmeras espécies de hoje que desaparecem pela degradação ambiental, antes mesmo que se tome conhecimento de sua existência.

Mostra também a intensidade da mudança climática que estamos impondo à Terra. Nesta semana também foi anunciado pelo governo norte-americano que o gelo sobre o Oceano Ártico está próximo de bater o recorde do ano passado, quando encolheu mais de um milhão de quilômetros quadrados. E em breve, o verão em que não haverá mais gelo na região. Do jeito que a coisa vai, chegará o dia em que o Ártico voltará a ter um clima subtropical. Enquanto o resto do globo afunda sob o mar que se eleva pelo degelo.