Escrito em por & arquivado em Ciência do Clima.

DO OC

Você deve achar que o Observatório do Clima copia e cola esta notícia todo mês. Acredite: também não aguentamos mais repetir isto. Mas outubro de 2015 teve as temperaturas mais altas já registradas para o mês, desde 1880. A temperatura média do planeta foi 0,98°C maior que a média do século 20. Este valor supera o recorde registrado em outubro do ano passado em 0,2°C.

A NOAA (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA) destaca temperaturas mais altas que o normal no norte e área central da América do Sul, na Austrália e nos Estados Unidos. No Japão e na Dinamarca, houve secas mais severas que o normal.

Outubro é o campeão entre os seis meses consecutivos de recorde mensal de temperatura global – 2015 teve oito desses meses. Este ano é, então, o mais quente já registrado. A média da temperatura global nos dez meses foi 0,86°C superior à média do século 20 – a maior para o período janeiro-outubro desde 1880. Nem tivemos tempo de nos recuperar do último recorde, que foi em 2014. A temperatura média este ano supera a registrada no mesmo período do ano passado em 0,12°C.

Outubro também registrou as mais altas médias de temperaturas oceânicas entre todos os 1.630 meses de registro. A extensão média do gelo do mar Ártico em outubro de 2015 também ficou 13,4% abaixo da média do período entre 1981 e 2010 – 643,7 quilômetros quadrados de gelo, a sexta menor medida para outubro desde que os registros começaram em 1979, de acordo com a análise do centro de dados norte-americano de neve e gelo, que utiliza dados da NOAA e da NASA.

Gráfico da Noaa mostra, em vermelho, regiões do globo que registraram temperaturas mais altas que o normal em outubro de 2015.

Escrito em por & arquivado em Diversos.

 

CLAUDIO ANGELO (OC)

O planeta está esquentando, o Sudeste está sem água, as geleiras estão derretendo, as florestas estão pegando fogo, as concentrações de gás carbônico não param de bater recordes e 14 dos 15 anos mais quentes da história aconteceram neste século. As evidências da mudança climática – e da ação do homem como sua causa primordial – são tantas e tão variadas que seria preciso ter chegado ontem de Marte para negá-las.

Bom, muita gente parece que chegou ontem de Marte e não tem a menor ideia do que está acontecendo pelas bandas de cá do Sistema Solar. Se você é dessas pessoas, seus problemas acabaram! Listamos abaixo a refutação a dez dos argumentos mais comuns dessa patota, para você poder evitá-los e nunca mais passar vergonha ao discutir com amigos que moram aqui na Terra há mais tempo.

 

1 – “O clima da Terra sempre mudou e sempre mudará. É muita arrogância achar que nós somos capazes de intervir nele”.

Esse argumento é muito utilizado por alguns geólogos, acostumados a olhar longas escalas de tempo no passado. A primeira parte dele é verdade. Se há uma coisa que a história da Terra nos mostra é que o clima sempre foi muito instável e sempre variou – por razões inteiramente naturais. Há 125 mil anos, tínhamos temperaturas 2oC mais altas do que na era pré-industrial. Há 3,5 milhões de anos, o planeta era 3oC mais quente. E, na era dos dinossauros, não havia gelo em lugar nenhum da Terra. De fato, a estabilidade climática do atual período quente, o Holoceno, não tem precedentes nos últimos 400 mil anos de história do planeta.

O que isso informa sobre a mudança climática em curso hoje? Nada. As mudanças climáticas do passado eram todas causadas por variações na atividade solar ou nos ciclos orbitais da Terra. E, claro, quando elas eram bruscas demais, ocorriam extinções em massa (#ficaadica). Muitos cientistas atribuem o próprio florescimento da agricultura, que deu origem à civilização, ao clima estável do Holoceno. Hoje não há nenhum desses fatores naturais atuando no clima, e nenhum sinal de variações astronômicas relevantes pelos próximos muitos milhares de anos. O sinal inequívoco de mudança climática visto hoje se deve à intervenção do homem. Na escala que interessa à civilização, a das décadas e séculos, é essa a mudança climática que importa, não a de dezenas ou centenas de milhares de anos.

 

2 – “Os meteorologistas não conseguem nem prever se vai chover amanhã, que dirá se vai fazer calor em 2100.”

Esse argumento deriva de uma confusão comum entre tempo e clima. O tempo são as condições da atmosfera num determinado dia, enquanto o clima pode ser entendido como a média do tempo no longo prazo. O tempo é caótico e dominado por variabilidades de curto prazo (não é à toa que a teoria do caos foi criada por um meteorologista). O clima é algo mais previsível. Não dá para saber se em um determinado dia de janeiro choverá em São Paulo (isso é tempo); mas todo mundo sabe que janeiro é um mês de chuvas em São Paulo (isso é clima).

Antes de tudo, justiça seja feita aos meteorologistas: as previsões do tempo estão cada vez mais precisas, então dá para saber se amanhã vai chover, sim.

Ocorre que, conhecendo o clima de uma determinada região e conhecendo os elementos capazes de alterar o balanço de energia do planeta (em especial os gases de efeito estufa), é possível estimar como ele se comportará, em média, no futuro: se será mais quente, mais frio, mais seco, mais úmido ou mais variável. De fato, uma forma padrão de testar um modelo climático é saber se ele consegue reproduzir a média das condições observadas no passado. Falaremos mais sobre isso adiante.

 

3 – “Mas a Antártida está ganhando gelo. Foi a Nasa que disse. Logo, não há aquecimento global.”

Esse argumento ganhou tração nos últimos dias, devido a um estudo publicado pelo glaciologista Jay Zwally, da Nasa, segundo o qual o continente antártico na verdade estaria contribuindo para reduzir o nível do mar. O estudo foi avidamente reportado pela imprensa como um questionamento ao IPCC, o painel do clima da ONU, que diz que a Antártida tem contribuído nos últimos anos para elevar o nível do mar e o fará ainda mais intensamente nas próximas décadas.

Vamos por partes: é preciso saber de que tipo de gelo e de que Antártida se está falando. A Antártida está ganhando gelo, sim, de pelo menos uma maneira: o cinturão de mar congelado que se forma todo ano ao redor do continente está crescendo cerca de 100 mil quilômetros quadrados por ano. As causas disso ainda são incertas, mas muitos cientistas acreditam que o buraco na camada de ozônio esteja deixando o interior do continente mais frio, e a diferença de temperatura entre o centro antártico e a periferia está deixando os ventos mais fortes em volta do continente. Isso empurra a camada de mar congelado para longe da costa, abrindo uma faixa de mar aberto que rapidamente congela. Na Península Antártica, região mais afastada do polo Sul, o oposto acontece: o gelo marinho está diminuindo a cada ano.

O que Zwally e colegas argumentaram em seu estudo é que existe um outro ganho de gelo: o manto de gelo que recobre o continente estaria “engordando” de 1 cm a 3 cm por ano, devido a uma resposta lenta a mudanças ocorridas no fim da última glaciação, 12 mil anos atrás. Essa engorda estaria acontecendo sobretudo no leste antártico, que concentra mais de 85% do gelo do sexto continente. Tal ganho seria capaz de compensar as perdas que o próprio Zwally e vários outros colegas já comprovaram, usando vários instrumentos diferentes, estar acontecendo em duas outras regiões: a Península Antártica e o oeste antártico.

Que não haja dúvida aqui: existe perda de gelo no continente antártico, muito bem documentada por satélites da Nasa e da Agência Espacial Europeia. Foi a Nasa quem mostrou o rompimento em tempo real de plataformas de gelo na Península Antártica. E foi a Nasa quem revelou, em 1998, que as geleiras do oeste antártico estavam em franco derretimento. No período de 2002 a 2011, a perda de gelo foi de 147 bilhões de toneladas por ano, segundo o IPCC, o que teria elevado o nível do mar em 0,27 milímetro por ano. Quase todo esse gelo vem do oeste antártico. Um estudo recente sugere que o colapso das geleiras do oeste antártico é irreversível e fará o mar subir 3,3 metros na escala de séculos.

O leste é um mistério que os cientistas ainda não conseguiram decifrar. Nenhuma das medições com satélite feitas até aqui conseguiram responder se há ganho ou perda de gelo naquela região. Os cientistas costumam dizer que ela está em equilíbrio.

O estudo de Zwally muda algumas premissas sobre os dados e argumenta não apenas que há ganho, mas que esse ganho mais do que compensa as perdas. Mas, como as medições naquela região são muito difíceis de fazer, alguns glaciologistas acham que ele está errado – embora “haja uma chance pequena de que esteja certo”, como disse ao OC o glaciologista Ian Joughin, da Universidade de Washington. A figura abaixo, produzida por um pesquisador da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, nos EUA, mostra onde está o consenso em relação à dieta da Antártida: as perdas ou ganhos de gelo são representadas pelos tetângulos. De 13 estudos, o de Zwally (retângulos marrons no alto da imagem) é o único a apontar ganho líquido. A maioria aponta perdas, aceleradas a partir de 2005 (aqui Zwally tem outro problema, já que a série de dados usada por ele só vai até 2008).

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Portanto, a Antártida continental está provavelmente perdendo mais gelo do que ganhando, e elevando o nível do mar. E só vai ficar pior no futuro.

 

4 – “O AGA (Aquecimento Global Antropogênico) é uma teoria anticapitalista da esquerda para regular a livre-iniciativa e dar todo o poder ao Estado” (diz a extrema direita) ou sua variante especular: “O AGA (Aquecimento Global Antropogênico) é a cabeça de ponte do imperialismo” (diz a extrema esquerda).

Parece incrível que alguém ainda use esse tipo de argumentação 25 anos depois da queda do Muro de Berlim. O bom dessas duas falácias é que uma delas já está descartada de cara pela aceitação da outra: afinal, o aquecimento global não pode ser ao mesmo tempo uma conspiração da esquerda (caso em que fica difícil explicar a ação de políticos como Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e Miguel Arias Cañete, todos de partidos conservadores) e da direita (caso em que fica difícil explicar como a verdadeira cabeça de ponte do imperialismo, o Partido Republicano dos EUA, se opõe maciçamente a combatê-lo).  Conforme-se, Aldo Rebelo.

 

5 – “Nos anos 70 previram uma era do gelo”

Nos anos 1970, medições de temperatura mostravam uma tendência de 30 anos de resfriamento em relação ao período pré-2a Guerra. Isso fez alguns cientistas teorizarem que o Holoceno pudesse estar chegando ao fim e que a Terra pudesse estar entrando numa nova era glacial. A imprensa comprou a história pelo valor de face, embora essa não fosse a opinião majoritária entre os cientistas: um levantamento de 68 artigos científicos sobre o tema naquela época mostra que 10% previam resfriamento global, 62% previam aquecimento e 28% não davam veredicto.

Hoje sabemos, graças aos estudos do clima do passado gravado no gelo antártico, que a longa duração do Holoceno não é sem precedentes na história da Terra: há 400 mil anos, um período interglacial durou 28 mil anos. O nosso tem cerca de 10 mil. Ou seja, a próxima era do gelo causada por fatores naturais ainda deve demorar um tempinho.

 

6 – “Não há consenso entre os cientistas de que a Terra está esquentando, nem evidência de que isso seja culpa dos seres humanos.”

É preciso saber antes o que é consenso e quem são esses cientistas. “Cientistas” é uma categoria ampla demais: a teoria da relatividade geral pode não ser “consenso” entre os zoólogos, assim como a evolução pode não ser “consenso” entre os físicos. A opinião de uns sobre o domínio dos outros vale tanto quanto a de qualquer outro leigo. Como João Gilberto costuma dizer, vaia de bêbado não vale.

Então a pergunta que precisa ser feita é: há consenso entre os climatologistas – que fazem pesquisa na área e publicam suas pesquisas em periódicos com revisão por pares, sujeitos ao julgamento da comunidade científica e ao falseamento – de que o aquecimento global é real e causado por humanos?

O pesquisador australiano John Cook e a turma do site Skeptical Science se fizeram essa pergunta em 2013. Eles vasculharam 12 mil artigos científicos na literatura que mencionavam “aquecimento global” e “mudança climática”, e constataram que 97% deles afirmavam que o fenômeno é real e causado por humanos. Questionários enviados aos autores dos artigos produziram a mesma cifra: 97%. Portanto, sim, há consenso entre os cientistas. Um estudo de 2007 da americana Naomi Oreskes e outro de 2012 de James Powell chegaram às mesmas conclusões. Powell ilustrou seus resultados desta forma:

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Agora vamos à segunda parte: há evidências de que isso seja causado por seres humanos? Em outras palavras, existe uma impressão digital humana no clima? Quem responde a essa pergunta são os satélites, esses diabólicos instrumentos da “ideologia aquecimentista”.

Caso a Terra estivesse esquentando por uma mudança na quantidade de radiação que chega do Sol, único fator natural capaz de mudar o balanço de energia do planeta, um satélite que medisse a temperatura ao longo das camadas da atmosfera veria um aquecimento por igual da estratosfera, a camada superior, e da troposfera, a camada mais baixa. Os satélites têm feito essas medidas. E o que eles detectaram? A troposfera está esquentando, OK. Mas a estratosfera está mais fria. Por quê? Porque a radiação solar reemitida pelo planeta na forma de infravermelho (calor) está ficando presa na troposfera. Por quê? Porque há uma mistura de gases na troposfera que são opacos ao infravermelho, ou seja, bloqueiam esse tipo de radiação. Essas medições são coerentes com um agravamento do efeito estufa, ou seja, um aumento na quantidade de CO2, metano, óxido nitroso e vapor d’água (sim, vapor d’água!) na atmosfera. Existe alguma fonte de gases de efeito estufa capaz de fazer isso? Sim: nós.

 

7 – “Os Estados Unidos tiveram um recorde de nevascas no último inverno. Cadê o seu aquecimento global?”

Aquecimento global é a média da temperatura planetária, associada ao aumento da quantidade de energia armazenada na atmosfera, que leva a mais extremos climáticos, sejam de calor ou de frio (sim, frio), de seca ou chuva, às vezes nas mesmas regiões. O aquecimento aumenta a evaporação dos oceanos e a quantidade de energia na atmosfera. Isso favorece tempestades mais fortes. Onde chove, chove mais, num período mais concentrado (paradoxalmente, isso também aumenta as estações secas). Onde neva, neva mais. É simples assim.

 

8 – “O aquecimento global parou em 1998.”

Esse argumento está errado de tantas maneiras que valeria um post inteiro só para ele. Muita gente de boa fé, incluindo cientistas e jornalistas de ciência veteranos, já foi seduzida por essa tese. Ela afirma que, após 1998, a curva de aumento de temperatura da Terra parece ter “estacionado”, ou seja, o aquecimento aparentemente parou de acelerar. Eu disse aparentemente.

O que aconteceu foi que, primeiro, 1998 foi um ano incomum: teve o El Niño mais forte já registrado antes deste de 2015. O El Niño joga o termômetro para cima no mundo todo. Se você olha a série de dados a partir de 1998, vai ter a impressão de que o aquecimento estacionou, porque começou a olhar de um ponto fora do padrão. O gráfico abaixo mostra como ao olhar a série inteira do século esse efeito desaparece, e vemos claramente uma progressão de aquecimento, com alguns períodos sem aceleração. Mesmo com 15 anos de aparente estase, todos os 15 anos mais quentes da história aconteceram no século 21, à exceção de 1998. É um recorde atrás do outro. Os anos de 2005 e 2010 foram os mais quentes, depois superados por 2014, que será superado por 2015.

 O gráfico mostra a evolução da temperatura global desde a década de 1970, com períodos sem aceleração sobrepostos a uma clara tendência de aquecimento (Imagem: Noaa)

 

A outra explicação para a desaceleração do aquecimento global foi dada pelos pesquisadores americanos Kevin Trenberth e Magdalena Balmaseda: em vez de ir esquentar a atmosfera, a energia em excesso dos gases-estufa estava esquentando as camadas mais profundas do oceano.

Por fim, há quem diga que a tal “pausa” no aquecimento nunca existiu: trata-se apenas uma ilusão estatística.

 

9 – “É tudo modelo. Se você torturar o modelo, ele te diz qualquer coisa.”

Modelos são grandes conquistas da humanidade. Mais até do que a mandioca. Eles permitem fazer perguntas e testar ideias sobre a natureza em situações de outra forma impossíveis. Os remédios que você toma foram testados em modelos celulares e, eventualmente, em animais. O avião no qual você viaja foi testado antes num modelo computacional. Se não houvesse modelos, os aviões teriam de ser testados pela primeira vez na prática, depois de construídos – quem sabe, com uma tripulação de “céticos” da modelagem a bordo.

Como dito acima, modelos de clima (representações matemáticas da Terra, com atmosfera, polos, superfície e mares) precisam ser testados para “prever o passado” antes de colocados para rodar e simular o futuro – ou seja, simular as condições das últimas décadas para ver se a modelagem bate com o que foi medido. Modelos que falham no teste são simplesmente deletados.

Dito isso, os vários modelos climáticos globais têm personalidades matemáticas distintas, que lhes introduz vieses. O modelo do Centro Hadley, do Reino Unido, mostra um mundo em média mais seco no futuro. O modelo japonês Miroc mostra um mundo em média mais úmido. Para diluir o viés e reduzir a chance de erro, o IPCC usa mais de duas dezenas de modelos globais. E eles dão resultados incrivelmente parecidos.

 

10 – “O professor fulaninho diz que é tudo mentira.”

Voltamos à história de quem são os cientistas e qual é o consenso. Até pouco tempo atrás, havia em alguns veículos de imprensa o vício de entrevistar um ou outro negacionista mais midiático como forma de garantir “equilíbrio de visões” nas reportagens, como se em ciência todas as opiniões valessem a mesma coisa (volto à caricatura dos zoólogos debatendo relatividade geral), e como se a academia estivesse dividida 50% a 50% sobre o assunto. Este vídeo hilário do comediante inglês John Oliver mostra como seria se a imprensa resolvesse representar de fato o equilíbrio de visões da academia sobre a mudança do clima.

No Brasil houve dois negacionistas ilustres da mudança climática. Ambos são meteorologistas (ou seja, têm o costume de olhar o tempo, não o clima), a segunda categoria de cientista com mais propensão ao negacionismo climático (a primeira são os geólogos). Os currículos de ambos revelam uma escassez de publicações sobre mudança climática em periódicos indexados em bases de publicações nacionais ou internacionais (a indexação é uma medida, ainda que imperfeita, da seriedade e da relevância de uma publicação acadêmica). No caso de um deles, todos os sete artigos “científicos” que publicou sobre o tema saíram numa obscura revista eletrônica que tinha ele próprio no conselho editorial. Repetindo João Gilberto, vaia de bêbado não vale.

 

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Novos dados da Organização Meteorológica Mundial indicam que nível de CO2 no ar atingiu 397,7 partes por milhão em 2014

 Imagem de satélite mostra o ciclone Chapala, que atingiu o Iêmen na semana passada

                       Imagem do ciclone Chapala, que atingiu o Iêmen na semana passada (Foto: Reprodução)

 

No começo do ano, muita gente comemorou um anúncio da Agência Internacional de Energia segundo o qual as emissões de carbono em 2014 haviam permanecido estagnadas, apesar do crescimento da economia. Nesta segunda-feira (9/11), a Organização Meteorológica Mundial tratou de temperar o otimismo: dados divulgados pela instituição mostram que as concentrações de gases-estufa na atmosfera subiram no ano passado, e bateram mais um recorde.

Segundo o boletim anual de gases-estufa da OMM, em 2014 as concentrações de dióxido de carbono (CO2) chegaram a 397.7 partes por milhão (ppm) na atmosfera global. No mesmo ano, elas romperam a barreira simbólica das 400 ppm pela primeira vez no hemisfério Norte (algo que voltou a acontecer em 2015). O valor é 43% maior do que o máximo visto na era pré-industrial. A última vez que o planeta viu concentrações parecidas de gases-estufa foi provavelmente no Plioceno, há 3,5 milhões de anos. Naquela época, o nível do mar era provavelmente 20 metros mais alto do que hoje.

Os dados da OMM mostram que, mesmo com a alegada “estagnação” das emissões em 2014, a concentração de CO2 na atmosfera cresceu 1,9 ppm em relação ao ano anterior. A relação entre emissões e concentração não é automática, já que é preciso também considerar que oceanos e ecossistemas retiram todos os anos da atmosfera carbono emitido por atividades humanas a taxas que variam de ano a ano. A subida na concentração foi menor do que a média de crescimento da última década (2,06 ppm por ano), algo que a OMM atribui a um maior sequestro pelo mar e pelos ecossistemas.

Já o metano e o óxido nitroso, dois outros gases de efeito estufa, subiram mais do que a média na última década – a concentração de metano cresceu quase duas vezes mais em 2014 do que em 2013. Juntos, todos os gases-estufa equivalem a 481 partes por milhão de CO2 na atmosfera.

O efeito da subida de concentração desses gases é despertar um gás estufa ainda mais poderoso: o vapor d’água. Este também é altamente eficiente em elevar as temperaturas globais, mas, como varia muito de concentração na atmosfera, é uma ameaça menor do que o CO2.

Acontece que gases-estufa demais aumentam tanto a evaporação nos oceanos que a concentração de vapor no ar pode virar um problema sério. Segundo a OMM, se a quantidade de CO2 dobrasse, o vapor d’água sozinho poderia produzir elevações de temperatura três vezes maiores do que as causadas pelos outros gases.

“Em breve estaremos vivendo com níveis médios de CO2 acima de 400 ppm como uma realidade permanente”, disse em comunicado o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud. Segundo ele, o CO2 é uma ameaça invisível, mas muito real. “Significa temperaturas globais mais quentes, mais eventos extremos e enchentes, gelo derretendo, nível do mar subindo e oceanos mais ácidos. Isso está acontecendo agora e estamos entrando em um território desconhecido com uma rapidez assustadora.

 

 

 

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A agência norte-americana de oceanos e atmosfera (Noaa) confirmou nesta segunda-feira a informação que era alerta aqui no Observatório do Clima: 2015 deve ser o ano mais quente já registrado na história.

A média da temperatura global em setembro foi 0,9 ° C mais alta que a média registrada no século 20. Esta foi a maior  temperatura registrada para o mês, superando o recorde de 2014. Também foi o maior aumento acima da média para o mês em todos os 136 anos de registro. O ano de 2015 já tem seis dos 10 meses mais quentes registrados na história: setembro, março, maio, junho, agosto e setembro. Várias cidades brasileiras quebraram neste ano seus recordes históricos de calor, entre elas Manaus, Brasília e Belo Horizonte.

No dia 11 de setembro o gelo do Ártico atingiu também a sua quarta menor extensão desde 1979, com 2,73 milhões de quilômetros quadrados – cerca de 1,19 milhão de quilômetros quadrados abaixo da média de 1981 a 2010.

Os especialistas têm atribuído a sequência de recordes de temperaturas ao aquecimento global causado pela emissão de gases causadores de efeito estufa. Este ano, além desta tendência de aquecimento devido à atividade humana, o fenômeno El Niño também tem contribuído para as altas temperaturas.

Gráfico da Noaa mostra, em vermelho, regiões que registraram temperaturas mais altas que o normal em setembro de 2015.

Escrito em por & arquivado em Diversos.

backtothefuture

 

 

Os personagens do filme De volta para o futuro saíram de 1989 e chegaram hoje, 21 de outubro de 2015, por aqui – o futuro. O filme mostra um cenário futurístico, com uma série de inventos tecnológicos e novos comportamentos da sociedade. Algumas previsões vividas pela dupla Marty McFly e Doc Brown no filme até que deram certo, mas outras passaram longe. Por exemplo, uma delas era que não precisaríamos mais de estradas. Não só dependemos delas como nossa insistência no uso de combustíveis fósseis (tipo gasolina e diesel) está aí firme e forte.

Mas há algumas coisas que eles não previram. Algumas fariam inveja à inventividade de Doc Brown. Outras podem colocar o futuro a perder se não fizermos nada.

1.    O mundo está mais quente

Tá calor, né? 2014 foi o ano mais quente da história, em todo o mundo, mas deve perder o posto para 2015. Todos os anos mais quentes registrados desde que se começou a usar termômetros para medir as temperaturas globais, em 1880, estão no século 21. Desde 1880, o planeta aqueceu cerca de 0,85ºC. As previsões são de aquecimento de até 4ºC até o fim deste século se ninguém fizer nada e de 3ºC a 3.5ºC se os países se contentarem com as promessas de corte de emissões feitas neste ano.

2.   Faz calor até na Antártida

Em março foi registrado o recorde de temperatura no continente que ainda quer ser chamado de gelado: 17,5º.

3.    Tá faltando água

Na Síria, na Califórnia, em São Paulo e até na Amazônia as secas estão mais severas. Não dá pra atribuir tudo ao aquecimento do planeta, mas nos últimos anos tivemos uma prévia do que podem ser os próximos. Preservar as nascentes, reverter as mudanças climáticas e pensar em adaptação à mudança no regime de chuvas é urgente.

4.    Tá sobrando água – mas isso não é bom

De 1992 para cá, três anos depois da aventura de nossos heróis, o nível do mar subiu 8 centímetros. E até o fim do século pode chegar a quase 1 metro de aumento, o que forçaria realocações maciças de população e o redesenho de grandes cidades no mundo inteiro.

5. O polo Norte derreteu

Observações de satélite revelam que a quantidade de cobertura de neve na primavera no hemisfério norte tem diminuído ao longo das últimas cinco décadas e que o gelo está derretendo mais cedo. O oceano Ártico, onde fica o polo Norte, perdeu mais de 40% da sua cobertura de gelo no verão e pode chegar ao meio do século como um mar navegável nessa época do ano.

6.    Mandamos o planeta de volta para o passado

A concentração de dióxido de carbono na atmosfera ultrapassou em março a marca simbólica de 400 ppm (partes por milhão). Significa que, em cada milhão de moléculas de ar, há 400 de gás carbônico, um composto extremamente eficiente em reter calor na atmosfera. Essa concentração vem subindo de forma acelerada ano após ano. A última vez que isso aconteceu foi há 3,5 milhões de anos, quando o nível do mar era até 20 metros mais alto e quase não havia gelo no planeta. Em todo o período pré-industrial, a concentração de CO2 na atmosfera jamais ultrapassou 280 ppm. Os modelos climáticos apontam que, com duas vezes mais CO2 no ar, o aumento da temperatura da Terra seria de cerca de 3ºC, valor muito superior ao limite considerado “seguro” de 2ºC acima da média pré-industrial. Segundo o IPCC, o painel do clima da ONU, para ter uma chance de 50% de atingir os 2ºC, os níveis de CO2 precisariam estacionar em 450 ppm e depois cair.

7. O papa é o herói dos cientistas

O papa foi o maior ativista pelo clima em 2015. A encíclica Laudato Si’ alertou os católicos e não católicos do mundo inteiro sobre a responsabilidade humana nas mudanças climáticas e em outros temas sérios sobre meio ambiente. O recado é: temos que agir com urgência. Aqui uma análise ponto a ponto pra você entender melhor.

8. A tomada de casa virou posto de gasolina

Ainda não é o capacitor de fluxo do Delorean, mas os carros elétricos aparentemente chegaram para ficar. O número de veículos elétricos ou híbridos de eletricidade e gasolina saiu do zero no início da década de 1990 e chegou a 665 mil de acordo com relatório de 2015 da Agência Internacional de Energia. Carros completamente elétricos são uma das esperanças contra o aquecimento desenfreado da Terra.

9. O sol virou a tomada de casa

Quando De Volta para o Futuro foi feito, gerar a própria energia em casa a partir da captação da luz do sol era mesmo coisa de ficção científica. Hoje há 177 gigawatts de energia solar fotovoltaica instalados no mundo, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Em países como o Brasil, a energia solar já é mais barata do que o carvão mineral.

10. Estamos aprendendo a estocar vento

Essa nem Doc Brown nem Dilma Rousseff previram. Mas a tecnologia de armazenamento de energia elétrica em baterias superpotentes está cada vez mais madura, e pode ser uma arma importante contra a mudança do clima nas próximas décadas. Em 2015, uma empresa americana, a Tesla, anunciou uma bateria para uso doméstico capaz de armazenar até 10 quilowatts-hora (kWh). Se a inovação ganhar escala, em breve será possível armazenar a energia gerada por usinas eólicas para utilizá-la quando não estiver ventando, o que, no limite, poderia significar o começo do fim das poluentes usinas fósseis, das perigosas usinas nucleares e das altamente destrutivas grandes hidrelétricas.

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Escrito em por & arquivado em COP, Negociações Internacionais.

 

 

CLAUDIO ANGELO (OC)

O paciente aparentemente sobreviveu, mas a cirurgia deve deixar sequelas. Após um primeiro dia tenso, no qual não faltaram nem mesmo acusações de “apartheid”, as negociações do acordo do clima de Bonn voltaram aos eixos com a decisão de seus líderes de deixar que os países em desenvolvimento fizessem acréscimos ao texto.

As mudanças, chamadas de “inserções cirúrgicas” pelos diplomatas, deixaram o esqueleto do acordo de Paris com um pouco mais de carne: das 20 páginas originais, o texto cresceu para 34, algo considerado manejável (o texto da conferência de Copenhague, em 2009, tinha mais de cem páginas no começo da reunião). Várias das inserções foram feitas pelo Brasil, membro do G77 (bloco que reúne mais de 130 países em desenvolvimento).

A concessão sossegou o G77, que na véspera acusara o texto produzido pelos co-presidentes do grupo que negocia o novo acordo de ser “desequilibrado” e de só refletir as visões dos países ricos.

“O texto anterior parecia muito fraco, e esta versão contém opções que podem levar a um acordo forte em Paris”, disse Mark Lutes, do WWF.

O movimento deixou como efeito colateral a perda de confiança total que os negociadores depositavam nos co-presidentes, o argelino Ahmed Djoghlaf e o americano Daniel Reifsnyder. Ainda não se sabe se eles receberão na sexta-feira a encomenda (ou “mandato”, no jargão da ONU) de produzir um texto-síntese para negociação final em Paris. “Eu não acho que o papel deles vá ser erodido, mas eles serão vigiados”, disse Mohamed Adow, da ONG Christian Aid.

Outro efeito foi a expulsão dos observadores, como ONGs, das salas de reunião durante as negociações. As discussões, que antes eram fechadas somente à imprensa, passaram a ser fechadas a todos que não são negociadores. Segundo as ONGs, a proposta foi feita pelos co-presidentes e apoiada pelo Japão. O G77 se opôs.

Entre os elementos que estão de volta ao texto está a menção à descarbonização da economia até o fim do século. A nova proposta também contém novamente opções de visão de longo prazo, como zerar as emissões líquidas até 2050.

Elemento fundamental para os países em desenvolvimento, a chamada diferenciação entre ricos e pobres também voltou ao texto, após ter sido eliminada pelos co-presidentes. O chamado princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas (CBDR), recebeu menções explícitas.

O esqueleto de acordo trazia a diferenciação muito diluída, o que o G77 enxerga como um viés dos países desenvolvidos, que buscam desde sempre borrar as CBDR para se eximir de responsabilidades históricas em mitigação e financiamento aos países pobres.

Elemento fundamental para os países africanos e as pequenas ilhas, o chamado mecanismo de perdas e danos ganhou detalhamento. Uma das opções de texto prevê estabelecê-lo no bojo do acordo de Paris e criar até mesmo uma coordenação mundial para pessoas deslocadas pela mudança do clima. “O texto não está mais perdido e danado”, brincou Adow.

Estar no texto, porém, não significa de forma alguma estar no pacote de decisões de Paris. Todos esses elementos foram colocados entre colchetes, sinal gráfico que na língua das negociações denota desacordo. Tudo está sendo negociado a partir desta terça-feira, frase a frase, em grupos pequenos, no tradicional passo de lesma da ONU. Na terça, segundo uma delegada, o grupo encarregado das ações a adotar na luta contra a mudança climática até 2020 passou 85 minutos só para ler o texto, antes de iniciar a discussão.

As reais barganhas entre os países começam agora. Por exemplo, o chamado Grupo Umbrella, que reúne países desenvolvidos como EUA, Japão e Canadá, inseriu entre as opções no artigo de perdas e danos uma frase simples: “Nenhuma menção a perdas e danos”. Pura mumunha: na última sessão de negociação, em setembro, esse mesmo grupo havia elaborado uma proposta de texto sobre perdas e danos que recebeu elogios. Ao abrir mão dela neste momento, o Umbrella sinaliza que quer trocá-la por alguma coisa adiante.

“O texto foi realmente apropriado pelos membros do ADP”, disse o chanceler da França e presidente da COP21, Laurent Fabius, em referência ao grupo que negocia o novo acordo. “Esperamos que até o final desta semana tenhamos um texto que nos permita chegar a Paris prontos para tomar as decisões finais.”

 

SÍNDROME DE COPENHAGUE

A embaixadora francesa do clima, Laurent Tubiana, também notou a mudança de espírito nos delegados. “Tudo poderia ter dado errado no domingo e na segunda-feira, e o que aconteceu foi o oposto.”

Nesse sentido, Paris presta tributo à fracassada conferência de Copenhague, em 2009. Ninguém quer ser o país que fez o acordo do clima naufragar, portanto, a instrução dada pelos governos a sua diplomacia é para produzir consensos e avançar. Segundo Mark Lutes, há um “claro direcionamento dos níveis políticos altos dos principais países para obter um acordo”. A própria presença de Fabius em Bonn, num encontro que deveria ser apenas de técnicos, é um indicador disso.

Até os EUA, tradicional estraga-prazeres da negociação, parece estar desempenhando um papel construtivo. Veio dos americanos a sugestão de devolver a menção à descarbonização da economia no texto.

E, para mostrar que a sorte premia os esforçados, um evento casual do outro lado do Atlântico animou a reunião de Bonn: na segunda-feira à noite, o premiê conservador canadense Stephen Harper, que ganhou por seis anos seguidos o troféu “Fóssil do Ano” (dado pelas ONGs a quem mais bloqueia as negociações de clima), foi apeado do governo. Numa eleição surpreendente, o liberal Justin Trudeau foi escolhido premiê após seu partido ter obtido a maioria das cadeiras no Parlamento.

Num discurso nesta terça-feira, Trudeau foi aplaudido ao fazer referências à mudança climática, criticando o antecessor, um cético do clima que abandonou o Protocolo de Kyoto: “Precisamos trabalhar duro (…) para cumprir nossos compromissos. Para dar [aos canadenses] um governo que cria políticas públicas olhando para as evidências e escutando os cientistas”. E deu um recado à comunidade internacional: “Nós estamos de volta”.

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Oscilações naturais do clima devem somar-se a tendência de longo prazo de aquecimento global e acelerar aumento das temperaturas, diz relatório britânico

 Young woman with fan

CLAUDIO ANGELO (OC)

Não são apenas a inflação, os juros e o desemprego que prometem subir a níveis insuportáveis em 2015 e 2016. As temperaturas globais também devem crescer no biênio e podem ultrapassar os recordes já quebrados neste século. Se você já sofreu em 2014, o ano mais quente da história, prepare o ventilador.

O alerta foi lançado nesta segunda-feira (14) pelo Met Office, o serviço nacional de meteorologia do Reino Unido. Os pesquisadores daquela instituição apostam que, após mais de uma década sem acelerar, o aquecimento global deve assistir a uma nova retomada de velocidade. Isso está encomendado devido a mudanças em mecanismos naturais que regulam a variação do clima no planeta. Mas vamos por partes.

Primeiro, é preciso esclarecer uma aparente contradição: o aquecimento da superfície terrestre não acelerou neste século. Ou seja, o crescimento das temperaturas mundo afora foi menor do que seria esperado dadas as concentrações crescentes de gás carbônico na atmosfera. Isso não quer dizer, veja bem, que o aquecimento global tenha “parado”, como muitos negacionistas (que devem viver em Marte ou permanentemente trancafiados num quarto com ar-condicionado) dizem por aí. Significa apenas que o termômetro está subindo mais devagar.

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O gráfico mostra a evolução das temperaturas médias desde 1970, com períodos sem aceleração (pontilhados horizontais) sobrepostos a uma clara tendência de aquecimento (imagem: Noaa)

 

Os cientistas ainda não têm certeza do que causa o chamado “hiato” no aquecimento, mas uma hipótese forte é que a energia extra que a humanidade está injetando no sistema climático por meio do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis está indo esquentar o oceano profundo e derreter gelo nos polos, por exemplo, em vez de aquecer a superfície. Há quem diga, inclusive, que o “hiato” é apenas uma ilusão estatística, mas eu vou poupar os leitores desse debate. Nada disso elimina o fato de que todos os anos mais quentes registrados desde que se começou a usar termômetros para medir as temperaturas globais, em 1880, estão no século 21.

Ocorre que o aquecimento global não conta toda a história. Ele é apenas a tendência de longo prazo, uma espécie de partitura da máquina do clima da Terra sobre a qual fatores naturais podem improvisar. Alguns desses improvisos, chamados oscilações climáticas, podem produzir décadas mais quentes ou décadas menos quentes e/ou afetar o clima regional de maneiras importantes.

Três dessas oscilações estão sofrendo ou começando a sofrer mudanças importantes, segundo os cientistas do Met Office: a Oscilação Decadal do Pacífico, a Oscilação Multidecadal do Atlântico e o El Niño. Isso terá impacto direto nas temperaturas dos próximos anos.

O El Niño é o modo de variabilidade natural do clima mais conhecido do mundo. A cada cinco anos, mais ou menos, ele produz um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico perto da América do Sul. Isso muda o regime de chuvas e ventos em todo o planeta, causando inclusive secas homéricas no Nordeste e incêndios na Amazônia. O El Niño joga os termômetros para cima, na média.

Há um El Niño em curso em 2015, e os meteorologistas apostam que ele será de magnitude similar à do de 1997/1998. Aquele fenômeno causou pequenas catástrofes, mortes e prejuízos bilionários no mundo todo, inclusive os incêndios florestais que arrasaram o Estado de Roraima. O ano de 1998 foi o único do período instrumental que teve temperaturas médias globais comparáveis às do século 21.

Mas oscilações de mais longo prazo também parecem estar em transformação, puxando o clima em direções opostas. Uma é a do Pacífico, conhecida pela sigla PDO. Na sua fase negativa, ela tem um efeito médio de resfriamento do Pacífico, que pode durar uma década ou mais. Na fase positiva, o inverso acontece.

Nos últimos anos a PDO está na fase negativa, o que pode ajudar a explicar o hiato no ritmo de aquecimento da Terra. Há evidências, no entanto, de que ela tenha entrado em sua fase positiva. Um sinal disso é que o aquecimento do Pacífico foi detectado antes mesmo do início do El Niño deste ano.

Em sentido oposto trabalha a AMO (Oscilação Multidecadal do Atlântico), um padrão climático de tão longa duração que só teve três ciclos registrados na história. Em sua fase positiva, ela esquenta o oceano, o que ajuda, por exemplo, a derreter o gelo marinho no Ártico e os glaciares da Groenlândia. Esse modo de variabilidade é suspeito por causar o forte episódio de degelo na Groenlândia na década de 1930.

Há indícios de que a AMO esteja entrando em sua fase fria (negativa), embora seja cedo para afirmar isso – justamente por sua longa duração. Se isso acontecer, ela pode compensar em parte o efeito da PDO positiva nos próximos anos e, eventualmente, produzir mais décadas de aquecimento contínuo, mas desacelerado.

Para este ano e o próximo, porém, o prognóstico é de muito calor: já em 2015 as temperaturas médias estão 0,38oC mais altas do que a média de 2000-2010, o que pode levar 2015 a bater o recorde de 2014 como ano mais quente da história, algo que deve se repetir em 2016, já que as condições de El Niño se arrastam por mais alguns meses e a PDO pode empurrar o clima para condições mais quentes por mais alguns anos.

Segundo o Met Office, a Terra pode retomar uma taxa de aquecimento semelhante à do fim do século 20 – 0,2oC por década – ao longo dos próximos dez anos. “Salvo uma grande erupção vulcânica ou um retorno muito repentino de condições de La Niña ou de uma AMO negativa que resfrie o clima de repente, as médias globais de aquecimento em dez anos tendem a retornar aos níveis de fins do século 20 em dois anos”, escreveram os autores do relatório.

 

Foto: Corbis

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Climate Reality Project lançou nesta semana uma petição online para que os governos tomem uma atitude eficaz para limitar o aquecimento global e as consequências das mudanças climáticas não se agravem. “A ameaça das mudanças climáticas nunca foi tão grande. Mas o caminho também nunca foi tão claro”, diz o texto do abaixo-assinado.

O objetivo é reunir assinaturas em todo o mundo para pressionar os governantes por um acordo do clima ambicioso na Conferência do Clima de Paris, que acontecerá no fim deste ano. O consenso científico é de que as mudanças climáticas ocorrem por causa da atividade humana, por meio das emissões de gases de efeito estufa, e que é necessário limitar o aquecimento global em 2ºC em relação à temperatura da Terra antes da revolução industrial.

Para isso, é necessário que os governos tomem medidas como a preservação das florestas, que absorvem o gás carbônico (CO2) — principal gás de efeito estufa — e, principalmente, mudanças na matriz energética, eliminando os combustíveis fósseis (como o carvão e o petróleo) para fontes renováveis e não poluentes. A adoção dessas mudanças é possível, e importante para evitar consequências mais graves das mudanças climáticas (que já estão acontecendo), em especial para populações mais vulneráveis. É isso que será definido na COP 21, a conferência do clima da ONU.

Você concorda que está na hora de mudar, por um planeta melhor para nós e para as próximas gerações? Clique aqui e assine! 

 

Esta imagem é de uma animação da NASA, que mostra a mudança de temperatura da Terra de 1980 a 2013. As temperaturas mais elevadas do que o normal são mostradas em vermelho e temperaturas mais baixas do que o normal estão em azul (veja a animação: http://climate.nasa.gov/climate_resources/28/)

Esta imagem é de uma animação da NASA, que mostra a mudança de temperatura da Terra de 1980 a 2013. As temperaturas mais elevadas do que o normal são mostradas em vermelho e temperaturas mais baixas do que o normal estão em azul (veja a animação: http://climate.nasa.gov/climate_resources/28/)

 

Escrito em por & arquivado em Ciência do Clima.

CÍNTYA FEITOSA (OC)

De acordo com medições por satélite da NASA, o nível do mar subiu 8 cm desde 1992 por causa do aquecimento global. Em alguns lugares do mundo, esse aumento superou os 22 cm. Segundo os cientistas, a tendência se manterá nos próximos anos, de forma acelerada.

O aquecimento da água dos oceanos faz com que o seu volume aumente. Além disso, o derretimento de geleiras também contribui para o aumento do nível do mar. Um vídeo divulgado pela NASA mostra as mudanças nos oceanos nos últimos 23 anos. “O aumento do nível do mar vai ser um grande impacto das mudanças climáticas causadas pela atividade humana”, diz o cientista Josh Willis.

Os cientistas estimam que cerca de um terço do aumento do nível do mar é causado pela expansão da água pelo aquecimento dos oceanos, um terço pela perda de gelo da Groenlândia e da Antártida, e o restante pelo derretimento das geleiras de montanha. Mas, o destino das camadas de gelo polares poderia mudar essa relação e produzir um aumento mais rápido nas próximas décadas.

De acordo com a NASA, a Groenlândia, cuja camada de gelo cobre cerca de 1,06 milhão de quilômetros quadrados, deixou no oceano em média 303 bilhões de toneladas de gelo por ano ao longo da última década, de acordo com as medições por satélite. A camada de gelo da Antártida perdeu em média 118 bilhões de toneladas por ano.

Em 2013, o IPCC (Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) declarou que o nível dos oceanos provavelmente aumentaria de 30 a 90 cm até o final do século. “Dado o que sabemos agora sobre como o mar se expande quando se aquece e como camadas de gelo e geleiras adicionam água aos mares, é quase certo que haverá 90 cm de elevação do nível do mar, ou até mais”, disse Steve Nerem, da Universidade do Colorado, líder da equipe da NASA. “Mas nós não sabemos se isso vai acontecer dentro de um século ou um pouco mais.”

Escrito em por & arquivado em Diversos.

Prazo de consulta foi estendido após pressão de organizações; mobilização da sociedade civil para contribuir com o edital se estendem até dia 31

 

Organizações da sociedade civil participaram hoje da reunião do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito, convocada pela Secretaria de Transportes de São Paulo para prestar esclarecimentos sobre o edital de licitação do novo sistema de transporte paulistano, que prevê a contratação dos serviços pelos próximos 20 anos. Além da garantia de transição para combustíveis limpos, atendendo à lei municipal de mudanças climáticas, as organizações cobraram a viabilização da integração entre ônibus e bicicleta e a garantia de que as reclamações dos usuários do transporte irão influenciar na remuneração das empresas.

A reunião desta quinta-feira ocorreu após pedido do Idec, IEMA, Greenpeace e Rede Nossa São Paulo para ampliação do processo de consulta pública da licitação, com mais prazo e mais mecanismos de participação da sociedade. O prazo, que antes terminaria no dia 10 de agosto, foi estendido pela Prefeitura até 31 de agosto.

As organizações presentes na reunião pediram mais transparência nos itens do edital que preveem que as reclamações dos usuários influenciarão no repasse de recursos às empresas. “O edital não deixa claro como a qualidade, atestada pelos usuários, vai interferir na remuneração do serviço. É uma fórmula complexa, que envolve muitos cálculos”, diz Renata Amaral, do Idec.

Para Marina Harkot, do coletivo AP? – Estudos em Mobilidade, a participação ativa dos usuários do transporte deve estar garantida no edital da licitação. “A SPTrans poderia considerar o uso de tecnologia, como aplicativos e totens nos terminais, para um acompanhamento contínuo da avaliação dos usuários. Sabemos que o 156 [ouvidoria da prefeitura] não dá conta da demanda.”

Vitor Leal, do Greenpeace, identifica a necessidade de diversas mudanças no edital para que a cidade realmente cumpra a lei municipal de mudanças climáticas. “Fala-se em integração intermodal e transição para combustíveis limpos, mas as metas da licitação estão todas em aberto: o edital não prevê nenhuma influência desses temas na remuneração. Tudo o que a Prefeitura disse sobre integração com bicicletas, por exemplo, é a possibilidade de usar o bilhete único no sistema de bicicletas compartilhadas. E com relação aos combustíveis, não há nenhuma punição para empresas que não limparem sua frota, o que é preocupante. Se o edital ficar assim, vamos continuar muito longe do ônibus dos sonhos da população.”

Pela lei de mudanças climáticas de São Paulo, a partir de 2018 o transporte público estará obrigado a usar 100% de combustíveis renováveis. No entanto, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, já sinalizou que a lei não será cumprida no prazo e atribuiu o atraso às montadoras e fabricantes de ônibus. “Desconfio que existe um lobby das montadoras em não investir em energia limpa vinculada a ônibus. Isso só avança em automóveis particulares”, disse ele, durante a reunião de hoje.

Desde a prorrogação do prazo, vários grupos aderiram à mobilização por mais envolvimento da sociedade no processo de licitação. A mobilização continua neste domingo (23), com atividades na Avenida Paulista, que estará aberta aos pedestres e ciclistas e fechada para carros, para a inauguração de um novo trecho da ciclovia. Greenpeace, Idec e Cidade Ativa estarão presentes, conversando com a população e esclarecendo pontos importantes a respeito da licitação e de seu impacto no dia-a-dia das pessoas.

 

Outras informações sobre a mobilização estão no evento criado no Facebook pelo coletivo “Busão dos Sonhos”, que reúne as organizações que estão acompanhando o processo de licitação.