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Aqui em Bangkok hoje caiu uma ficha bem dolorosa: na história do clima tá faltando mocinho e sobrando bandido. Digo isso porque hoje rolou aqui um episódio no mínimo “sinixtro”, como diriam os cariocas. No grupo de discussão sobre REDD, o tema era o texto que foi consolidado aqui. Lembram que ele tinha umas 35 páginas daquelas duzentas do texto geral e caiu pra cerca de 20 em Bonn III? Agora estamos com 8 ou 9, o que pelo menos torna mais fácil a vida dos negociadores e também das ONGs que acompanham as discussões. O texto anterior era complicado até de entender, quanto mais negociar.

 

Pois bem, sem mais preliminares, vamos aos fatos. No começo da semana havia no texto na seção de Safeguards (Salvaguardas) uma menção para que as ações de REDD sejam consistentes com a conservação da biodiversidade, incluindo garantias contra a conversão de florestas naturais para florestas plantadas.  Depois, no processo de consolidação do texto que aconteceu durante essas duas semanas, sumiu essa parte em negrito referente a essas garantias.

 

Pois bem, na seção de hoje, o Brasil fez uma fala sensacional dizendo que só ia mencionar a necessidade de que a garantia de não-conversão de florestas naturais voltasse ao texto, e que sem isso todo o texto seria fraco e não haveria o que discutir, já que REDD é um mecanismo que visa diminuir o desmatamento e conservar as florestas que ainda restam. Apesar de eu nem sempre concordar com os posicionamentos da Delegação Brasileira, tenho que reconhecer que nessas colocações a Thelma Krugg simplesmente brilhou. Todas as ONGs ficaram felicíssimas e mais outros 20 países pediram a mesma coisa, apoiando expressamente o Brasil. Diante desse quadro, o chairman desse grupo, Toni La Vina, das Filipinas (que por sinal também tem sido brilhante em mediar um dos processos mais complicados que já vi na vida, e olha que não foram poucos) decidiu que ia voltar com  a garantia pro texto entre [square brackets], esses parênteses quadradinhos aí, que significam que não há acordo sobre aquele pedacinho do texto.

 

Aí a coisa começou a ficar esquisita. Apareceu a Venezuela dizendo que não, assim não dá, tudo começa a ficar escorregadio, faltam outras coisas no texto e porque colocar de volta “só isso”.

 

(Parêntesis 1: só isso? Pra mim isso é o básico do regime de REDD, como disse o Brasil!).

 

Na seqüência, ninguém mais, ninguém menos que a UNIÃO EUROPÉIA também dizendo a mesma coisa, que NÃO APOIAVA o chairman voltar com a garantia pro texto entre brackets. Ouviram isso, pessoal? Repito: UNIÃO EUROPÉIA, sim, aquela mesma dos planos lindos de baixo carbono e metas contundentes, aquela mesma que pode ser que cumpra Quioto, aquela que em tese adora a Convenção sobre Diversidade Biológica, Unidades de Conservação, floresta em pé e etc. O Brasil falou de novo apoiando a proposta do chairman, aí mais bizarro ainda: a República Democrática do Congo falou que saía da sala se as garantias voltassem pro texto.

 

(Parêntesis 2: ouvi ontem aqui de um negociador brasileiro que a maior preocupação da UE agora é trazer os EUA pro regime, portanto inclusive topam o fim de Quioto. A delegação brasileira acha isso o fim, no caso o fim da picada. Na atual circunstância, eu também. Sem Quioto e sem metas ou financiamento, coisas que não apareceram até agora faltando 60 dias pra Copenhagen, restará o quê então?)

 

(Parêntesis: acabei de vir do banheiro, e na porta tava colada a seguinte frase: US and Annex I, stop denying your historical responsibility, então eu acho que a opinião de que a coisa vai mal não é só minha, não).

 

Conclusão: aqui na Tailândia, país lindo e quente decorado com todos os tipos de estátuas e máscaras do Buda, pra mim caiu a máscara da União Européia. Máscara do Buda: coisa linda. UE sem máscara: coisa feia. Sempre soube que não existe almoço grátis, mas por todo o discurso da UE que mencionei acima e por ser uma pisciana fadada à crença na esperança e na salvação mundial, eu considerava esse pessoal “menos pior” que os americanos.

 

“Que nada”, já tinha ouvido de outro negociador brasileiro numa outra ocasião. “A sacanagem americana pelo menos é sincera por ser constante, transparente e na frente de todo mundo, enquanto os europeus são sacanas a portas fechadas ou publicamente em momentos estratégicos, e ficam posando de bonzinhos pras ONGs”. Eu não acreditava nisso e vim a comprovar na prática. Ora pipocas, macacos me mordam!  De preferência macacos brasileiros e não americanos nem europeus, e oriundos de Vossa Majestade a Floresta Nativa e não de uma florestinha plantada qualquer.

 

 

Fernanda Carvalho – TNC

Um comentário para “Bangkok: De Máscaras do Buda e Máscaras que Caem”

  1. Jorge

    Se somos o câncer do planeta …
    Devemos usar meios radicais , começando pelos países grande poluidores !
    Devemos mudar nossos hábitos como um viciado deseja abster-se…
    Devemos largar desse consumismo barato .
    As grandes empresas deve parar de induzir a população e, isso cabe a todos governos .
    É preciso que todos participem e façam sua parte.
    Do contrário, podem ter a certeza que a raça humana não sobreviverá .
    Não estou dizendo redução da poluição para 5% , mas sim , 80% !
    Pode ter certeza que isso é o mínimo .
    Sobretudo, que venhamos buscar o nosso D-us criador do Universo, de todo coração.
    Assim como foi na época dos hebreus na travessia do deserto .
    Que o nosso bom D-us use de bondade para com cada ser, nesse mundo de demagogia e de política capitalista .
    Façamos nossa parte.
    A tecnologia que temos hoje é o suficiente para termos uma vida plena de gozo … Nós, não aprendemos a contentar com que temos !
    Vivemos o hoje pensando no amanhã.
    Essa concorrência absurda deve ser freada , custe o custar !

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