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A vinda ao Brasil na semana passada de dois negociadores de peso do futuro acordo climático pós 2012 trouxe à tona mais uma vez o tema da participação dos países emergentes nos esforços de mitigação dos gases de efeito estufa, cada vez mais presente na mídia e nas discussões preparatórias à conferência de Copenhague. Em Brasília, autoridades brasileiras receberam Todd Stern, enviado especial para as mudanças climáticas dos Estados Unidos, e Ed Miliband, ministro britânico de Energia e Mudanças Climáticas. Os dois tentaram sem sucesso demover o governo brasileiro de sua oposição à imposição de metas compulsórias aos emergentes.
Após visitar Amazônia, Brasília e a uma usina de etanol em Piracicaba (SP), no interior de São Paulo, Miliband esteve na capital paulista, onde participou de um debate na Folha de S.Paulo na terça-feira à noite (4/8) e do seminário “Clima e Desenvolvimento: a Caminho de Copenhague”, realizado no auditório Francisco Landi na Escola Politécnica na Universidade de S.Paulo na quarta-feira pela manhã (5/8). 
O evento na USP foi recheado de significados importantes para o debate climático no Brasil. De maneira inédita, o Instituto de Estudos Avançados (IEA), o Instituto de Relações Internacionais e unidades de peso como a Politécnica e a Faculdade de Economia e Administração (FEA) juntaram-se para promover um seminário sobre mudanças climáticas, que contou com o apoio da Embaixada do Reino Unido. Já era hora de a USP, maior e mais influente universidade brasileira, mergulhar de cabeça nesse que é o maior desafio que a humanidade já enfrentou em sua história.
Foi emblemática a presença na mesa de dois ex-ministros, o físico e ex-reitor da USP José Goldemberg, e Luiz Fernando Furlan, copresidente do conselho de administração da BRF-Brasil Foods (empresa resultante da incorporação da Sadia pela Perdigão) e presidente da Fundação Amazonas Sustentável (FAZ). Ambos engrossaram o coro favorável à adoção pelos países emergentes de metas compulsórias de redução nas emissões de carbono. “Não é correto os emergentes dizerem que podem emitir utilizando o argumento da responsabilidade histórica dos países ricos”, disse Goldemberg no seminário.   
Furlan seguiu a rota aberta por Goldemberg. “O Brasil tem sido tímido e defensivo, embora seja o melhor dos emergentes em meio ambiente. E pode melhorar ainda mais e passar a ser visto como o país da economia verde se for mais proativo nas questões ambientais”, disse Furlan. Defendeu, ainda, a inclusão do REDD no acordo climático pós 2012, com seu financiamento por doações e a venda de créditos de carbono.
O ministro britânico pareceu mais preocupado em ressaltar a necessidade de um acordo que contemple a participação de todos nos esforços de mitigação do que na divulgação do plano britânico de transição para uma economia de baixo carbono. “Os emergentes responderão por três quartos dos gases de efeito estufa que serão lançados na atmosfera nos próximos vinte anos”, lembrou Miliband ao justificar a posição favorável de seu governo à adoção pelos emergentes de metas compulsórias, embora bem mais brandas. Ele se mostrou otimista quanto à evolução da posição da China, hoje muito mais propensa a aceitar algum tipo de compromisso no futuro acordo climático.
Mas também reconheceu a necessidade de contrapartida. “Os países desenvolvidos precisam ajudar as nações em desenvolvimento a financiar as mudanças”, assinalou o ministro britânico, que vê sinais positivos para o futuro acordo global na agenda comum de discussões climáticas estabelecida entre EUA e China.
Furlan não perdeu a oportunidade de alfinetar Miliband ao perguntar se o Reino Unido estaria disposto a baixar tarifas de importação para produtos brasileiros que fossem certificados em função da baixa emissão de carbono. “Precisamos diminuir as barreiras tarifárias e isso vem sendo discutido no âmbito da Política Agrícola Comum da União Europeia”, tangenciou o ministro britânico.
José Alberto Gonçalves
colaborador do OC e da Página 22

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