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Estamos aqui mais uma vez em Bonn pela terceira vez nesse ano. É incrível como parece que o sol esqueceu desse lugar. Em junho e em agosto, época de verão europeu, o céu continua cinza, cinza. Cadê o sol, minha gente? Se fosse possível trazer sol e céu azul do Brasil pra melhorar o clima aqui (literalmente), juro que eu tinha trazido.

Então hoje começou a terceira rodada de discussões desse ano, informal, só uma semaninha. Pra mim, que ainda não entendi direito o que vim fazer aqui já que se trata de uma rodada informal, foi animadora a sessão de abertura do LCA. O Chair falou da intenção dele de sair daqui com um texto mais conciso, o que é fundamental pra próxima rodada em Bangkok. Ele marcou também um plenário no meio da semana pra avaliar o progresso. Tradicionalmente só há um plenário no início e outro no final da rodada, onde  invariavelmente a conclusão é que o progresso ficou aquém do desejado. Vale destacar, leitor, que o atual texto tem 199 páginas de difícil leitura e compreensão. Hoje o Chair lembrou que o texto de negociação pra Marrakesh (onde foi regulamentado Quioto) tinha 30, o que nos faz temer que em 2020 a próxima geração de negociadores e ONGs tenha que ter equipes específicas pra leitura dos textos porque, se seguirmos nessa linha, o número de páginas vai ser da ordem de 4.000.

Já no Plenário do KP ( Protocolo de Kyoto), que durou surreais 10 minutos, a novidade foi a Nova Zelândia anunciando uma meta de redução de emissões de 10 a 20% em relação aos níveis de 1990, sendo que os 20% dependem dos compromissos de outros países. Então nesse momento o “samba do carbono doido” é mais ou menos o seguinte: EUA só vai se comprometer se os outros países o fizerem (e se o Congresso deixar) com os seus mais ou menos 3% em relação a 1990; Japão também veio na mesma linha com uma meta fraquinha e o terceiro nesse esquema é a Nova Zelândia. Eu quero mesmo é ver quem vai “botar o bloco na rua” (bloco nesse caso se remete a números, tanto de redução de emissões quanto de financiamento), porque assim fica cada vez mais difícil ter um carnaval em Copenhagen, e se isso não acontecer sabe lá quantos carnavais teremos pela frente. Ai, como eu queria que fosse o Brasil, país bom de carnaval, mas cada vez mais me parece atual e pertinente o que concluiu lá pelos anos 80 o grande Celso Furtado (paixão à primeira leitura): estamos cada vez mais longe de onde poderíamos estar, e parece que queremos continuar assim.

E aí me vem à mente a fala do Gabão no plenário hoje: combater as mudanças climáticas é responsabilidade de todos, ricos ou pobres, de acordo com o que podem fazer. É a isso que se chama responsabilidades comuns porém diferenciadas, princípio esse que, de tão repetido nesses fóruns e encontros e seminários e workshops, ficou algo meio óbvio. Mas às vezes o óbvio é tão óbvio que a gente esquece dele, e é preciso e desejável que venha alguém pra nos lembrar do óbvio. Nesse caso foi o Gabão, num francês africano absolutamente delicioso de se ouvir. E é óbvio também que isso encheu de esperança a mim, Fernanda Carvalho, brasileira, que apesar das óbvias dificuldades e percalços obviamente teima em acreditar na possibilidade de acordo e salvação mundial da ameaça óbvia da mudança do clima.

Fernanda Carvalho – TNC

Um comentário para “Bonn III: Samba do carbono doido e algumas verdades óbvias que por vezes esquecemos”

  1. Adriana Ramos

    Louvo a você, Fernanda, pela disposição de acompanhar cada rodada dessa dança de um passo pra frente e dois pra trás em que se transformou esse processo, mas também pela esperança que transparece em seu texto e nos faz ainda acreditar que poderemos ter algum avanço mais concreto ainda esse ano. Oxalá o sol apareça em Copenhaguen.

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