Escrito em por & arquivado em Brasil no clima, Floresta e Diversidade Biológica.

Vitória régia, um símbolo da região. Calcula-se que existem mais de quarenta lagos desconhecidos na Amazônia. (Foto: Ronaldo Salame)

Foi anunciado o lançamento em 10 de setembro do Projeto Cartografia da Amazônia Legal, iniciativa do governo que pretende pôr literalmente no mapa 1,8 milhão de quilômetros quadrados da maior floresta do mundo que ainda não aparecem no georeferenciamento oficial do Brasil.

A iniciativa, por um lado, vai de encontro à antiga reclamação de ambientalistas e pesquisadores que afirmam conhecermos muito pouco a Amazônia. Por outro, é inevitável um questionamento:

Até hoje os sucessivos governos mostraram pouco empenho em frear o desmatamento na região e, o que é pior, vêm mantendo uma política de incentivos e vista grossa à degradação da floresta em nome de atividades econômicas que remontam os tempos coloniais. Sendo assim, o esforço cartográfico tem qual objetivo? Conhecer para reverter essa situação? Ou conhecer para pilhar mais um pouco da Amazônia? Conhecer para desenvolver as inúmeras alternativas às atividades predatórias e explorar a floresta em pé de modo sustentável? Ou conhecer para manter o legado de destruição que vitima a biodiversidade, o equilíbrio do clima e o futuro das próximas gerações?

Essas questões não são colocadas aqui exclusivamente para o governo. São questões a serem respondidas por toda a sociedade. Já sabemos que o futuro do planeta depende acima de tudo de uma mudança de mentalidade. Pois bem. Os veículos de imprensa que anunciam o novo programa revelam na redução jornalística a mentalidade coletiva que ainda permite encarar a floresta como o inimigo a ser prostrado.

Em tempo. O projeto tem por objetivo produzir todo tipo de mapas dos chamados “vazios cartográficos”. Mas as manchetes curtas sintetizam a idéia em “vazios da Amazônia”. As áreas em questão, que somam mais de 30% da floresta, nada têm de vazias. São abundantes em biodiversidade, grandes fornecedoras de serviços ambientais, cenários de belas paisagens e por aí vai.

A observação poderia ser apenas um preciosismo semântico. Mas chamar as áreas de floresta que ainda não foram tomadas pelo homem de vazios é indicar que estão ali ao Deus dará, desprovidas de vida. E não é esse o olhar que tem permitido a destruição em escala da floresta? A velha noção de que a massa verde é apenas a cobertura do terreno baldio, esperando o aventureiro que irá desbravá-la.

Deixe um comentário

Você deve estar registrado para deixar um comentário.