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Tem sido difícil fazer previsões realistas quanto ao desdobramento do encontro de Copenhagen, com sinais otimistas e pessimistas sendo disparados por todos os lados. Basta um giro pelas últimas notícias para perceber a esquizofrenia. Começando pelo Brasil. O presidente Lula afirmou na semana passada, em entrevista à Reuters, que o país não deve ter medo de adotar metas de redução de emissões de gases do efeitos estufa. Em rápida conversa com Rachel Bidermann, do GVces, surge o alerta de que o discurso deve ser visto com alguma desconfiança: “A apresentação do Brasil no final do encontro em Bonn não é bem nessa direção. Na verdade, demonstra uma posição bastante conservadora.” (Leia o documento)

Em paralelo, a campanha ruralista pelo desmonte da legislação ambiental, que corre solta às vistas grossas do governo, também indica contradição na fala de Lula. Ainda mais quando se sabe que o enfraquecimento da lei ambiental ameaça a própria meta do Plano Nacional de Mudanças Climáticas de se reduzir em 50% o desmatamento na Amazônia, a principal fonte de emissões do Brasil.

O desencontro entre discurso e prática se revela em outros países também. Nos EUA, o governo Obama tem mostrado uma mudança radical de perspectiva sobre as mudanças climáticas em relação à era Bush. Capítulo recente foi a fala do secretário de Comércio Gary Locke em pronunciamento no dia 19/7 para a Câmara de Comércio Americana em Xangai, durante o encontro entre EUA e China para a construção de soluções conjuntas para o combate à mudança do clima. “É nossa atividade de consumo que tem causado a emissão de gases do efeito estufa. Então, francamente, os americanos devem pagar por isso.” Disse Locke em referência ao pagamento de uma taxa sobre o carbono associado aos produtos consumidos em seu país.

Uma pesquisa nos EUA feita por uma associação de empresas junto a 300 presidentes de indústrias apontou que eles apoiariam esforços de mitigação como esse, desde que tivessem evidências mais contundentes dos benefícios econômicos das medidas. A pesquisa não diz se os participantes têm conhecimento de estudos como o Relatório Stern ou o Relatório McKinsey. De qualquer jeito, mostra que ainda falta apoio interno nos EUA para que o discurso de Obama tenha consistência prática.

A falta de apoio interno a propostas de Obama também tem eco na comunidade internacional. A sugestão do secretário Locke sobre uma taxa de carbono certamente não é restrita aos EUA e outros players já estão sentindo a pressão. E batendo o pé. Durante visita da secretária de Estado Hilary Clinton à Índia, o ministro do Meio Ambiente daquele país, Jairam Ramesh, reclamou da pressão norte-americana para que a Índia reduza emissões. “Não há motivo para a pressão que nós, que detemos um dos mais baixos índices de emissão per capita, estamos sofrendo para reduzir emissões”, relatou a Reuters. “E se a pressão não fosse suficiente, nós também sofremos a ameaça de tarifas às nossas exportações a países como o seu”, disse dirigindo-se à secretária Hilary.

Tudo isso em meio a uma corrida internacional em que cada participante adota uma velocidade própria. Se por um lado o Reino Unido anunciou seu plano rumo a uma economia de baixo carbono (tema do post anterior, de Beto Gonçalves) e assumiu a dianteira dos países ricos,  por outro o presidente da União Européia, o primeiro ministro sueco Andreas Carlgren, denuncia o lento avanço das conversas para um novo acordo climático e a posição de muitos países de demandar ações de outras nações em vez de agirem internamente. Demanda semelhante foi feita pela Aliança dos Pequenos Estados Insulares na semana passada.

Enquanto isso, a temperatura vai subindo …

Ricardo Barretto, GVces

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