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Qual a regra pra se montar um daqueles quebra-cabeças de 1.000 ou mais peças? Comece montando os cantos. É assim que a imagem vai se formando. Então a situação do caminho rumo a Copenhagen segue mais ou menos desse jeito. O Japão anunciou em Bonn um compromisso, ainda que pouco. A meta de redução é até 15% até 2020, o que representa 8% em relação a 1990. Lentamente os Estados Unidos começam a avançar, ainda que pouco também. No Brasil a situação ainda é boa, dado o fato de sermos “país em desenvolvimento”, portanto não tendo tanta culpa no cartório como os famosos desenvolvidos do Anexo I da Convenção. Ainda assim, resta certa confusão, certo desencontro entre o que levamos como proposta pro plano internacional e o que se decide internamente, conforme já bloguei de Bonn. Vimos alguns exemplos de pecinhas desse quebra-cabeça, umas esquizofrênicas e outras nem tanto, que se destacaram na semana passada, a saber:

 

1 – Houve o evento do OC na quinta, que mostrou o quanto é necessário discutir política internacional com a sociedade civil e outros atores fundamentais, como o parlamento brasileiro. Ninguém entende direito qual é a posição brasileira além de cobrar o que o Anexo I deveria ter feito e deve continuar fazendo. Nada de metas, nada de mercado para REDD. Nosso REDD é o Fundo Amazônia. Ok, tudo certo até ai, mas há ou não há um descolamento entre o que é internacional e o que é doméstico? Para os nossos palestrantes, no limite de seus mandatos conforme dito pelos próprios, não há tensão. Para nosotros, talvez mais perto da realidade, salta aos olhos um conjunto de sinais truncados: ressurreição da energia termelétrica indo na contramão da história em tempos de combate à mudança do clima, boca cheia pra dizer que nossa matriz energética é limpa por conta das hidrelétricas sem levar em conta os impactos socioambientais desse tipo de energia, que também rolam com os “maravilhosos e sensacionais” biocombustíveis. E tem coisa pior, que de tão pior merece o item abaixo só pra ela.

 

2 – Pior de todos os sinais truncados, creme de la creme ou a cereja do bolo, é a malfadada MP da Grilagem (atual MP nº 458, convertida na Lei nº 11.952). Pensem: o Plano Nacional tem uma meta de acabar com o desmatamento no país. Aí vem o Presidente e diz: vamos regularizar a situação fundiária na Amazônia, que isso resolve tudo, no melhor estilo Organizações Tabajara: “seus problemas acabaram”.  Os ocupantes de terra diretos ou indiretos ou até mesmo empresas vão poder comprar até 1500 hectares de terra pública. Veto na questão de empresas e ocupantes indiretos, viu, ambientalistas, tá bom pra vocês ou não? Vai acabar a violência no campo, porque quem matou pra ocupar os 1500 hectares não vai precisar matar mais. E todo mundo vai ficar tão feliz que vai recuperar tudo que já desmatou e botou gado e soja e etc. E aí vem outro Ministro e diz: essa lei que foi criada nos anos 60 (na verdade a primeira edição é de 1947) que manda conservar floresta em 80% da propriedade na Amazônia tem que ser alterada porque não corresponde à nossa realidade, caso contrário não dá pro país ser feliz: é preciso produzir, ser o celeiro do mundo e etc. Minha conclusão: não dá mesmo pra entender como toda essa maluca equação vai dar no desmatamento zero. Se você, leitor, entendeu, favor explicar pro mundo e pra mim. Confesso que matemática nunca foi meu forte, ainda mais essa matemática de que dá pra preservar sem derrubar nenhuma árvore embora seja preciso aumentar o percentual atualmente permitido para desmate na Amazônia e resolver o problema da grilagem na canetada ao invés de na justiça.

 

3 – E por algum mistério cabalístico maior e inquestionável, eis que no mesmo dia em que o Presidente Lula assina essa Medida Provisória com dois vetos duramente conseguidos após diversas ONGs, movimentos sociais e Ministério Público sapatearem nacional e internacionalmente, acontece a aprovação da tal Waxman-Markey Bill, a lei americana de mudança do clima dos Estados Unidos, pela House of Representatives (a Câmara dos Deputados deles lá). Importante destacar que a aprovação foi por 219 votos a 212 quando eram necessários 218, e que a batalha no Senado deles vai ser dura, ou seja, não é só no Brasil que nem tudo são flores. Tudo bem, essa lei não é tão forte quanto todos gostariam, mas deve-se reconhecer pelo menos um corisco de boa vontade do pessoal lá, que conseguiu isso em quatro meses após os oito anos de trevas comandadas pelo Bush.

 

Então, voltando ao quebra-cabeça, o que a gente está vendo são algumas peças do canto se encontrando. O negócio é saber se um dia a gente vai conseguir montar a fotografia toda, com a água refletindo o céu e as montanhas com neve em cima. Corre o risco da água secar e do gelo das montanhas derreter antes da gente chegar lá. E aí me vem à mente o que diz o Tao te King, ou “o livro o caminho”, em seu verso nº 29:

 

Revela a experiência que o mundo
Não pode ser plasmado à força.
O mundo é uma entidade espiritual,
Que se plasma por suas próprias leis
.”

 

Resta esperar que as leis do mundo, feitas pelo próprio mundo com o empurrão de seus governos e de seus governados, concorram pra que se tenha o quebra-cabeça montado antes de Copenhagen. Pela própria sobrevivência do mundo, dos avôs, avós e filhos e netos que há no mundo, e dos filhos dos filhos e netos que ainda virão e que são por direito também donos desse mesmo mundo, que é um só.

 

Fernanda Carvalho – TNC 

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