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O Brasil é um país megadiverso – biodiversidade pujante pelos seus diferentes e encantadores biomas. Os países megadiversos formam na Convenção da Biodiversidade um bloco cujo poder é intransponível – são eles quem detêm o recurso em questão, e quem no mundo vai dizer o que eles podem fazer com ele? Também somos diversos do ponto de vista cultural – negro, branco, índio, mulato, populações tradicionais e toda essa maravilha que é a gente do nosso país.

Já no mundo da mudança do clima, a coisa é um pouco diferente e a diversidade se expressa nas contradições. Exemplo disso é o Congresso aprovando a MP da Grilagem enquanto aqui em Bonn defendemos que o REDD não é nada disso que a gringolândia pensa, nada de baselines complicadas, banco de créditos e o caramba. Queremos um sistema simples que possa ser implementado imediatamente, para isso esses milhões de regras só atrapalham. Queremos? Facilita também se for voluntário. Facilita? Claro, aí se não der certo podemos dizer pro mundo: sorry, mundo, não foi dessa vez que acabamos com o desmatamento.

Aqui em Bonn ouvimos de negociadores brasileiros que a política externa não se preocupa com “temas pontuais” com a MP da Grilagem, e sim com a “big picture”. Então tive um flashback de teoria das Relações Internacionais. O realismo, de Morgenthau e Thomas Hobbes (o filho do medo, pessimista até o osso) considera a política externa como uma caixa-preta que não se mistura com a doméstica, e cujos temas principais são o militar e econômico. Esse era o paradigma válido até os anos 70, passadas duas guerras mundiais, num tempo em que realmente o homem era o lobo do homem e só assim se sobrevivia.

Hoje pressupõe-se que estamos em tempo de governança global, com outros atores feito ONGs e índios cada vez mais conquistando espaço junto aos estados no plano internacional e, claro e óbvio, a política doméstica e a externa de um país se reforçando mutuamente e se retroalimentando. Na prática, nada disso: estamos em tempo de “o homem ser o lobo do homem” e, pior ainda, em tempos de desmatamento.

A maior contribuição que o Brasil pode dar em sede de mudança do clima é acabar com o desmatamento da Amazônia. É hora de assumir a floresta como patrimônio inigualável e como recurso de poder, e não como estorvo. Já passou da hora de se ter orgulho em dizer que temos uma legislação que comanda aos proprietários manter 80% da área de sua propriedade conservada ao invés de fazer isso soar como “vejam vocês que obstáculo ao desenvolvimento”. Desenvolvimento já, com floresta em pé, Fundo Amazônia, Plano Nacional de Mudança do Clima implementado, Política Nacional de Mudança do Clima aprovada no Congresso e posição de política internacional compatível com tudo isso. Algum candidato à presidência disposto a topar essa plataforma?

Fernanda Carvalho – TNC

2 comentários para “Brasil em Bonn e em casa: país megadiverso, diversas contradições…”

  1. Adriana Ramos - ISA

    Pois é, Fernanda, lamentavelmente parece que alguns setores no Brasil não se dão conta do tamanho da nossa responsabilidade e do potencial de nossa liderança. Na semana seguinte à Bonn o Ministro da Cooperação para o Desenvolvimento e do Meio Ambiente da Noruega disse que os esforços do Brasil na redução do desmatamento entre 2005 e 2006 equivalem a 10 vezes o que a Noruega conseguiria reduzir de emissões se zerasse todas as suas. A Noruega pode ter pouco a contribuir no caso das reduções de emissões, mas é o país que mais tem investido recursos financeiros para ver o REDD acontecer.
    O discurso do Ministro foi feito na solenidade de entrega do Prêmio Sofia à Senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente.

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