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Ontem, 21/4, foi Dia de Tiradentes. Para alguns a possibilidade de feriado prolongado. Para outras, oportunidade de discutir como a história cria mitos. Para muitos outros, como bem noticiou a mídia, foi dia de compras.

O mercado de automóveis estava em festa, com grande procura da classe média que ignorou o contexto de crise, a situação caótica do trânsito nas cidades e o fato de que o IPI não representa nem R$ 50,00 na parcela de um carro novo. Nas diversas matérias da imprensa sobre a corrida às revendas, só apareceu o primeiro argumento. Os outros dois provavelmente desagradariam indústria e comércio.

Apesar da cara de domingo, na TV não tinha nem o Fantástico com matérias sobre o aquecimento global ou vídeos da série Vozes do Clima, para lembrar as pessoas de que mais do que conforto e pseudo-mobilidade, os automóveis são fontes de emissões de gases estufa. Já vai longe na memória da população a seca na Amazônia, o furacão Katrina e o desastre em Santa Catarina – fenômenos que materializam o potencial das catástrofes naturais que podem surgir das mudanças climáticas. Na imprensa, essas imagens também estão devidamente distantes, em subpastas digitais dos departamentos de arquivos.

Em mais dois meses acontecerá a reunião do G8, que atrai o olhar dos ambientalistas para saber o que dirão os presidentes participantes – com destaque para Obama, que vem sinalizando uma nova posição dos EUA na questão climática. Mas o dia 21/4 é de feriado, contrapor em uma reportagem a febre do consumo a questões como pegada carbônica ou o esforço mundial necessário para o combate à mudança do clima exigiria pesquisa e equipe com fôlego. Daí não termos visto nenhuma associação do tipo na mídia. Mesmo em veículos que têm feito ‘tudo’ pela sustentabilidade.

O que dizer então da COP-15, que acontecerá só daqui a sete meses. Seria pedir demais que os editoriais acendessem um sinal amarelo alertando para a incongruência entre os avisos dos cientistas sobre a urgência da crise ambiental e os recentes estímulos ao consumo de veículos e à adoção das térmicas em detrimento a outras fontes de geração de investimento, trabalho e capital ou a fontes de energia não-poluidoras, como os ventos que sopram sem parar no nordeste brasileiro.

O bom mesmo é curtir esse momento de euforia, que nos brindará com mais carros na rua, mais carbono e enxofre no ar, mais intensidade no efeito estufa, mais gente se endividando, mais certeza para os governantes que insistem na política de apoio às montadoras. Tudo isso na mesma data em que se comemora o mito de Tiradentes.

por Ricardo Barretto

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