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Todos felizes na reunião do G 20 dessa semana. Tapinhas nas costas, troca de elogios, os comentaristas econômicos cumprimentando as novas regras para o sistema financeiro e as bolsas subindo – todos como se tivessem sempre clamado por mais controle sobre a insanidade do mercado, como agora gostam de chamar.

Há quem diga que a crise passará mais rápido agora. E depois? Se as contas e fluxos monetários se estabilizarem mesmo, haverá tempo então para contemplar o resto da crise. A crise de excessos, certamente. A farra dos mercados talvez chegue mesmo ao fim, mas a farra com os recursos naturais rumo ao crescimento infinito já exige um outro olhar, ainda que faça parte da mesma compulsão da sociedade por ter sempre mais em lugar de vivenciar mais o que já tem.

O mais perto da sustentabilidade que o encontro do G20 chegou foi a reedição de um discurso já ouvido, conforme relata a Reuters: ?A respeito das questões ambientais, os líderes reafirmaram um compromisso de 15 meses atrás, relativo à aprovação de um novo tratado que substitua o Protocolo de Kyoto, e resolveram ?acelerar a transição? para um modelo econômico de baixa emissão de carbono.?

O que dá aquela coceirinha na cabeça é que se os homens de ternos e altos cargos ainda não tratam o desequilíbrio do mercado e o do meio ambiente como elementos de uma mesma crise, conseguirão propor, aprovar e por em prática medidas para vencê-la? A reunião do G20 foi capaz de estabelecer maior controle ao mercado de capitais e baixar a bola dos paraísos fiscais, mas nem passou perto de associar o fluxo financeiro com medidas para a sustentabilidade – crédito mediante comedimento no uso do que é tirado da Terra, por exemplo. Se o companheiro Lula lesse o post, a essa altura – assim como muitos outros companheiros – diria ?uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.?

A frase é o slogan do olhar que manteve as coisas como são até agora. Algo como a ?estátua sensível? de Condillac, na fase em que o universo é o cheiro do jasmim, conforme descreve Jorge Luis Borges em o livro dos seres imaginários. Em tempo, o personagem é um homem hipotético que acredita que o universo todo corresponde ao cheiro de jasmim. Lá pelas tantas, depois de outros sentidos atribuídos a ele por seu criador, permitindo novas comparações e experiências, é que lhe será revelado que existe espaço: ?e que no espaço ele está num corpo; os sons, os cheiros e as cores, antes dessa etapa, haviam lhe parecido simples variações ou modificações de sua consciência.?

Reconhecer-se como um corpo no espaço é o mote por trás da palavrinha já meio gasta – sustentabilidade. Este ano, a agenda dos homens de ternos e altos cargos traz uma nova chance de mostrarem que isso não é apenas uma variação do maravilhoso universo em que vivem. Esperamos que Copenhagen traga mais do que tapinhas nas costas.

 

 

 

Ricardo Barretto – GVces

 

 

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