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Ao contrário, tempestades como a que matou 25 na Costa Leste podem ficar mais frequentes

 

madov                                  Carro coberto de neve em Nova York na segunda-feira (Foto: Natasha Madov)

 

CLAUDIO ANGELO

DO OC

Lá vêm eles de novo. Não vai faltar gente nesta semana compartilhando fotos de Nova York e Washington parcialmente cobertas pela tempestade de neve Jonas (ela ganhou nome, uma honraria reservada apenas a tormentas muito fortes) e perguntando “cadê o aquecimento global?”

Depois de cinco relatórios do IPCC, o Painel do Clima da ONU, era de imaginar que as pessoas tivessem aprendido. Mas vamos lá: o aquecimento global está exatamente ali, em cada rua bloqueada e em cada carro soterrado. E, mais tragicamente, em cada um dos 25 mortos que a nevasca deixou na Costa Leste do país.

Longe de ser uma evidência contra a mudança climática, Jonas, que despejou quase 1 metro de neve em um dia em algumas regiões de Nova York,  é o tipo de fenômeno previsto há muito nos modelos computacionais de clima no caso de um planeta em aquecimento. Por uma razão simples: mais CO2 na atmosfera significa mais calor. Mais calor significa mais evaporação da superfície dos oceanos e mais energia na atmosfera. E mais evaporação e mais energia significam mais combustível para tempestades de chuva e neve – e precipitações mais concentradas num intervalo menor de tempo. Onde chove, chove mais forte. Onde neva, neva mais forte.

Homem esquia pelas ruas de Washington durante a tempestade (Foto: João Fellet)                     Homem esquia pelas ruas de Washington durante a tempestade (Foto: João Fellet/Facebook)

No caso da Costa Leste dos Estados Unidos, os cientistas têm apontado como possível influenciador da força das nevascas o aquecimento anormal da água do Atlântico naquela região – três vezes mais do que a média de aquecimento do mar no mundo.

O alemão Stefan Rahmstorf, do Instituto de Pesquisa de Impactos Climáticos de Potsdam, chegou a levantar uma hipótese, ainda altamente especulativa, de que mudanças na circulação ali possam estar relacionadas com a “mancha fria”, uma porção do Atlântico Norte ao sul da Groenlândia que tem batido recordes de frio (de fato, foi um dos poucos lugares do planeta que esfriaram nesta década), talvez por causa de um enfraquecimento da corrente marinha que leva calor dos trópicos para a Europa.

Segundo Rahmstorf, a formação da “mancha fria”, possivelmente ajudada por aportes de água doce provenientes do degelo da Groenlândia, está causando mudanças de circulação que levam a água quente a se “empilhar” no litoral dos EUA.

A climatologista americana Jennifer Francis, da Universidade Rutgers, também propôs uma explicação para as nevascas extremas nos EUA: a perda do gelo marinho no Ártico e das neves da Sibéria está causando mudanças na circulação atmosférica. A chamada corrente de jato, nome dado aos ventos de altitude que circundam as zonas setentrionais, está mais lenta – e isso permite que massas de ar do Ártico penetrem mais ao sul, despejando pilhas de neve sobre os EUA.

É mais um paradoxo entre tantos da mudança climática.

 

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