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Por Bruno Toledo (OC), com informações do The Guardian

Strip_coal_miningQuem acompanha o debate sobre fontes energéticas em tempos de mudanças do clima sabe que a indústria de combustíveis fósseis não brinca em serviço na hora de defender seus interesses estratégicos. Se nos primórdios das discussões sobre clima a posição desse setor era completamente negacionista (quanto ao problema em si e/ou quanto à sua responsabilidade sobre ele), hoje a estratégia de ação é bem diferente: nos últimos anos, empresas de petróleo, gás e carvão vêm se aproximando dos fóruns internacionais dedicados à questão climática, intensificando sua participação nessas discussões e buscando mostrar uma imagem diferenciada, preocupada com as mudanças do clima.

Mas, em matéria de esforço de relações públicas, ninguém supera as empresas do setor do carvão mineral. Mais do que mostrar preocupação com a questão climática, essas empresas tentam vender a ideia de que seu produto, ao invés de ser o vilão, é na verdade o mocinho da história. Sim, o carvão pode ajudar na luta contra as mudanças climáticas! Muitas empresas apresentam “inovações” no processo produtivo que acabam “limpando” o carvão, tornando-o menos poluente e mantendo sua competitividade no mercado. Segundo essas empresas, esse carvão “limpo” será fundamental para ajudar na luta contra as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se mantém como um combustível barato que garantirá o desenvolvimento de comunidades pobres em todo o mundo.

Porém, o mundo-maravilha apresentado pelas indústrias do carvão não resiste a um olhar mais atento e crítico a essa estratégia descarada de greenwashing. Carvão continua sendo carvão, independente dos componentes químicos que você colocar nele; ele continua sendo um combustível fóssil que, ao ser queimado, vai emitir dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa na atmosfera terrestre. O uso massivo deste tipo de combustível não fará nada a não ser piorar o quadro do efeito estufa global, reverberando negativamente sobre o clima terrestre.

Ainda assim, por mais absurdo que ele possa soar, esse discurso faz parte das regras do jogo do mercado. Afinal, essas empresas estão tentando manter seu nicho de mercado num cenário cada vez mais restritivo à sua atuação. No entanto, ao enveredar nesse tipo de argumentação, o perigo é cair na “forçação de barra”: abusar tanto do senso comum, ao ponto de cair no mundo da surrealidade. Este foi o caso da Peabody Energy, uma gigante do setor carvoeiro que acabou virando alvo de críticas pesadas de ambientalistas e especialistas em saúde pública por causa do argumento utilizado por um de seus executivos para defender o seu produto – que o carvão “limpo” poderia ter ajudado na luta contra a epidemia de ebola que afetou diversos países na costa oeste da África entre o final de 2014 e o começo de 2015.

greg-boyce-peabody-guardianUma matéria publicada nesta semana pelo jornal The Guardian aponta que Greg Boyce (foto ao lado), executivo chefe da Peabody, incluiu um slide sobre Ebola e energia numa apresentação feita durante uma conferência da indústria carvoeira em setembro passado. O slide sugeria que a disponibilidade de mais energia poderia ter ajudado na distribuição de uma hipotética vacina contra o Ebola – citando como evidência um especialista em doenças infectocontagiosas da Universidade da Pennsylvania.

No entanto, especialistas em saúde pública envolvidos na luta recente contra o Ebola na África ocidental rejeitam peremptoriamente a sugestão apontada pela Peabody de que o acesso maior à energia, possibilitado pelo carvão, poderia ter contido o avanço do Ebola e ajudado na distribuição de uma vacina – até porque não existe uma vacina aprovada contra a doença. Além disso, Harvey Rubin, o especialista citado pela Peabody para apoiar sua argumentação pró-carvão disse que nunca tinha ouvido falar da empresa – e mais: nem o nome dele estava corretamente escrito nessa apresentação.

Para Irwin Redlener, diretor do Center for Disaster Preparedness da Universidade de Columbia, a sugestão feita pela Peabody foi oportunista. “A Peabody tem objetivos corporativos muito específicos e explícitos. Acho que é absurdo partir de uma crise global para tentar justificar a existência de uma companhia que está interessada em produzir e vender carvão. Esta é uma tentativa oportunista e, de alguma forma, desesperada para relacionar interesses corporativos com uma crise massiva de saúde pública”, disse Redlener para o The Guardian.

SAMSUNG CAMERA PICTURESPosteriormente, consultada pelo diário britânico, a Peabody negou estar usando a crise do Ebola para ganho próprio. De acordo com a companhia, Boyce apenas notou que a falta de energia afetou dramaticamente a capacidade de conter o Ebola em nações-chave que tem pouco acesso à energia e onde os hospitais dependem de geradores próprios para ter energia elétrica.

“Estamos falando de infraestrutura de saúde pública, e energia é apenas uma peça nessa estrutura – existem muitos outros fatores junto com isso”, aponta Skip Burkle, pesquisador da Harvard Humanitarian Initiative, que considera a sugestão da Peabody “absolutamente ridícula”. “A indústria do carvão está decaindo, mas há outras respostas para questão que não seja despejá-lo na África. Isso é apenas um insulto à população”.

 

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