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Germany, Bavaria, Schäflarn, Roof of a house covered with solar cells

© Tom Chance/Westend61/Corbis

Cíntya Feitosa (OC)

Ter em casa baterias que armazenam energia solar para você usá-la mesmo à noite não é mais um cenário futurista. Na semana passada, a americana Tesla Motors, que fabrica carros elétricos, mexeu com o mercado ao anunciar um produto barato, para uso doméstico, que pode ser usado para armazenar energia a partir de painéis solares ou servir de reserva de durante apagões. A Tesla também anunciou que vai produzir baterias maiores para as empresas e serviços de distribuição de energia.

O Powerwall, como é chamado o dispositivo, se encaixaria na parede da garagem de uma casa e pode tornar parte do consumo doméstico independente da rede de energia elétrica tradicional. Hoje, no Brasil, já é possível instalar painéis solares em casa para gerar a própria energia durante o dia e, à noite, receber energia da rede elétrica – economizando até 80% da conta de luz no processo.

“O objetivo é completar a transformação da infraestrutura de energia do mundo inteiro para conseguirmos o carbono zero”, afirmou o fundador da Tesla, Elon Musk, de acordo com a Agência France Presse.

O dispositivo vai custar entre US$ 3.000 e US$ 3.500 e estará à venda nos Estados Unidos ainda neste ano, mas deve chegar a mercados internacionais em 2016. O Powerwall tem modelos de 10 quilowatts-hora (kWh) e de 7 kWh, ambos com garantia de dez anos e suficientes para abastecer a maioria das casas durante o horário de pico de consumo de energia no período da tarde. Cada casa poderá somar até nove baterias. As dimensões são semelhantes às de uma televisão presa à parede.

Mercado

Não é todo mundo que pode desembolsar US$ 3,5 mil para instalar a bateria, então em princípio não se espera o consumo em massa da Tesla Powerwall. Como avaliou o Wall Street Journal, a maior oportunidade de curto prazo são as empresas que muitas vezes pagam multas quando a demanda por energia é alta. A bateria pode ajudar a compensar o gasto e, em conjunto com o software que ajuda as empresas a gerenciar melhor seu uso de energia, torna-se ainda mais atraente.

O blog Taking Note, do New York Times, também levanta o debate sobre o público das baterias. A análise leva em conta os benefícios para as distribuidoras, que poderiam equilibrar o fornecimento irregular de eletricidade a partir de painéis solares e moinhos de vento.

blogueiro Jeff McMahon, da revista Forbes, foi além: escreveu que o novo produto da Tesla “matou a energia nuclear”, ao abrir a possibilidade de que renováveis como eólica e solar passem a contar com o maior atrativo da eletricidade gerada a partir de fissão: energia firme, sem intermitências – e a um preço próximo do megawatt/hora atômico.

Um outro mercado apontado pelo Taking Note são países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina, onde muitas residências e empresas dependem de geradores a diesel, porque não têm acesso à rede ou têm problemas frequentes de desabastecimento. Na Índia, por exemplo, já custa menos produzir energia limpa usando painéis solares do que geradores a diesel – muito poluentes.

“Ainda assim, embora seja mais barato do que algumas baterias de backup no mercado agora, o Powerwall não é barato. É por isso que ele vai fazer mais sentido, onde o custo da eletricidade é elevado e onde a rede não é muito confiável”, conclui o blog.

Na mesma linha, uma análise no site de notícias da revista Nature pondera que, para instalações domésticas, o preço do kit completo da nova bateria – com a conexão para o sistema de eletricidade da casa – poderia ser o dobro do anunciado por Musk, e que a Tesla provavelmente está tomando prejuízo no preço da Powerwall contando com vendas em quantidade. O problema, raciocina a revista, é que a maioria das casas com geração distribuída na Europa e nos EUA não precisa de bateria, já que seus donos podem vender energia excedente para a rede de dia e usar da rede à noite.

Uma análise do Washingont Post aponta que o principal resultado do armazenamento de energia mais difundido poderia, em longo prazo, ser uma verdadeira revolução energética e um planeta mais verde. Alguns dos benefícios são a integração de mais fontes renováveis para a rede e o estímulo ao ajuste dos preços de “energia inteligente”.

As distribuidoras devem se ajustar ao novo mercado: atualmente, a rede fornece energia sob demanda; se a demanda se deslocar para uma bateria controlada pelo cliente, a concessionária vende menos eletricidade. Uma alternativa é que o serviço público aproveite a nova possibilidade – em vez de dificultar a adoção dessa forma de distribuição, as companhias podem instalar baterias em grande escala em suas áreas de serviço. Além disso, podem se beneficiar com o armazenamento de energia solar excedente, estimulando a geração de energia distribuída.

Num momento em que o Brasil parece estar começando finalmente a levar a sério a energia solar e até a presidente Dilma Rousseff – que há apenas três anos chamava essa fonte de “fantasia” – já fala sobre baterias, o novo produto da Tesla pode energizar o debate.

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