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Criança toma anestesia no Afeganistão (Creative Commons) Um estudo publicado nesta semana por pesquisadores suíços e coreanos acaba de confirmar o dito popular de que não há cirurgia sem dor. A dor, no caso, é sentida pela atmosfera: eles descobriram que um conjunto de gases anestésicos cada vez mais popular entre os médicos é milhares de vezes mais potente que o dióxido de carbono em reter o calor na atmosfera.

A sorte é que, por enquanto, as emissões globais desses compostos são mínimas. Porém, uma vez que as concentrações de CO2 no ar não param de subir, tudo de que a humanidade não precisa agora são novos gases de efeito estufa soltos por aí.

Os novos trombadinhas do clima se chamam fluranos. São compostos halogenados de carbono, aparentados com os CFCs, gases que causam o efeito estufa e danificam a camada de ozônio. O principal deles é o desflurano, vendido no Brasil sob o nome comercial de Desforane. Os médicos e os pacientes adoram o Desforane para anestesia geral: ele é inalável (dispensa injeção), não tem os efeitos colaterais de outros anestésicos e propicia uma recuperação rápida do paciente, uma vez que muito pouco dele é absorvido e metabolizado pelo organismo.

São precisamente essas características que fazem com que virtualmente todo o desflurano usado no planeta vá parar na atmosfera. Com menos de 20 anos no mercado, a substância já foi detectada até mesmo no remoto arquipélago das Shetland do Sul, na Antártida.

No novo estudo, publicado na última terça-feira (7/4) no periódico Geophysical Research Letters, os pesquisadores liderados por Martin Vollmer, do Laboratório Federal de Poluição do Ar e Tecnologia Ambiental, na Suíça, estimaram pela primeira vez o potencial de aquecimento da atmosfera do desflurano e de seus irmãos menos utilizados, o sevoflurano e o isoflurano.

O grupo cruzou os dados de fabricação e consumo desses gases com medições diretas, feitas a bordo de um navio num cruzeiro no Pacífico Norte, num telhado na região metropolitana de Zurique e na estação antártica coreana King Sejong. Constatou que a concentração global de desflurano no ar é pequena: 0,3 parte por trilhão (para dar uma ideia, o dióxido de carbono ocorre na atmosfera a cerca de 400 partes por milhão, ou seja, é 100 milhões de vezes mais abundante).

No entanto, a baixa concentração é em parte compensada pelo longo tempo de vida na atmosfera e pelo alto potencial de aquecimento global: cada molécula de desflurano tem o mesmo potencial de esquentar o planeta que 2.500 moléculas de CO2.

Vollmer e seus colegas estimam que, só em 2014, as emissões de gases anestésicos equivaleram a 3 milhões de toneladas de CO2. Isso equivale às emissões de um terço da frota de carros da Suíça, um país pequeno. Mas, mesmo assim, é motivo de preocupação. “As grandes quantidades usadas em cada cirurgia (…), somadas às suas propriedades atmosféricas, fazem dele [o desflurano] um composto indesejável do ponto de vista do clima”, escreveram os cientistas.

 

 

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