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Por Bruno Toledo (OC)

Desde o verão passado, a região metropolitana de São Paulo vive um dos período mais prolongados de estiagem da sua história recente. Associado à falta de chuvas, os termômetros registraram recordes de alta temperatura, o que tornou mais cruel o verão dos paulistanos em 2014.

represa bragança paulista 2014Uma consequência da estiagem e das altas temperaturas continua assombrando a maior metrópole da América do Sul: o esgotamento dos mananciais que fazem parte do Sistema Cantareira, que abastece boa parte da região metropolitana de São Paulo e outras grandes cidades do Estado, como Campinas. As perspectivas futuras não são positivas: a previsão meteorológica não aponta que o quadro possa melhorar nos próximos meses, o que significa que a estiagem pode persistir até ao menos o começo da primavera no hemisfério sul, entre setembro e outubro. Se isso se confirmar, SP pode chegar ao final de 2014 sofrendo o colapso do seu sistema de abastecimento de água potável.

Em contraste com a secura no sudeste brasileiro, a Bolívia viveu um dos seus verões mais chuvosos da história recente, que resultou na cheia histórica dos rios da bacia amazônica entre fevereiro e março passado. O excesso de água isolou fisicamente o Estado do Acre do restante do país por semanas.

Chicago, 2014No hemisfério norte, o inverno foi disfuncional. Na América do Norte, o vórtice polar congelou o Canadá e o norte dos Estados Unidos por semanas, baixando a temperatura para padrões dignos de Marte (entre -40ºC e -50ºC). No norte da Europa, eventos esportivos de inverno tiveram que ser cancelados pela falta de neve na Escandinávia. Em boa parte do continente europeu, o inverno foi muito mais quente que a média dos anos recentes.

Nos últimos dias, mais exemplos de eventos extremos climáticos foram destaque nas manchetes no Brasil e no mundo. A mesma SP que ainda vive com a estiagem foi castigada por uma forte chuva de granizo que praticamente cobriu as ruas do centro e da zona sul da capital paulista. Em pouco menos de uma hora, o cenário paulistano era praticamente igual a qualquer cidade no inverno do hemisfério norte: coberta por uma camada branca de gelo. A prefeitura de São Paulo estima que retirou mais de 300 toneladas de gelo das ruas apenas na segunda passada. Dois dias depois, o gelo ainda permanece cobrindo calçadas e asfalto, e deve demorar pelo menos mais dois dias para derreter totalmente.

Asim Skopljak talks on a mobile phone as he walks near a car strNuma dimensão maior e bem mais cruel, os Balcãs, particularmente a Bósnia-Herzegovina e a Sérvia, vivenciam a pior catástrofe climática dos últimos 120 anos. Em pouco mais de quatro dias, choveu o previsto para três meses. O prejuízo é calculado em bilhões de dólares e as perdas humanas ainda estão sendo contabilizadas.

A associação entre esses eventos climáticos específicos e as mudanças do clima não é factualmente simples, mas a maior ocorrência desses eventos nos últimos meses nos ajuda a entender como é viver num mundo climaticamente instável. O aumento da temperatura média do planeta desafia a humanidade ao “bagunçar” padrões climáticos que nos orientam há séculos na organização das comunidades humanas. O exemplo da “crise da água” em São Paulo é bastante simbólico: se o próximo verão for ainda mais seco, o abastecimento de água na capital paulista estará praticamente irremediado no curto e médio prazos. Na situação em que estamos hoje, para recuperar os mananciais e estabilizar a captação de água para abastecimento nós precisaríamos que chovesse acima da média dos últimos anos nos próximos três verões. Se a situação piorar até o final do ano, a recuperação se torna ainda mais complicada de acontecer num futuro próximo.

enchente rio madeira 2014O que podemos tirar desse cenário mais extremo é que as mudanças climáticas nos trazem desafios que vão além da redução das emissões de gases de efeito estufa. O desafio da adaptação se torna cada vez mais dramático na medida em que avançamos no “farol vermelho” do aumento da temperatura média global. Em grande parte, sua urgência está associada com a nossa incapacidade de agir efetivamente nas últimas duas décadas – exatamente, estamos discutindo “mudanças climáticas” há pelo menos 20 anos – para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa. O Protocolo de Quioto, assinado em 1997, somente entrou em vigor em 2005, e mesmo assim sem a presença do então principal emissor do planeta, os Estados Unidos. Hoje, ainda em vigor, ele trata apenas de uma parte do problema, já que o Protocolo não prevê compromissos obrigatórios de redução para os países emergentes, que hoje são muito mais representativos no consumo das emissões do que há 20 anos (especialmente China, Índia e Brasil).

Por isso a importância do novo acordo climático, que está sendo negociado de forma arrastada nos últimos anos, trazer compromissos viáveis e efetivos para todos os países e olhar para a questão da adaptação climática, especialmente nos países mais pobres. A próxima parada no roadmap até a Conferência de Paris (2015) começa em menos de duas semanas, em Bonn, com mais um encontro dos negociadores no âmbito da Plataforma de Durban (ADP), grupo que negocia o formato e os compromissos do próximo acordo climático global.

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