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30/11/2012

Hoje me deparei com uma situação que não via há muito tempo e que me fez relembrar por que as negociações diplomáticas se movem em um ritmo tão absurdamente lento: Durante uma das negociações da SBSTA sobre REDD+, as Partes dedicaram não menos que 30 minutos para discutir um único parágrafo… O primeiro impasse foi sobre a inclusão da expressão “das Partes”; em seguida, o uso de colchetes em um artigo*; e então, depois disso, a inclusão – ou não – de uma nota de rodapé.

De fato, algumas expressões ou simples palavras são capazes de mudar radicalmente as coisas e impor (ou retirar) compromissos em atividades específicas das Partes. Mas, quando você considera um texto onde o número de parágrafos pode ultrapassar 10, passar 40 minutos discutindo uma única peça pode ser bastante desmotivador e deixar qualquer espectador bastante pessimista.

Isso me lembrou da primeira COP UNFCCC que participei, em Bali, no ano de 2007. Entrei numa das salas de negociação e presenciei as Partes discutindo por uma hora a inclusão ou não de uma vírgula. Tudo parecia tão louco para mim… Mas até então havia sido minha primeira experiência em uma sala de negociação; talvez fosse apenas impressão minha e havia realmente um sentido em tudo aquilo.

Mudanças tem ocorrido desde então, algumas mais rápidas do que o esperado (raramente), mas muitas delas, em um ritmo bem mais lento do que o ideal.

Alguns de nós temos contato direto com as pessoas que vivem na floresta, e por muitas vezes somos questionados por que é tão difícil que os países cheguem a um acordo e reconheçam o imenso valor das florestas no contexto do clima, estabelecendo os meios para apoiar a conservação da floresta. Esta é uma pergunta difícil de ser respondida. E aqui em Doha, distante mais de 12 mil km da Floresta  Amazônica, eu me faço a mesma pergunta. Política, impactos financeiros, soberania, e muitas outras questões são discutidas, mas quando eu penso sobre o desafio que temos na Amazônia e outras florestas tropicais e os impactos que os povos da floresta já estão vivenciando, eu olho para esta sala de negociação e ela me parece um pouco sem sentido. É óbvio para mim que os negociadores têm diferentes prioridades e senso de urgência do que aqueles que vivem na floresta.

Isso me traz de volta ao GCF e aos projetos implementados pelo IDESAM, que, na minha visão, reiteram a expressão “pensar globalmente, agir localmente”. Os verdadeiros esforços na esperança de um futuro melhor para as florestas tem sido iniciativa dos estados, que, apesar dos desafios, estão desenvolvendo as suas próprias legislações e iniciativas, bem como as cooperativas, ONGs e comunidades que  implementam iniciativas pioneiras.

Quando as pessoas são movidas pela esperança e pela fé, as soluções surgem nos lugares e momentos mais inesperados. Talvez se alguns desses negociadores, que provavelmente nunca pisaram em uma floresta, pudessem dedicar alguns dias para ver de perto o que é a Floresta Amazônica, discutir uma vírgula vai parecer um desperdício enorme de tempo e pode nos levar a unir forças em prol de algo que vai beneficiar a todos.

* para os não familiarizados com as negociações em uma COP, um texto, palavra ou mesmo parágrafo, é colocado entre colchetes [] quando sua inclusão ou exclusão não é concordância entre as Partes.

Mariana Pavan, Pesquisadora do Programa de Mudanças Climáticas do Idesam

Acompanhe a participação do Idesam na COP-18 no blog Em campo com o Idesam

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