Escrito em por & arquivado em Brasil no clima, COP.

A COP17 está sendo realizada no International Conference Centre (ICC), em Durban, África do Sul. O ICC fica a pouco mais de 3 km de um dos palcos da Copa do Mundo de 2010, o Estádio Moses Mabhida. Para quem não se lembra, este foi um dos mais bonitos palcos da Copa da África do Sul. Para chegarmos ao ICC, nós passamos pela frente deste imponente Estádio, que possui uma arquitetura ousada. Tem uma cobertura sustentada por dois arcos superiores de 350 metros de comprimento, que se unem sobre o centro do campo, a 105 metros de altura. Os dois arcos, inspirados na bandeira sul-africana, representam a união de uma nação que fora um dia divida pelo Apartheid. É realmente impressionante.

A seleção brasileira jogou uma de suas partidas da primeira fase da Copa do Mundo de 2010 neste estádio. Foi o terceiro jogo da seleção na primeira fase. A partida foi contra Portugal e terminou em um sonolento 0 x 0, o que nos classificou para a segunda-fase de uma Copa que não nos deixou boas lembranças. Aquele jogo do Brasil aconteceu no dia 25 de junho de 2010.

Enquanto o jogo e a seleção brasileira não empolgavam ninguém na África do Sul no ano passado, no Brasil, havia muita gente preocupada com assuntos muito mais importantes.

Naquele mesmo 25 de junho de 2010, os Presidentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Academia Brasileira de Ciências enviaram uma carta conjunta ao deputado Aldo Rebelo, acerca das preocupações dos cientistas sobre o relatório da proposta de alteração do Código Florestal Brasileiro.

Leiam abaixo alguns dos trechos daquele importante documento:


Infelizmente, a reformulação desse Código não foi feita sobre a égide de uma sólida base científica, pelo contrário, a maioria da comunidade científica não foi sequer consultada e a reformulação foi pautada muito mais em interesses unilaterais de determinados setores econômicos.”


As mudanças do Código Florestal igualmente poderão acelerar a ocupação de áreas de risco em inúmeras cidades brasileiras, estimular a impunidade devido a ampla anistia proposta àqueles que cometeram crimes ambientais até passado recente…


Esta substituição levará, invariavelmente, a um decréscimo acentuado da biodiversidade, a um aumento das emissões de carbono para a atmosfera, no aumento das perdas de solo por erosão com consequente assoreamento de corpos hídricos, que conjuntamente levarão à perdas irreparáveis em serviços ambientais das quais a própria agricultura depende sobremaneira, e também poderão contribuir para aumentar desastres naturais ligados a deslizamentos em encostas, inundações e enchentes nas cidades e áreas rurais.


“…podemos chegar a decisões consensuais, entre produtores rurais, legisladores, e a sociedade civil organizada, pautadas por recomendações com base científica, referendadas pela academia e não a decisões pautadas por grupos de interesses setoriais, que comprometam de forma irreversível nossos ecossistemas naturais e os serviços ambientais que desempenham.”


Nesta quinta-feira, na COP17, o Observatório do Clima e do Observatório do REDD, representados pelo Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), a Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e por nós, do WWF, fizeram uma conferência de imprensa para falar dos impactos das mudanças propostas no Código Florestal Brasileiro e também da Usina de Belo Monte sobre nossas florestas e seus povos.

Contamos aos jornalistas e demais presentes que um ano e meio depois da carta enviada pelos cientistas, a ciência e a sociedade brasileira têm sido ignoradas. Falamos a todos que o texto a ser levado na próxima semana para votação no plenário do Senado pode ter consequências dramáticas para as florestas brasileiras, para os povos da floresta, para a biodiversidade e para o clima do planeta.


A área florestal que poderá ficar desprotegida, ser destruída ou não restaurada se as modificações no Código forem aprovadas pode chegar a 79 milhões de hectares, estimativa baseada em dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado à Secretaria de Estudos Estratégicos da Presidência da República. Isso poderia resultar em um balanço negativo de emissões de gases de efeito estufa de até 29 bilhões de toneladas de CO2.

O efeito para o clima, para as negociações de clima e para um mecanismo global de redução de emissões de desmatamento e degradação florestal (REDD) seriam devastadores. A sociedade brasileira, os negociadores da COP e a comunidade internacional estão todos cada vez mais preocupados com o desmonte do Código Florestal Brasileiro.


Depois de 6 meses de o Governo agradar a vontade da bancada ruralista no Congresso Nacional, deixando o péssimo texto do Código Florestal avançar sem bases científicas, está na hora de a presidente Dilma reforçar seu compromisso de Campanha, quando, em carta à ex-Ministra e Senadora Marina Silva, em 14 de outubro de 2010, dizia:


“Sobre o Código Florestal, expresso meu acordo com o veto a propostas que reduzam áreas de reserva legal e preservação permanente…”


“Somos totalmente favoráveis ao veto à anistia para desmatadores.”


Nesta quarta-feira, na COP17, frente aos olhos do mundo, a sociedade civil brasileira cobrou da presidente Dilma que cumpra com sua palavra.

Carlos Rittl

Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil

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