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Sentado no portão de embarque no aeroporto de Miami, aguardando meu voo para Cancun, me recordo deste mesmo momento um ano atrás quando o destino era Copenhagen. Exatamente um ano atrás, mesma conferência com os mesmos objetivos mas expectativas completamente diferentes.

Na verdade as experiências ate agora não podiam ser mais diferentes. Em 2009 o que se via no aeroporto eram casacos pesados e cachecóis, muitos tipos diferentes como diplomatas, cientistas e ambientalistas, mas nenhum turista. A COP15 foi tão falada durante o ano de 2009 que o evento tomou proporções nunca antes vistas na história de qualquer país: o clima era de “Guerra”! Já em 2010… faz uns 30 graus lá fora e gringos com camisas floridas, casais em lua de mel e famílias animadas aguardam o avião. Minha impressão aqui no boarding gate é de que eu sou o único indo para Cancun a trabalho.

É interessante avaliar este clima pré-COP pois ele sempre acaba influenciando a impressão final das pessoas com relação aos resultados do encontro. Grandes expectativas invariavelmente geram decepção, isso serve para tudo na vida. Me parece que o gosto amargo no pós COP15 foi intimamente ligado as enormes expectativas criadas principalmente pela mídia. Digo isso pois aqueles que acompanharam as reuniões preparativas durante 2009 já foram para Copenhagen bem mais céticos do que a maioria. Um acordo mundial, dependente do consenso, simplesmente não tem como acontecer se o terreno não estiver muito bem preparado, e não estava.

O grande problema é quando esta decepção generalizada nos impede de perceber e reconhecer avanços importantes, e houve grandes avanços em Copenhagen. Destaco o papel importantíssimo que as nações emergentes desempenharam nas negociações, enterrando de vez a hegemonia do ultrapassado G8; destaco também a força demonstrada pela sociedade civil organizada, a grande participação do setor privado nos eventos paralelos e os avanços nas negociações envolvendo REDD, que finalmente aproximou mudanças climáticas e biodiversidade.

Este ano as expectativas são muito baixas: a possibilidade de um acordo global ousado (o que é urgentemente necessário) é nula, Cancun não é pop como Copenhagen, Cancun não é a conferencia das conferencias, o clima não é de Guerra. Isso, controversamente, pode ser muito bom. Acredito que a menor exposição do evento este ano atrairá somente aqueles que acompanham o tema e as discussões de perto, os que consideram as questões climáticas extremamente estratégias para suas agendas, o que pode ser ótimo para networking. Com relação as negociações oficiais, o clima menos tenso pode ser benéfico, e qualquer avanço será encarada como lucro.

Destaco também que a COP16 dará continuidade às discussões acerca de REDD, podendo representar passos importantes para um acordo mundial. Outro tema que será muito abordado á adaptação às novas condições climáticas que enfrentaremos já neste século e os mecanismos financeiros necessários para sua implementação. Alem disso, não posso deixar de destacar que se inicia aqui a elaboração do “roadmap” ou caminho para um acordo global pós-2012. Ele será decidido na COP18, a Rio+20, que é a COP mais aguardada depois de Copenhagen.

Tendo em vista todos esses pontos importantes, talvez o gosto do pós-COP16 seja bem mais doce do que no ano passado. É esta minha expectativa.

Roberto Strumpf, GVces

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