Escrito em por & arquivado em Diversos.

Dados da Nasa mostram que janeiro de 2017 é “apenas” o terceiro mais quente da história desde o início dos registros, mas não se anime: Donald Trump e Michel Temer estão aí para corrigir essa falha

via GIPHY

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Os últimos 18 meses têm sido tão pródigos em recordes climáticos que quando a Terra deixa de bater um isso vira notícia. Pois bem: dados divulgados pela Nasa nesta quarta-feira (15) mostram que o mês de janeiro de 2017 não foi o mais quente da história. Foi apenas o terceiro mais quente. Ufa.

 

Segundo as medições combinadas de temperatura da superfície terrestre e oceânica, o mês passado foi 0,92oC mais quente que a média do mesmo mês para o período 1950-1981. É menos que o 0,96oC de 2007, ano em que o Ártico bateu seu primeiro recorde assustador de perda de gelo. E muito menos que o horroroso 2016, quando a temperatura global chegou a 1,13oC acima da média de meados do século 20.

 

O ano passado foi o mais quente desde o início da série histórica de registro global, iniciada em 1880. Terminamos com uma média planetária 1,1oC mais alta do que no período pré-industrial, perigosamente próxima do 1,5oC considerado o “centro da meta” do acordo do clima de Paris. Os dois anos anteriores a 2016 já haviam batido recordes.

 

Só que 2016 teve uma boa desculpa para ser tão quente: foi um ano de forte El Niño, o aquecimento cíclico do Oceano Pacífico. E os El Niños, como sabem os leitores deste blog, têm o condão de jogar os termômetros para cima no mundo todo.

 

O não recorde de 2017 é significativo (e algo assustador), porque nós deveríamos estar agora na fase oposta do El Niño: a La Niña, que em tese ajudaria a resfriar o mundo. Ela foi detectada no segundo semestre do ano passado, depois que o El Niño desapareceu, seguido de uma fase neutra de temperatura do Pacífico. Mas a tendência subjacente de aquecimento era tão forte que o La Niña aparentemente não “colou”.

 

“A La Niña não conseguiu fluir nem no oceano, nem na atmosfera”, disse o climatologista Francisco Eliseu Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Quando o Pacífico tentou reverter, o planeta ainda estava muito quente e a La Niña não conseguiu se configurar globalmente”, prossegue.

 

O efeito é semelhante ao de tomar um banho rápido depois de fazer exercícios puxados: por mais que a água esteja fria, o corpo continua suando por algum tempo depois. A diferença é que o regime de aquecimento da Terra não dá sinal de que vá parar. E menos ainda no que depender da nova configuração do poder global.

 

Nos EUA, Donald Trump parece disposto a cumprir todas as suas promessas de campanha, que incluem “cancelar” o Acordo de Paris e acabar com a EPA (Agência de Proteção Ambiental). O plenário do Senado, dominado por republicanos, deve aprovar até o fim da semana o nome do negacionista climático Scott Pruitt como administrador da EPA – uma agência que ele passou a carreira processando. Analistas temem que Trump possa estimular outros países, em especial a Rússia, a não tomarem medidas contra as energias fósseis, o que seria desastroso para as metas de Paris.

 

No Brasil, onde a taxa de desmatamento na Amazônia subiu por dois anos seguidos, o presidente Michel Temer sentou-se no colo dos 244 deputados da bancada ruralista – cuja agenda para 2017 inclui eliminar o maior número possível de regulações ambientais, inclusive o licenciamento e a reserva legal do Código Florestal, o que tende a tornar mais fácil a vida de quem desmata.

 

No ano passado, Temer já reduziu uma unidade de conservação na Amazônia por Medida Provisória. E seu braço direito, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB-RS), estuda cortar 1 milhão de hectares de cinco áreas protegidas no sul do Amazonas, medida que beneficiaria grileiros e madeireiros locais.

 

Na última terça-feira (14), Temer participou de almoço da Frente Parlamentar da Agropecuária – o sinal máximo de prestígio que qualquer grupo do Congresso pode almejar. No convescote, o presidente discursou: “Quando nós, no governo, dizemos que o Brasil tem rumo, a primeira direção para a qual olho é exatamente a agricultura, o agronegócio”.

 

O aumento do desmatamento apenas em 2016 e apenas na Amazônia elevou as emissões do Brasil em 130 milhões de toneladas de gases de efeito estufa — o equivalente a quase 7% de tudo o que o país emitiu em 2015. Temer talvez pudesse dar uma olhadinha nisso também.

 

Escrito em por & arquivado em Diversos.

Barragem do Descoberto, em Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Meus amigos paulistanos riram por último. Durante mais de ano, tiveram de aguentar minhas piadas de mau gosto sobre a crise hídrica que forçou a classe média da maior cidade do país a escovar os dentes com copinho e tomar banho de balde. Pois bem: nesta segunda-feira (16), Brasília iniciou seu primeiro racionamento de água em 56 anos, que afetará 60% da população. A decisão foi tomada depois que a barragem do Descoberto, a maior do DF, atingiu o menor volume útil de sua história: 18,9%, no auge da estação chuvosa.

Se havia um lugar do país onde a perspectiva de racionar água parecia irreal há alguns anos, esse lugar era Brasília. A capital do país está sentada no divisor de águas das bacias do Paraná, do Tocantins e do São Francisco. E temos um parque nacional criado de forma presciente para proteger nosso segundo maior reservatório, a barragem de Santa Maria (que está com 41% do volume).

Décadas de desperdício, de aumento de consumo, desmatamento do cerrado e ocupação criminosa de mananciais, tolerada ou estimulada por políticos do calibre de Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, corroeram a segurança hídrica da região. Mas o clima se encarregou do empurrão decisivo: foram dois anos seguidos de precipitação muito abaixo da média e calor intenso, que secou o solo e impediu que os reservatórios se recuperassem.

Para mim, que escrevo sobre mudanças climáticas há mais tempo do que seria saudável, o racionamento e outros eventos recentes marcam uma alteração de pronome. Sai o “eles” solidário, mas condescendente, com que tenho tratado até aqui as vítimas do clima, e entra o “nós”. O aquecimento global bateu à minha porta. E não está sendo nada divertido.

É nítido para qualquer brasiliense, em especial os que passaram muito tempo fora e voltaram, que algo mudou por aqui. Para nossa infelicidade, a ciência corrobora essa impressão. Você não consegue mais dormir à noite sem ventilador? Pois saiba que o número de noites quentes no DF – nas quais a mínima da madrugada é superior a 20oC – decuplicou em 2000-2010 em relação a 1962-1970, segundo dados compilados pelo meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Torrou na primavera nos últimos anos? Pois extremos de temperatura também estão mais frequentes: Brasília bateu seis recordes históricos de calor nos últimos nove anos – dois deles em apenas uma semana, no bizarro outubro de 2015. (Muito a propósito, a primeira quinzena de janeiro de 2017 registrou temperaturas máximas quase 4oC superiores à média.)

Aprendeu na escola que Brasília tem a tal “amplitude térmica de deserto”? Reveja: a diferença entre a mínima e a máxima no inverno caiu 2,1oC e, no verão, 2,25oC.

Informações sobre mudança do clima na cidade são escassas. O único trabalho completo já publicado foi feito pela meteorologista paraibana Morgana Viturino de Almeida, também do Inmet, em 2012. Algumas de suas conclusões principais estão num relatório que a Sema (Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) do GDF produziu em dezembro, que será publicado nos próximos dias na página da secretaria na internet.

“A população ainda não consegue fazer a ligação entre os extremos, as enxurradas como a que atingiu Samambaia [cidade-satélite, no fim do ano passado], ondas de calor ou a situação de água que temos agora e a mudança do clima”, diz Leila Soraya Menezes, chefe da Unidade Estratégica de Clima da Sema e coautora do relatório. “As políticas públicas são baseadas ainda em séries históricas, só que as médias históricas não significam muita coisa mais na atual realidade do clima.”

Em seu trabalho, Morgana de Almeida analisou 26 parâmetros climatológicos em todo o Centro-Oeste. O que ela viu foi uma tendência semelhante em quase todas elas: noites mais quentes, maior número de dias secos consecutivos, maior frequência de ondas de calor. Na capital, as temperaturas mínimas médias subiram 1,85oC e as mínimas mínimas, ou seja, as menores temperaturas do ano, subiram 2,6oC desde 1961. O número de dias com umidade do ar abaixo de 30% cresceu 50%, e o número de períodos com baixa umidade quase dobrou. Em 2010 havia 48 dias a mais no ano com temperaturas máximas acima de 25oC do que em 1961.

Curiosamente, as máximas temperaturas máximas cresceram bem menos – 0,85oC no período. E as máximas médias tiveram uma diminuição, embora esta não seja estatisticamente significante.

Tampouco é possível ver mudanças expressivas na quantidade total de chuvas no DF até 2010. Não há informação sobre violência das chuvas, mas elas têm feito mais estragos – por consequência da urbanização. No entanto, em novembro de 2014, a capital registrou seu primeiro tornado.

Almeida pede cautela na interpretação dos dados, dizendo não ser possível separar o efeito da mudança climática do da ilha de calor urbana – o mais provável é que haja sinergia entre ambos. Outros lugares do Centro-Oeste que observaram tendência semelhante à de Brasília passaram por desmatamento nas últimas décadas, o que pode ter influenciado os índices. Mas o fato permanece que o sinal de aquecimento e aumento de dias com baixa umidade relativa do ar é nítido em toda a região.

E esta é só a primeira gongada: vem muito mais por aí.

O relatório da Sema também traz projeções regionais de temperatura e precipitação para o DF, feitas pelo grupo de Sin Chan Chou, do Inpe. O estudo considera dois modelos climáticos, um mais “seco” e um mais “úmido”, e dois cenários de emissões de CO2, um moderado e um alto. A depender co cenário, o aquecimento adicional no DF entre 2011 e 2040 vai de 1oC a 3oC. No fim do século, pode chegar a 6o C. Já a precipitação, que hoje não aparece com um sinal claro nas observações, ganha um imenso viés de baixa em todos os cenários, em especial de dezembro a fevereiro, auge da chuva. A anomalia que fez o DF escorregar na crise hídrica pode ser, portanto, um aperitivo das próximas décadas.

Como disse de maneira célebre o climatologista americano John Holdren, só há três coisas a fazer a respeito da mudança climática: mitigar, adaptar e sofrer. O GDF parece pelo menos disposto a discutir as duas primeiras. No ano passado, iniciou a discussão para a criação de um fórum de mudanças climáticas distrital, a ser lançado em julho.

Na população, quem pode vai se adaptando. Eu comprei um aparelho de ar-condicionado logo após a onda de calor de 2015 e instalei telas mosquiteiras em todas as janelas (afinal, com o calor vêm os mosquitos, que também estão mais numerosos).

O problema é como fica a maior parte dos moradores do DF e entorno, que tem menos recursos para se adaptar. A essas pessoas parece estar reservada uma fatia desproporcional do sofrimento.

 

Foto: Barragem do Descoberto, que abastece dois terços da população do DF. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 

Atualizado às 12h para corrigir data de lançamento do Fórum Clima DF.

Escrito em por & arquivado em Diversos, Energia.

Enquanto carro a diesel sofre reveses importantes ao redor do mundo, congressistas brasileiros tentam importar essa tecnologia

vader

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

O maior escândalo envolvendo a indústria automobilística nas últimas décadas teve seu epílogo nesta quarta-feira (11): a Volkswagen admitiu ao governo dos Estados Unidos a culpa por ter incluído em milhões de carros de passeio movidos a óleo diesel um software que para enganar as autoridades durante testes de emissão de poluentes. A gigante alemã terá de pagar US$ 4,3 bilhões em multas, além dos US$ 17,5 bilhões com que havia se comprometido no ano passado para compensar consumidores ludibriados. Na terça-feira, um executivo da Volks ligado ao esquema foi preso pelo FBI.

O anúncio do acordo vem menos de uma semana depois que uma organização internacional de pesquisas mostrou que, na Europa, carros leves a diesel emitem proporcionalmente dez vezes mais óxidos de nitrogênio que caminhões e tratores, e cerca de um mês depois que prefeitos de quatro grandes cidades do mundo – Atenas, Madri, Cidade do México e Paris – se comprometeram a proibir esses automóveis a partir de 2025.

Juntos, esses eventos sinalizam dificuldades crescentes para o diesel veicular, mesmo nos países que contam com as melhores regulações antipoluição do planeta. E deveriam servir como uma nota de cautela para aquela que talvez seja a única nação do mundo hoje disposta a facilitar a penetração de carros de passeio a diesel no mercado: o Brasil.

O país tem hoje tramitando no Congresso dois projetos destinados a liberar o carro a diesel: numa comissão especial da Câmara dos Deputados trafega o PL 1.013/2015, que libera a fabricação e a venda desses automóveis. Na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, pode ser votado a partir de fevereiro um projeto de decreto legislativo que susta resoluções do Departamento Nacional de Trânsito e do Conselho Nacional dos Combustíveis vetando o diesel para carros leves. Ambos enfrentam forte mobilização da sociedade civil e oposição de uma gama de atores que vão do Ministério de Minas e Energia à indústria canavieira. Mesmo assim, o PL 1.013 quase foi votado duas vezes em 2016.

“Todo mundo é contra”, diz sobre o projeto Cristiano Façanha, pesquisador do Conselho Internacional para o Transporte Limpo, o ICCT.

A ONG foi a responsável indireta por expor o caso Volks, quando mandou à EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) dados que sugeriam que as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) dos carros a diesel nos EUA eram maiores em condições reais de uso do que nos testes de certificação. Uma investigação foi feita pela EPA, que concluiu em setembro de 2015 que a Volks instalou em milhões de carros dispositivos destinados a fraudar os testes.

 

DEZ VEZES PIOR

Na semana passada, o ICCT voltou à carga. Seus técnicos analisaram dados sobre emissões em laboratório e em condições reais de uso dos veículos submetidos aos padrões de qualidade de diesel Euro 6 (carros de passeio) e Euro VI (veículos pesados).

O estudo foi feito com 30 modelos de automóvel e 24 modelos de ônibus, caminhões e tratores. Concluiu que, por quilômetro rodado, os veículos pesados emitem em média 0,2 grama de NOx por quilômetro, contra 0,5 dos carros de passeio. O padrão Euro em vigor limita a emissão em 0,08 g/km. Como os veículos pesados consomem mais diesel por quilômetro, a poluição total por litro é proporcionalmente dez vezes maior nos carros leves.

Segundo o ICCT, isso se deve a falhas de regulação europeias: os testes são muito mais rigorosos para os veículos pesados do que para os carros de passeio.

“O ciclo de testes para os veículos de passageiros não é representativo do mundo real”, diz Façanha. “Existem tecnologias para controlar a emissão dos carros a diesel, mas, com um ciclo de testes menos rigoroso, as montadoras optaram pelo controle mais barato.” Segundo ele, a tecnologia antipoluição que permitiria igualar os resultados na rua e no laboratório reduziria a vantagem econômica do motor a diesel em relação ao motor a gasolina. Carros a gasolina têm desempenho idêntico nas duas situações.

A Europa é hoje o maior mercado do mundo para carros a diesel. Só em 2014 foram 8,8 milhões de unidades vendidas – cerca de 50% das vendas de veículos de passeio. Nos EUA, apenas 5% dos carros são a diesel.

Segundo Façanha, essa adoção tão disseminada foi, ironicamente motivada pela maior eficiência do motor a diesel – que consome menos e, na Europa, emite proporcionalmente menos CO2 que o carro a gasolina. No entanto, prossegue, “isso foi mortal, literalmente”: as emissões de NOx por esses carros são sete vezes maiores na rua do que nos testes, e hoje esses automóveis são as principais fontes europeias desse tipo de poluição. O NOx é precursor do ozônio troposférico, associado a problemas respiratórios e mortes prematuras. Na semana passada, o jornal The Guardian noticiou que a cidade de Londres ultrapassou, em uma semana, o limite de NOx de todo o ano de 2017.

 

IMAGINA NA JAMAICA

Se na Europa, que tem a regulação ambiental mais estrita do mundo, os carros não conseguem cumprir o padrão de qualidade ambiental, o que ocorreria no Brasil?

Façanha e seu colega Tim Dallmann, do ICCT, publicaram em 2015 uma análise que chama atenção para essa questão. Além do NOx, eles citam um segundo problema: os particulados finos, que causam câncer. Como o Brasil tem um diesel muito sujo – aqui o limite de particulados é cinco vezes maior que o na Europa, e ainda se vende diesel no interior com 50 vezes mais enxofre que nas regiões metropolitanas –, os filtros de particulado que rodam nos carros europeus poderiam se tornar inviáveis.

“Se o Brasil liberasse o carro a diesel, este por lei poderia emitir 30 vezes mais que um carro flex”, compara o pesquisador. O resultado, também segundo o ICCT, seriam de 32 mil a 150 mil mortes adicionais por conta de poluição veicular até 2050 no país, a depender da velocidade da entrada do carro a diesel no mercado.

Os deputados que defendem essa tecnologia em nome da “liberdade de escolha” do consumidor argumentam que o problema não é com o motor a diesel em si, mas sim com a maneira como a poluição é regulamentada e regulada. Embora isso seja verdade, o caso dos testes europeus e o escândalo da Volks nos EUA traz uma lição para o Brasil, a pátria dos biocombustíveis: se algo não está quebrado, o melhor que você tema fazer é não tentar consertar.

Escrito em por & arquivado em Diversos.

Bispo prefeito precisará explicar a seus eleitores por que foi favorável a um projeto que os condena ao inferno na Terra

 

O senador Marcelo Crivella, prefeito eleito do Rio

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Um milagre aconteceu no Congresso Nacional nesta semana: a liberação dos carros de passeio movidos a óleo diesel no Brasil, que um grupo de deputados vem tentando sem sucesso obrar por meio de um projeto de lei, acaba de ressuscitar no Senado. Ela reencarnou na forma de um decreto legislativo, que será apreciado nesta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça.

O responsável por essa graça é Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, senador pelo PRB e prefeito eleito do Rio de Janeiro. Ele foi o relator na CCJ do Projeto de Decreto Legislativo do Senado no 84/2015, que “susta atos normativos do Poder Executivo que impedem a utilização de veículos de passeio movidos a óleo diesel”. Como não está mais no Senado, Crivella não comparecerá à sessão da CCJ que apreciará seu parecer. Mas precisará explicar a seus eleitores por que atuou pela salvação de um projeto que os condena ao inferno na Terra.

O diesel é uma danação para qualquer organismo dotado de pulmões, mas em particular para moradores de cidades grandes. Mesmo com o aumento da eficiência dos motores nas últimas décadas, carros a diesel emitem pelo menos sete vezes mais óxidos de nitrogênio, precursores do tóxico ozônio, do que veículos a gasolina.

No Brasil eles trazem um risco adicional: os particulados finos (PM2,5), que aumentam o risco de câncer. Como o país decidiu ser complacente com os teores de enxofre no diesel vendido fora das metrópoles, é impossível por aqui instalar os filtros que reduzem as emissões de particulado. O resultado são emissões de PM2,5 30 vezes maiores do que as de carros a gasolina.

Tudo somado, no pior caso, o Conselho Internacional para o Transporte Limpo projeta que aceitar o diesel em carros de passeio poderá mandar 150 mil brasileiros a mais para perto de Jesus antes da hora até 2050. Entre eles, supostamente, membros do rebanho do bispo Crivella, que, se fossem consultados, prefeririam passar mais tempo entre os pecadores do que adentrar o reino dos céus.

A justificativa do então senador para ungir o projeto foi fundamentalista: segundo o parecer, as resoluções do Conselho Nacional de Trânsito e do Departamento Nacional de Combustíveis que vedam a utilização do diesel não são leis. Como ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer nada senão em virtude de lei, elas são abusos de autoridade. Coisas do diabo. Precisam cair.

Ainda mais surreal é a argumentação do autor do projeto, o senador pelo PP de Alagoas Benedito de Lira: segundo ele – acreditem, irmãos! –, o diesel em veículos leves tem crescido na Europa “em função das menores emissões dos gases causadores do efeito estufa”. No Brasil, ele seria uma medida necessária para promover o crescimento do biodiesel, assim como a adoção maciça do álcool veicular nos anos 1970 levou ao carro flex. O argumento não faz sentido lógico. Liberar o diesel para promover o biodiesel seria mais ou menos como chutar uma santa para promover a fraternidade.

O primeiro efeito da adoção do diesel seria, isso sim, a morte do carro a álcool, uma vez que o etanol já tem dificuldades para competir com a gasolina hoje. Como a produção de biodiesel não tem nem de longe a escala necessária para substituir o álcool, mesmo que fosse o caso, o efeito prático seria menos biocombustível na matriz nacional – portanto, um aumento das emissões de gases de efeito estufa. O segundo efeito seria estimular ainda mais o transporte individual (leia-se engarrafamentos), na exata contramão da necessidade dos moradores das metrópoles brasileiras.

A comparação com a Europa deveria ser exorcizada para sempre da lista de argumentos dos vendilhões do diesel. As grandes cidades europeias estão, uma após a outra, fixando calendários para eliminar carros a diesel de suas vidas nos próximos 15 anos. (Isso, claro, tem deixado as montadoras preocupadas. Abrir novos mercados para desovar o encalhe, como o brasileiro, é de interesse estratégico da indústria automobilística. Fecha parênteses.)

Em grande parte, o banimento progressivo do diesel ocorre por motivos de saúde pública, mas também por conta de regulações climáticas. Nesta segunda-feira (12), mesmo dia em que a pauta da CCJ era anunciada, circulou também uma petição com 23 mil assinaturas de moradores de grandes cidades do mundo demandando, em nome da saúde e do clima, que as montadoras parem de fabricar carros a diesel. Amém!

A petição segue um anúncio feito no último dia 2 pelos prefeitos de Paris, Atenas, Madri e Cidade do México de que essas cidades banirão esses veículos até 2025. A resolução foi adotada no âmbito do C40, o grupo de metrópoles que se dedica a avançar a agenda climática.

Não quero deixar os cariocas com saudade, mas o atual presidente do C40 é um tal Eduardo Paes.

 

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Escrito em por & arquivado em Diversos, Economia e Clima, Energia, Política e Clima.

(Por que a nova lei do pré-sal pode ser uma péssima notícia para o planeta)

luis_macedo_camara

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Na última quarta-feira, o mesmo dia em que o mundo comemorava o sinal verde para a entrada em vigor do Acordo de Paris, a Câmara dos Deputados do Brasil aprovou um projeto de lei que vai na exata contramão de tudo aquilo que o tratado estabelece: os deputados decretaram o fim da exclusividade obrigatória da Petrobras na exploração dos campos de petróleo do pré-sal. Na prática, isso significa que o Brasil deverá produzir mais óleo e mais rápido, afastando-se – e ao mundo – da trajetória de estabilização do aquecimento global em menos de 2oC.

O projeto aprovado naquela noite por 292 votos a 101 é de autoria do então senador José Serra (PSDB-SP). Sim, Serra, aquele mesmo que em seu discurso de posse como chanceler elevou a proteção do clima e o cumprimento da “especial responsabilidade” do Brasil na área ambiental a prioridade número três de sua política externa. É de questionar se o Serra senador e o Serra ministro vivem no mesmo planeta.

A exploração de petróleo no Brasil é feita no chamado esquema de concessão. A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) licita blocos para exploração, que são arrematados pelas empresas petroleiras. Todo o óleo que elas acharem é delas, mediante pagamento de uma série de taxas ao governo (royalties, participação especial e bônus de assinatura). Em compensação, o risco também é das empresas: se não acharem petróleo no bloco licitado, que peninha – o governo não tem nada com isso.

O pré-sal tem um regime de exploração diferente: a chamada partilha, aprovada em 2010, num arroubo ufanista do governo. A partilha funciona com base no princípio de que o risco de não haver petróleo nos blocos é baixo. Ou seja, o governo assume o “risco”, mas, em compensação, fica sendo o dono do óleo. Qualquer empresa que queira explorá-lo precisa dividir a produção com o Estado, em proporção a ser definida de acordo com o tamanho do campo e a quantidade de óleo. Ainda paga royalties e a chamada participação especial ao poder público.

Não se dando por satisfeito com o controle sobre o recurso, o governo ainda quis controlar a operação do pré-sal: a lei de partilha criou a figura da Petrobras como operadora única; ou seja, só a estatal pode furar poços e extrair petróleo nessa área, não importa quem sejam seus sócios. E ainda tem que ter, obrigatoriamente, 30% de participação em todos os blocos arrematados. Para habilitá-la a dar conta do desafio, o governo promoveu uma mega-capitalização da empresa, injetando-lhe US$ 70 bilhões em troca de um aumento na própria participação acionária na empresa para 41%. Ou seja, pelo regime de partilha, o petróleo torna-se um negócio essencialmente estatal.

Parece bom negócio, certo? Mas não se esqueça de que estamos no Brasil.

Já na época da aprovação da lei de partilha estava claro até para as cracas das plataformas de petróleo que a Petrobras não daria conta do recado. E não deu. O início da produção atrasou, as sondas e os navios de produção tapuia que deveriam ter ficado prontos para a missão não ficaram e, cereja do bolo, o preço do petróleo despencou, jogando os lucros da Petrobras no chão (a estatal já vinha entubando prejuízos desde 2006, quando o governo começou a segurar o preço da gasolina para controlar a inflação).

A partir de 2014, as investigações da PF e do Ministério Público sobre as atividades da cúpula da Petrobras nos deram o Petrolão. Em 2015, a empresa foi forçada à decisão sem precedentes de não publicar o balanço do ano anterior, que saiu meses depois registrando um prejuízo de R$ 6 bilhões causado por corrupção. O valor de mercado da empresa entrou em queda livre. Naquele ano, a revista Superinteressante publicou uma reportagem com um título matador, que definia a situação a que havia chegado a outrora maior empresa da América do Sul: “Petrobras já vale menos que o WhatsApp e deve meio Facebook”. Hoje a empresa prepara desinvestimentos da ordem de dezenas de bilhões de reais para focar na exploração do óleo ultraprofundo. Estimava-se que o Brasil seria o terceiro ou quarto maior responsável pelo crescimento da produção de petróleo no mundo entre 2012 e 2035. Isso não aconteceu.

O projeto de Serra tem o objetivo de mudar essa escrita. Ele visa retirar da Petrobras a obrigatoriedade de ser operadora única e sócia de todos os projetos do pré-sal. Isso abriria a possibilidade de outras petroleiras, com mais capital disponível, investirem no petróleo ultraprofundo do Brasil. O governo ganharia menos dinheiro por poço com a mudança. Mas, para compensar, a produção tenderia a subir. Como disse ao Blog do OC uma fonte do setor, “petróleo lá embaixo não gera riqueza para o país”.

E é aqui que a porca climática torce o rabo.

Uma área supostamente riquíssima em óleo (há quem fale em mais de 170 bilhões de barris), de baixo risco exploratório, sem Greenpeace por perto e ainda por cima num país democrático é o sonho dourado das petroleiras. O valor de mercado dessas empresas depende da quantidade de novas reservas recuperáveis que elas conseguem acrescentar ao seu portfólio. Nas últimas décadas elas têm tido problemas. Vários países em desenvolvimento, como Venezuela e Nigéria, nacionalizaram suas reservas, fechando os poços à carteira das múltis. O Mar do Norte, onde produz a Statoil (uma das poucas empresas como a Petrobras que detêm tecnologia para explorar em águas ultraprofundas), chegou ao pico de produção e agora declina. As areias betuminosas do Canadá, caras de extrair, esbarraram na queda dos preços (devida ao choque de oferta causado pelo “fracking” nos Estados Unidos) e em resistências ambientais locais que ecoaram em Washington. O Ártico, aposta bilionária da Shell, foi para a geladeira pelas mesmas razões. O pré-sal é música para os ouvidos dessas empresas. Quem duvida dê uma espiadinha nas conversas entre o então senador Serra e a petroleira americana Chevron, vazadas pelo Wikileaks.

O apetite das empresas, porém, não significa necessariamente que a produção do pré-sal vá acelerar da noite para o dia. Mesmo que acelere, há quem defenda que o pré-sal não vá ser necessariamente um desastre para o clima. Isso porque seu óleo, leve e de alta qualidade, poderia tirar do mercado parte do óleo pesado venezuelano, mais “sujo”.

A questão é saber se o pré-sal cabe no Acordo de Paris. Isso depende de para quem se pergunta, mas o bom senso sugere que não.

No mês passado, a organização não-governamental Oil Change International fez uma conta. Considerando o tamanho das reservas provadas e em desenvolvimento (ou seja, que já vêm sendo exploradas) de óleo, gás e carvão no mundo todo, ela concluiu que, para que tenhamos uma chance de 50% de nos mantermos em 1,5oC (a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris), precisamos deixar 85% das reservas comprovadas e já em desenvolvimento de combustíveis fósseis no subsolo; para termos 66% de chance de estabilizar a temperatura em 2oC (o limite considerado “seguro”), precisamos deixar 68% dessas reservas intocadas.

Isso significa que, na ausência de uma revolução completa na captura e armazenamento de carbono nos próximos dez anos, “nenhuma infraestrutura nova de extração ou transporte de combustíveis fósseis deveria ser feita no mundo”. Para usar as palavras de um ilustre senador do Petrolão, “delimitava onde está, pronto”: os poços e minas já existentes poderiam funcionar até o seu declínio enquanto o mundo se debruça sobre a transição para as energias renováveis.

Não é uma conversa fácil ou uma história que os governos queiram ouvir. Mas, a partir do próximo dia 4, serão forçados a escutá-la, já que o Acordo de Paris entra em vigor e a meta de evitar o aquecimento de 2oC passa a ser lei no mundo inteiro. Se os governos estiverem falando sério sobre evitar o caos climático, viver em negação sobre o futuro dos combustíveis fósseis só fará o tombo ser maior mais adiante. Entendeu, Serra?

 

Foto: Protesto na galeria da Câmara dos Deputados na quarta-feira contra o projeto de lei que flexibiliza a partilha do pré-sal (Imagem: Luís Macedo/Câmara dos Deputados)

Escrito em por & arquivado em Ciência do Clima, Diversos.

Meta de 1,5oC do Acordo de Paris está “quase certamente perdida” devido à falta de ação no passado

 

Poluidores

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Um grupo de cientistas idosos e já sem papas na língua resolveu contar “a verdade sobre as mudanças climáticas” num relatório publicado nesta quinta-feira (29). E o que eles têm a dizer não é nada conveniente para o estado geral de oba-oba que se instalou no mundo após o sucesso do Acordo de Paris. Segundo o relatório, a meta mais alta do tratado do clima, de estabilizar o aquecimento global em 1,5oC, está “quase certamente perdida” devido às emissões de carbono do passado. E a meta mais baixa, de estabilização em menos de 2oC, pode ser perdida já em 2050 caso não seja feito um esforço de corte de emissões muito maior do que qualquer coisa que esteja na mesa de negociações hoje.

“Esse relatório reflete o drama dos cientistas que começaram a alertar para o problema”, disse ao OC o físico José Goldemberg, 88, presidente da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ele é um dos sete autores do documento, capitaneado pelo inglês Robert “Bob” Watson, 68, primeiro presidente do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). “Os cientistas que começaram isso estão cansados, velhos e vão morrer em breve”, brincou Goldemberg. “Eles se sentem obrigados a alertar sobre a espada de Dâmocles que paira sobre a humanidade”, prosseguiu, a sério, referindo-se ao aquecimento global.

O relatório, publicado por uma fundação argentina, é um documento curto, de 12 páginas, que se propõe a responder a oito perguntas incômodas. Entre elas, “por que tem sido tão difícil agir sobre o clima?”, “por que o público não entendeu a urgência da mudança climática?” e “uma transição para as energias renováveis resolverá a mudança do clima?”

Uma das maneiras de encontrar essas respostas foi fazer o que cientistas físicos fazem de melhor: botar números sobre a mesa. Segundo eles, para estabilizar o aquecimento em menos de 2oC, as emissões globais (54 bilhões de toneladas de CO2 hoje) deveriam cair 22% até 2030. No entanto, se todos os compromissos dos países para o Acordo de Paris (as chamadas NDCs) forem cumpridos na íntegra, as emissões em 2030 estarão no mesmo nível das atuais. Se apenas a parte não-condicionada (ou seja, as reduções que os países farão mesmo na ausência de financiamento externo, por exemplo) for cumprida, as emissões em 2030 serão 6% menores do que as de hoje.

O “buraco” de implementação para cumprir a meta seria de 17 bilhões de toneladas, o equivalente a todas as emissões da produção de energia do mundo inteiro. Para que a porção condicional das INDCs seja cumprida, os países em desenvolvimento precisarão de dinheiro dos ricos, que em Paris prometeram US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020. Estamos em 2016 e pouco mais de 10% disso foi disponibilizado por governos desenvolvidos.

Segundo Watson e colegas, mesmo com os compromissos já adotados o aquecimento global tende a ultrapassar o limite de 2oC no meio do século. Apenas entre 2012 e 2015 a temperatura já subiu de 0,85oC além da média pré-industrial para 1oC, e há mais 0,4oC a 0,5oC de aquecimento já comprometido devido à inércia do sistema climático, por conta dos gases emitidos no passado e da inação nos últimos 20 anos.

“A principal preocupação não é quando o objetivo de 2oC será excedido, mas com os impactos da mudança climática resultantes de tal aumento”, escreveram os autores. “Eventos extremos climáticos dobraram em número desde 1990. Um aumento na temperatura global de 2oC no próximo par de décadas implica em dobrar novamente o número desses eventos.”

Para desespero daqueles que vêm alardeando a transição para uma matriz elétrica renovável – algo que começa a ganhar tração no mundo, com o crescimento explosivo da energia solar e a queda de seu preço – como a panaceia para a crise do clima, os cientistas dizem que apenas isso não vai dar conta do recado.

O que o grupo advoga é uma “mudança radical” na maneira como o mundo produz e usa energia, atingindo emissão líquida zero em 2060 a 2075. Porém, como a humanidade procrastinou no clima por 20 anos, isso exigirá “opções mais restritivas e caras”. Entre elas, a chamada captura e armazenagem de carbono (CCS) pelas plantas de combustíveis fósseis e as emissões negativas, com CCS em usinas de bioenergia (o chamado BECCS) – uma tecnologia que os próprios pesquisadores dizem ainda não estar demonstrada e que traz riscos diversos. “As INDCs inadequadas aceleraram a dependência dessas tecnologias”, afirmam Watson e seus coautores.

Eles dizem esperar que tal dependência possa ser “reduzida” por meio do aumento da ambição das INDCs, a partir de 2018.

 

 

Escrito em por & arquivado em Diversos, Energia.

Enquanto deputados tentam liberar carros de passeio movidos a diesel, relatório afirma que só no Brasil 22 mil morrem por ano por exposição a poluição atmosférica

poluicao_do_ar_-_fabio_ikezaki_-_flickr                                    Poluição do ar em São Paulo (Foto: Fábio Ikezaki/Flickr)

 

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Os deputados que defendem a liberação de carros de passeio movidos a diesel no Brasil fariam bem em ler um relatório publicado nesta segunda-feira pela AIE (Agência Internacional de Energia). O estudo afirma que 6,5 milhões de pessoas morrem por ano no mundo devido à poluição do ar, e aponta o setor de transportes como um dos principais culpados.

Só no Brasil são 22 mil mortes prematuras por ano, em média, por exposição a poluentes fora de casa. O número deve crescer para 36 mil em 2040 só por causa da expansão da economia – sem considerar novos usos de combustíveis fósseis, como carros leves a diesel. Uma série de medidas a adotar no setor de transportes, mas também na indústria, permitiria reduzir a cifra a 13 mil no mesmo ano. Ainda inaceitável, mas ao menos na direção certa.

Intitulado Energy and Air Pollution (Energia e Poluição do Ar), o documento faz parte do World Energy Outlook, o panorama global do setor de energia divulgado anualmente pela agência. Ele está disponível de graça (em inglês) no site da organização. Esta é a primeira vez que a AIE se debruça sobre as relações entre uso de energia – leia-se queima de combustíveis fósseis, principalmente – e saúde. O resultado mostra que os benefícios de aumentar a eficiência energética e limitar o uso desses combustíveis vai muito além da redução das emissões de gases de efeito estufa.

“A poluição do ar é uma grande crise de saúde pública, que tem muitas de suas raízes e soluções no setor de energia”, afirma o relatório, segundo o qual a poluição é a quarta maior causa de mortes evitáveis no mundo – atrás apenas da hipertensão, da má alimentação e do cigarro.

A queima de petróleo e derivados, carvão, gás natural e biomassa para suprir as necessidades energéticas de 7 bilhões de terráqueos é a principal fonte de vários desses poluentes: os particulados finos (PM2,5), considerados os mais nocivos; os sulfatos (SO4), tóxicos e percursores da chuva ácida; os óxidos de nitrogênio (NOx), que reagem na atmosfera para formar o ozônio troposférico (O3), também tóxico para animais e plantas; e o monóxido de carbono (CO).

O setor de transportes é o principal emissor de NOx do planeta, respondendo por mais de 50% das 107 milhões de toneladas de óxidos de nitrogênio emitidas em 2015. Também manda para o ar 10% dos particulados emitidos por uso de energia. A maior parte vem do transporte rodoviário de cargas e passageiros. No entanto – e aqui #ficaadica para os nossos parlamentares –, a AIE alerta que os carros de passeio têm o impacto de sua poluição aumentado pelo fato de eles serem usados exatamente onde as pessoas estão: nas cidades.

O relatório nota, como os proponentes do carro a diesel gostam de ressaltar, que, graças a uma série de medidas de controle ambiental adotadas primeiro nos países desenvolvidos, a poluição por automóveis cresce mais devagar do que a frota. No entanto, traz uma conclusão que faz esse argumento em favor do diesel virar fumaça: mesmo o estrito padrão europeu de emissões veiculares, o chamado Euro6, falhou em reduzir as emissões de NOx no mundo real na mesma medida que nos testes.

Para os carros a diesel, a diferença entre o padrão Euro5 (adotado em 2009) e o Euro6 (de 2014) deveria ser uma queda de 55%; a queda real, porém, foi de 25% – e, mesmo assim, as emissões medidas de fato são de cinco a sete vezes mais altas do que nos testes de laboratório. Para os carros a gasolina, as emissões no mundo real aumentaram 20% mesmo com o padrão mais estrito. O escândalo da Volkswagen, que equipou milhões de carros a diesel com um dispositivo destinado a mascarar emissões reais, “despertou a atenção do público” para essa discrepância, afirma a agência.

O relatório propõe um pacote de ações para mitigar o problema, traçando um cenário apelidado de “Ar Limpo” para 2040. O custo total dessa transição é de US$ 76 trilhões em investimentos em todo o setor de energia, comparados a US$ 71 trilhões se nenhuma medida adicional fosse adotada.

A agência não fala em banir ou restringir nenhum tipo de combustível, como o petróleo ou o carvão – o que rendeu críticas ao relatório por parte de organizações ambientalistas, como o WWF. As soluções propostas vão na linha “amigável aos negócios”, por assim dizer: controle de emissões e aumento da eficiência.

Mesmo assim, a AIE argumenta que a adoção de todas essas medidas terá um co-benefício imenso para o clima: o cenário “Ar Limpo” é capaz de produzir um pico global nas emissões de CO2 em 2020. Esse prazo ainda daria à humanidade uma chance razoável de cumprir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a menos de 2oC neste século.

No setor de transportes, além do estímulo ao transporte público, o cenário “Ar Limpo” propõe a adoção do padrão equivalente ao Euro6 no mundo todo, com cumprimento obrigatório até 2025, e teor de enxofre máximo no diesel e na gasolina de 10 ppm (partes por milhão). No Brasil, os padrões de emissão de particulados e NOx e o teor de enxofre (para zonas metropolitanas) no diesel ainda são equivalentes aos do padrão Euro4, de 2005. Pior ainda, no final desta década ainda será vendido no Brasil diesel com 500 ppm de enxofre, algo que já não existe na Europa há décadas.

No Brasil, todas essas medidas esbarram no PL1.013/2011, que libera a venda e fabricação de carros de passeio a diesel sem nenhuma contrapartida ambiental. De autoria de um deputado do baixo clero fluminense e patrocinado pelo notório Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o projeto está para ser votado a qualquer momento numa comissão especial da Câmara, onde tem fortes perspectivas de aprovação.

Se passar, argumentam especialistas e até o próprio governo federal, significará um desestímulo ao transporte coletivo e aos biocombustíveis, já que o diesel é mais barato que o álcool. De saída, também implicará num aumento do número de pessoas expostas à poluição atmosférica nas metrópoles brasileiras – e, por tabela, no número de mortes precoces evitáveis.

Se os nobres parlamentares ainda tinham dúvida sobre a conveniência da proposição, vale dar uma boa lida no relatório da AIE. Prejudicar a saúde dos próprios eleitores não parece boa estratégia para quem quer receber seus votos no futuro.

 

Foto da homepage: Marcos Santos/USP Imagens

Escrito em por & arquivado em Diversos.

Concentração de CO2 na atmosfera ultrapassa barreira simbólica de 4 centenas de partes por milhão e pode superar limiar da catástrofe em 25 anos, sugere estudo de grupo internacional

 

co2_data_mlo

CLAUDIO ANGELO

DO OC

Algumas coisas desagradáveis são para sempre: ex-cônjuges, impostos e, agora, 400 partes por milhão de CO2 na atmosfera. Perto do último item, os dois primeiros são uma bênção.

Um grupo internacional de cientistas acaba de publicar um estudo no qual prevê que a concentração de dióxido de carbono no ar em 2016 terá a maior elevação de todos os tempos e terminará o ano no patamar de 404 ppm. Ou seja, em cada milhão de moléculas de ar no planeta, haverá 404 do principal gás de efeito estufa de origem humana.

Dito assim parece pouca coisa. Mas, nos últimos 800 mil anos, essa concentração jamais ultrapassou 300 ppm. E, quando chegou nesta faixa, o mar subiu cerca de 10 metros no mundo todo, devido ao derretimento do gelo da Groenlândia e de parte da Antártida.

É que o gás carbônico segue a máxima segundo a qual os piores venenos estão nos menores frascos: ele é tão eficiente em aprisionar o calor irradiado pela Terra na atmosfera que mesmo uma quantidade ínfima tem grande potencial de aquecer o planeta.

Então, 404 ppm definitivamente não parece um limiar recomendável para cruzar. Só que é tarde demais agora: o climatologista Richard Betts, do Met Office britânico, e seus colegas afirmam que não retornaremos tão cedo a patamares de concentração de CO2 menores do que 400 ppm. Mesmo que a taxa anual de acúmulo desse gás no ar caia nos próximos anos em relação a 2016 – o que é muito provável que aconteça –, a humanidade poderá ultrapassar o limite de 450 ppm em cerca de 25 anos. Este é o limite que separa o mundo de um aquecimento potencialmente catastrófico neste século.

A nova análise foi publicada nesta segunda-feira (13) na edição on-line da revista Nature Climate Change. Ela tem entre seus autores o americano Ralph Keeling, da Universidade de San Diego, que dedica sua vida a medir CO2 no alto do vulcão Mauna Loa, no Havaí. Trata-se de um antigo negócio de família, que rendeu ao mundo uma das constatações mais chocantes sobre o aquecimento global.

TAL PAI, TAL FILHO

Keeling ainda não era nascido em 1958, quando seu pai, Charles, instalou no alto do mesmo vulcão o primeiro equipamento para medir as concentrações de CO2 na atmosfera. A pesquisa de Charles Keeling tinha como objetivo comprovar ou não a tese de um professor dele, Roger Revelle, de que o CO2 produzido por atividades humanas estava se acumulando perigosamente no ar e aquecendo o planeta. A resposta, dada já ao final do primeiro ano de medições, era positiva.

Keeling pai iniciou uma série de medidas mensais do CO2 que resultou em um dos gráficos mais famosos da história da ciência, a chamada curva de Keeling (que ilustra esta página). As medições foram continuadas por Ralph após a morte de Charles, em 2005.

A curva é cheia de “dentes”, que correspondem à variação sazonal da quantidade de carbono no ar: esta sobe no outono e no inverno, quando as florestas do hemisfério Norte perdem suas folhas (liberando carbono por decomposição), e cai na primavera e no verão, quando ocorre a rebrota (e o sequestro de CO2 do ar). Ano após ano, porém, o que a curva mostra é um crescimento contínuo das concentrações do gás. No primeiro ano de medição, havia 315 ppm de CO2 na atmosfera. Em 2013, o limiar de 400 ppm foi cruzado pela primeira vez no outono, no pico sazonal. Mas a média anual ainda estava abaixo disso. Em 2015, o valor anual fechou em 400,9 ppm.

Na última década, a concentração de gás carbônico no ar tem crescido a uma taxa média de 2,1 ppm por ano. Só que em 2016 ela deve ser ainda maior: 3,15 ppm. Trata-se de uma previsão feita por Betts, Ralph Keeling e colegas com base no comportamento de dois fatores conhecidos: o ciclo de carbono, que inclui as emissões de CO2 por desmatamento e combustíveis fósseis, e as temperaturas do oceano, que determinam quanto CO2 dissolvido no mar acabará na atmosfera (quanto mais quente, menos CO2 o mar absorve).

A aceleração prevista se deve, neste ano, ao malvado favorito do momento entre os climatologistas: o El Niño. O fenômeno cíclico do aquecimento do Oceano Pacífico aumenta a emissão de carbono por ecossistemas tropicais e o risco de incêndios florestais, como ocorreram em 1998 na Amazônia e na Indonésia e neste ano novamente na Indonésia.

O modelo usado pelos pesquisadores para fazer sua previsão da concentração anual foi testado para alguns meses deste ano. A previsão era a de que o CO2 chegasse a 407,57 ppm em maio e 406,7 em abril. A medição no Mauna Loa, porém, registrou 407,57 ppm já em abril, o que sugere que o modelo pode ser ligeiramente otimista. A força do El Niño deste ano é tamanha, notam os pesquisadores, que a alta é esperada mesmo com a ligeira queda na taxa de emissões por uso de energia no mundo entre 2014 e 2015.

Mas e depois que o El Niño passar e o planeta entrar na fase fria conhecida como La Niña, ainda este ano?

“As concentrações mínimas anuais de CO2 poderiam cair novamente abaixo de 400 ppm? Isso é excepcionalmente improvável”, escreveram os autores. Aqui quem entra em ação para controlar a marionete do CO2 são as emissões humanas. E, mesmo no cenário mais benigno de emissões descrito pelo IPCC, o painel do clima da ONU – um cenário que envolve sequestro maciço de carbono em usinas de bioenergia e que Keeling, Betts e colegas dizem que é também pouco crível de alcançar –, as concentrações ficam acima de 400 ppm até o ano 2150. “Portanto, nossa previsão apoia a sugestão de que o registro do Mauna Loa não voltará a mostrar concentrações menores que 400 ppm no nosso tempo de vida.”

 

 

 

 

 

 

Escrito em por & arquivado em Ciência do Clima.

Pesquisadores do Canadá acabam de recalcular quanto o mundo esquentaria caso resolvêssemos torrar todos os combustíveis fósseis ainda existentes; limite é maior do que se imaginava

 

children

CLAUDIO ANGELO
DO OC

Nove graus Celsius e meio. É isso o que a Terra poderá esquentar nos próximos 250 a 300 anos caso a humanidade resolva torrar todas as reservas de combustíveis fósseis existentes. Claro, esta seria a média: o Ártico, mais sensível, esquentaria até 19,5oC. E o centro-sul do Brasil, que já aqueceu mais do que o resto do mundo, poderia chegar quase lá.

Os números vêm de um estudo canadense que acaba de ser publicado no site do periódico Nature Climate Change. É até difícil imaginar o que seria viver num planeta sob essa temperatura – assumindo, claro, que a manutenção da vida humana fosse possível. Mas pense por um momento no que tem sido seu dia-a-dia no último ano e meio, com um globo “apenas” 1oC mais quente. Você não vai querer chegar a 2oC, o limite máximo de aquecimento prometido pelos governos no Acordo de Paris, além do qual os impactos da mudança do clima poderão sair do controle. E de jeito nenhum flertaria com a ideia de 9,5oC.

Trata-se de um limite teórico. Uma situação extrema, do tipo “deu a louca no gerente”, “Donald Trump presidente do mundo”, ou algo assim. Um cenário muito improvável, no qual todos os países do mundo resolvessem manter a matriz energética global do jeitinho que ela é – ou melhor, era até poucos anos atrás –, partindo para a exploração das reservas comprovadas de carvão, petróleo e gás até o último metro cúbico.

No entanto, é preciso levar tal cenário em conta para balizar os esforços globais de mitigação, afirmam os autores do novo estudo, liderado por Katarzyna Tokarska, da Universidade de Victoria, no Canadá. O que eles mostraram foi que o limite teórico de aquecimento da Terra é maior do que se imaginava até agora, uma afirmação cujo único corolário possível é que a maior parte das reservas de combustíveis fósseis terão de ficar no subsolo – e isso inclui o pré-sal do Brasil.

Tokarska e colegas resolveram forçar os modelos computacionais que simulam o clima da Terra ao máximo, para testar uma ideia que lhes parecia estranha: o planeta teria uma espécie de termostato no qual a temperatura varia em sincronia com o aumento dos gases-estufa no ar até um certo ponto: 2 trilhões de toneladas de carbono, ou 7,2 trilhões de toneladas de CO2 no ar. Depois desse ponto, o tal termostato não funcionaria mais com a mesma precisão e o aumento de temperatura desaceleraria, mesmo com o aumento contínuo das emissões. Mecanismos de autorregulação do planeta entrariam em ação, impedindo a subida linear do termômetro.

O grupo canadense descobriu que esse não é o caso. Para isso, os cientistas usaram quatro modelos globais do clima de último tipo, os mesmos usados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) em seu último relatório, de 2013.

Eles fizeram rodar os modelos em computador até o ano 2300 no cenário de emissões mais pessimista. E concluíram que o termostato global se mantém firme e forte mesmo a altíssimas concentrações de carbono: a relação CO2-temperatura é linear até mesmo no cenário extremo de 5 trilhões de toneladas de carbono, ou 18 trilhões de toneladas de CO2 emitidas. É mais ou menos o que contêm as reservas comprovadas de combustíveis fósseis.

Um mundo de 9,5oC não teria gelo em lugar nenhum. A Antártida e a Groenlândia inteiras derreteriam, elevando o nível global dos mares em pelo menos 60 metros. Temperaturas extremas e mudanças nos oceanos causariam extinções em massa. Já com 4oC de média alguns estudos têm sugerido que vários milhões de pessoas poderiam morrer em regiões como o centro-sul do Brasil, que neste século pode ficar 8oC mais quente.

Felizmente, por um lado, a economia política global parece estar nos desviando dessa trajetória. O consumo de carvão mineral parece ter chegado ao pico em países como EUA e China ao mesmo tempo em que fontes renováveis estão cada vez mais baratas e são adotadas em escala cada vez maior. As promessas feitas pelos países no Acordo de Paris, as INDCs, propõem algum grau de redução de emissões: mesmo que insuficiente para garantir a estabilização da temperatura em menos de 2oC, elas permitem afastar cenários de 4oC ou mais.

Infelizmente, porém, não há nada no sistema internacional ou na estrutura do Acordo de Paris que garanta o cumprimento das INDCs, ou mesmo a adoção de novas e mais ambiciosas metas pelos países. Afinal, todas as contribuições são voluntárias, e todas as decisões de mitigação pertencem, por assim dizer, ao foro íntimo de cada país. E há países que chegaram recentemente à farra fóssil e não planejam sair dela tão cedo – como o Brasil. Mesmo que o limite de temperatura do novo estudo seja um pesadelo distante, há muito mais estrago entre 1oC e 9,5oC do que sonha a nossa climatologia.

Escrito em por & arquivado em Diversos.

suor

DO OC

Atire o primeiro leque quem nunca sentiu aquela leseira ao tentar trabalhar num dia de calor forte. Um grande estudo do Pnud (Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento) publicado nesta semana mostrou que os países tropicais têm sofrido quedas na produtividade dos trabalhadores devido ao aumento das temperaturas globais nos últimos 30 anos. E esse quadro só vai se agravar nas próximas décadas, causando perda em horas de trabalho e tornando os países pobres ainda mais pobres – mesmo que nós consigamos manter o aquecimento global no limite de 1,5oC proposto no Acordo de Paris.

Listamos abaixo sete conclusões do estudo que farão você temer pela saúde dos trabalhadores, especialmente os braçais, e desejar que o outono não acabe nunca.

1 – Trabalhar no calor de fato faz mal à saúde. O corpo humano só funciona direito em temperaturas internas próximas de 37oC. Quando a temperatura externa se é maior que esse valor, o organismo tenta compensar pelo suor. Só que a alta umidade relativa do ar em alguns lugares e épocas do ano e as roupas de trabalho impedem que o suor evapore. O resultado é que o corpo pode entrar em choque por insolação, que no limite é fatal. A maneira como o cérebro tenta evitar isso é reduzir o ritmo de funcionamento do organismo – e, portanto, o ritmo de trabalho, especialmente em atividades que demandam esforço físico.

2 – A medida de “calor extremo” varia de lugar para lugar. Não é preciso estar no verão de Cuiabá para sofrer redução de produtividade por calor. A chamada WGBT, ou “temperatura de bulbo úmido”, índice que mede a tolerância do corpo humano, varia em função de calor, radiação solar, umidade e vento. O limite pode ser inclusive menor que 37oC. Para trabalho pesado, perdas de produtividade começam a ocorrer a 26oC de WGBT.

3 – O impacto em perda de horas de trabalho pode ser dramático. Um estudo recente feito com trabalhadores na colheita de arroz na Indonésia mostrou perda de um terço das horas de trabalho quando a temperatura de bulbo úmido subia de 26oC para 31oC. É possível reduzir o impacto com uma a duas semanas de aclimatação, mas há limites.

4 – Perdas de produtividade por calor já vêm sendo registradas nos últimos 30 anos nos países pobres. Até 2009, a América Latina já havia perdido 2% de suas horas de trabalho durante o dia por estresse térmico. Em regiões como o Sudeste Asiático e o oeste da África as perdas chegam a 7%.

5 – Vai piorar. Hoje em dia, de 10% a 15% das horas de trabalho por ano no mundo já são quentes demais para a manutenção da produtividade. Esse número aumentará mesmo que o aquecimento global seja mantido em 1,5oC. Com 2,7oC neste século (limite inferior de temperatura dado pela soma das metas de corte de emissões dos países), esse número crescerá 10%. Com 4oC, 30%. Para os mais pobres, que geralmente realizam atividades mais dependentes de exposição ao sol, mais calor significa menos trabalho e menos dinheiro no fim do mês. O Pnud aponta que os próprios Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de redução da pobreza ficam ameaçados pelas altas temperaturas.